terça-feira, julho 31, 2007

Drive

A paisagem começa a mudar. Continuamos no noroeste da Península, mas este já é o norte das montanhas e não dos montes, este é o Norte de um verde diferente do que se pode admirar pelo Minho e Galiza, este é um norte dos picos cónicos que imitam as formas dos seus cedros, assim como, quinhentos quilómetros atrás, os montes em meia lua retratavam as copas dos pinheiros.
A condução começa a fazer mossa. Já não há o mesmo discernimento e as estradas são exigentes. São exigentes e recompensadoras: à nossa direita alta, os “Picos da Europa”, à nossa esquerda baixa, o mar. Ao longo de uma estrada serpenteante esculpida na pedra da montanha, começa-se a sentir o conforto da viagem finalizada, embora ainda faltem cerca de meia centena de quilómetros para o destino. Aproveita-se o cansaço para uma última paragem, descendo até uma arriba. Estacionamos, entramos num café e nem é preciso abrir a boca para notarem que somos estrangeiros. Quando é feito o pedido, as línguas colidem: o meu castelhano não permite uma dicção tão cerrada quanto a dos asturianos. Um pouco de maleabilidade linguística de ambos os lados, o entendimento surge e o pedido é satisfeito. Caminha-se um pouco para se desentorpecer as pernas e a concentração. Abeiramo-nos do fim da falésia para espreitar o mar e ele surpreende-nos: embora esteja lá em baixo, a vinte metros de altura, é com tal violência que as ondas embatem nas rochas, que, ao longo dos séculos abriram fendas nas escarpas, fazendo com que a sua respiração venha desaguar a nossos pés, transformando o chão que pisamos num sem fim de pequenos géisers e nascentes de água – chamam-lhe bufones.


São oito da tarde, quando se chega finalmente a Covadonga com o sentimento de dever cumprido e de prazer anunciado. Algum cansaço que possa existir desvanece-se perante tal paisagem. Não vou chamar para aqui de novo os poetas para dirimirem sobre paisagens e estados de alma. Digo apenas que depois de dez horas de condução tão cansativas quanto deslumbrantes, uma fabada regada com sidra é a única paisagem que reconforta o estado da alma.

Foto 1, 2, 3

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Alice no país das maravilhas

Há um certo rapaz, não digo o nome, que me nomeia uma "espécie" de Alice no país das maravilhas.
Vai daí, lá vou eu a correr "desemprateleirar" a Alice p'ra desentender o remoque.
[A memória, infelizmente, não conserva todos os livros bons que já lemos.
Felizmente também não compota todos os maus.]
Não sei se se lembram, "Alice..." começa assim:

"Alice começava a sentir-se farta de estar sentada ao lado da irmã à beira do rio, e ainda para mais sem ter nada que fazer; por uma ou duas vezes dera uma espreitadela ao livro que a irmã estava a ler, mas não tinha bonecos nem diálogos. «E para que serve um livro», pensava Alice, «sem bonecos nem diálogos?»
Por isso dava voltas e voltas ao pensamento (o mais que podia, pois o dia estava tão quente que se sentia morta de sono e completamente estúpida), considerando se o prazer de fazer um colar de malmequeres compensaria a maçada de ter de se levantar e ir apanhá-los, quando de repente um Coelho Branco com olhos vermelhos passou por ela a correr.
Na verdade, não havia nisto nada de muito especial; e Alice nem sequer pensou que fosse muito fora de vulgar ouvir o Coelho dizer de si para consigo: «Ai, ai! Já vou chegar atrasado!» (Quando mais tarde pensou nisto melhor, veio-lhe à ideia que devia ter ficado espantada com semelhante coisa, mas na altura parecera-lhe perfeitamente natural); porém, quando naquela ocasião o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, viu as horas e apressou o passo, Alice deu um salto e pôs-se de pé, pois de repente lhe acudiu ao pensamento que nunca vira um coelho usar colete nem relógio para tirar do bolso, e, morrendo de curiosidade, correu pelos campos fora atrás dele, e chegou mesmo a tempo de o ver esgueirar-se por uma toca debaixo de uma sebe.
Instintivamente, meteu-se Alice também por ali, atrás dele, sem ter pensado uma única vez como é que iria sair daquela toca."

CARROLL, Lewis, Alice no País das Maravilhas, Porto, Colecção Geração Público, 2004, p. 5-6

Já tinha poucos livros para levar para férias, mais um não faz mal.
Alice é das crianças literárias mais imaginativas e surpreendentes.
Comparar-me a uma criança literária é, para mim, um elogio do caraças!
Vou sair de fininho p'ra não "toparem" o "brilhozinho nos olhos".

Meu Deus, até o amor por "procriar" palavras existe em Alice.
"Mas que estranhidade!"

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segunda-feira, julho 30, 2007

vamos andar de comboio!

No compartimento, dois jovens desconhecidos, pouco faladores, uma mãe e uma criança que não fala português. Perante o nosso animado jogo de cartas, há sorrisos disfarçados e uma observação/participação maravilhada da criança. Paragem mais demorada na fronteira para trocar a máquina do comboio; sim, porque a portuguesa não serve para a linha espanhola. Neva!... Tenta-se dormir, acho que não se consegue... Pequeno-almoço no comboio. Chegada a Hendaye ainda sem clarear.

Depositar as mochilas no local de dormida e toca de arranjar um sítio para tomar um pequeno almoço reforçado. Passeio matinal pela terrinha que ainda amanhece, estremunhada. Almoço. Completar do passeio e regresso ao local de dormida... Umas horinhas para recompor o sono... E jantar... Complicado arranjar sítio... «E aquele por onde passámos de manhã?...» Fechado... «E a pizzaria?...» Fechado... «Olha uma seta!...» Fechado... Esta gente não come ao domingo à noite?! Resignamo-nos ao cafezinho em frente à estação... Tem televisão e hoje é dia de Benfica-Porto... mas estamos em França!!! Pois, acontece que o golo benfiquista é francês, portanto, temos direito a ver imagens ao intervalo no noticiário... Má memória :) Adiante!... Curto passeio nocturno pela terrinha já adormecida e uma boa noite de sono! Há que aproveitar bem o dia de amanhã...

O horário do pequeno-almoço é sempre um bom motivo para levantar a horas decentes... Análise detalhada da paragem de autocarro para perceber como chegar ao porto... Espera prolongada... Será que há autocarros hoje?... Ontem quase não havia restaurantes... Lá vem... Chegada ao porto, passagem para o outro lado, já Espanha. Passeio por Hondarribia e regresso cronometrado a tempo do barco e do autocarro de regresso. De tarde, passeio de comboio, de novo, a Espanha: Danostia. Mais um passeio, desta vez com direito a comboinho turístico – maneira cómoda de conhecer a cidade em pouco tempo. Regresso a Hendaye. Malas prontas. Mais uma vez a estação, desta feita para apanhar o TGV já ali para o lado; o comboio parte de Irun.

No compartimento, um ucraniano apreciador de música, um português e/imigrante bastante dado àquela viagem, mais dois moços desconhecidos pouco dados a conversas. Jantar no comboio e convívio no bar permite um regresso tardio ao compartimento. Dormem... Vamos alternando entre um repouso pouco confortável e um passeio no corredor. Amanhece. Já podemos ver a paisagem que nos escapou no escuro da ida. Pequeno-almoço tranquilo com os montes portugueses como pano de fundo. Chegamos a casa!...

fotos "nossas"

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Estou a tentar postar

sem ganhar uma gota de suor.

Carlos, eu sou uma espécie de Ilha dos Amores?

Estou em vésperas de partir para férias, nestes últimos dias tenho andado numa azáfama dos diabos, espantei-me, por diversas vezes, entre o diabo e a azáfama .

Os meus espantos, um a um:

- o senador "a minha verdade é que sou um americano homossexual" casado com a portuguesa Dina Matos. Ao que parece o senhor quase chegou à casa branca. Este "quase" é empiricamente rico. Tal como é humanamente rico o comportamento do ex-senador "a minha verdade". A senhora ex-mulher do ex-senador que ex-chegou à White House deveria ter colocado como título do seu livro "História Exemplar de Dina Matos e Jim McGreevey*" o asterisco remeteria os americanos para o conto extraordinário de Mark Twain "História Exemplar de Edward Mills e George Benton"em que o bonzinho Edward carrega aos ombros, durante toda a vida, as agruras do mauzinho George. A sociedade transforma Edward no símbolo do "Sê puro, honesto, inimigo da bebida, trabalhador, respeitado, e nunca te faltarão amigos" e coroa-o na lápide com o epitáfio "Sê puro, honesto, inimigo da bebida, trabalhador, respeitado, e nunca terás...", entretanto, durante toda a vida, o mauzinho George foi "impuro, desonesto, amigo da bebida, preguiçoso, aldrabão, ladrão, e nunca lhe faltaram candidatos a ajudá-lo a converter-se numa alma sã" entre a conversão e a desconversão de George, o malogrado Edward passou fome, foi roubado e morto pelo irmão. O ex-senador Jim, ex-habitante da Casa Branca, seria um exemplar digno de conversão para qualquer americano bonzinho que se preze.


- Marianne Faithfull cantando "Like Being Born". Não há palavras!

- A facilidade de fazer um pequeno filme com o Movie Maker. Há três semanas que, nos tempos livres, ando a experimentar e divirto-me imenso (olá, Carlos!).

- Os amores de Salazar de Felícia Cabrita, revelam uma outra faceta do Presidente do Conselho. Cabrita diz que Salazar nunca fez nenhuma mulher feliz, pois a sua leitura dos romances de Salazar colocam a mulher num papel de vítima utilizada para um determinado fim. Não direi que no caso de uma ou outra tal não tenha sido verdade, contudo, tanto a jornalista, como a vidente, como a esfuziante Laura, também souberam tirar partido da relação. Pareceram-me mulheres demasiado práticas para terem sido utilizadas, sem deixarem também de o fazer. Conheci alguns padres, um ex-professor da faculdade e um ex-colega seminarista, cujo perfil era idêntico ao de Salazar: cinzetismo de ideias, beatismo, mesquinhez e manipulação dos outros. Provavelmente será essa a formação essencial de um seminarista.
O livro está escrito de uma forma jornalística, bastante factual, com uma ou outra interpretação mais subjectiva, mas lê-se muito bem.
Apesar de perceber a separação dos capítulos por nomes de mulheres, essa separação torna-se confusa, pois há mulheres que se cruzam temporalmente e, por exemplo, no que diz respeito à "governanta de Portugal" e "Maria Adelaide" os factos são escassos e as páginas que lhes são dedicadas parecem mais uma espécie de "estica-temática".
Contudo, apesar de se sentir que o tratamento do tema teria ficado enriquecido com mais investigação, é uma leitura histórica recomendável para quem pretenda perceber a personalidade de António de Oliveira Salazar.

- Deixo-vos com o meu Best of Verão 2007:

Hey Eugene - Pink Martini
Elis & Tom - Elis & Tom
Neon Bible - Arcade Fire (Carlos, 'tou convertida!)
Groove Junkies 1995 - 2005 - Cool Hipnoise
Marie Antoniette - Banda Sonora
Ella Fitzgerald - The Complete Songbooks (Ella é uma deusa!)
Amoroso/Brasil - João Gilberto
Walk the Line - Banda sonora Johnny Cash
The Decline Of Country And Western Civilization - Lambchop
Gospels - Mavis Staples
Sex Machine: The Very Best Of - James Brown

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domingo, julho 29, 2007

Do Caos e da Ordem

Para quem por aqui passou durante a Festa da Música, sabe que as minhas preferências musicais andam entre o Pop/Rock de gente como os Oasis, Nirvana ou Interpol, o Metal dos Metallica ou Megadeth e os songwritters como Cohen, Cave ou Andrew Bird. Há, no entanto, um senhor russo que acrescenta a Clássica ao meu leque de escolhas. Chama-se Tchaikovski. Quando comprava discos, nunca tinha entendido por que razão ele me obrigava a ir a um posto de escuta ouvi-lo, e, por vezes, a trazê-lo para casa - a Música Clássica não é definitivamente a minha prioridade. Até que um dia, ao ouvir mais atentamente a peça que está aí em baixo, percebi que ela era como a vida, as pessoas e o mundo: um pouco de ordem na orquestra e um pouco de caos no piano. E a arte, como se costuma dizer, é uma imitação da vida.




Aqui, uma versão bem alternativa

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sábado, julho 28, 2007

Drive

O “mal” está feito e a responsabilidade assumida: sem viamichellin, estamos por nossa conta e risco. Aliás, por conta e risco do melhor GPS do mundo: perguntar às pessoas como se vai para. Mas não pensem que é só em Portugal que quando se pergunta uma direcção recebe-se quatro opiniões diferentes de duas pessoas. Isso é uma epidemia mundial. A partir daí segue-se para Lugo. São cerca de cem quilómetros até mais uma das imensas cidades dentro de muralhas romanas que existem no noroeste ibérico e, também como Santiago, com uma majestosa catedral. No entanto, aquilo que mais me recordo de Lugo é de uma rua que era tão simples e tão, perdoem o regionalismo, castiça, que achei que todas as ruas deveriam ser assim. A um canto um saxofonista arrancava um What a Wonderful World, do outro lado, uma vendedora de recuerdos pescava os olhos dos transeuntes para os caçar, as pessoas caminhavam ao ritmo da música e as cores das lojas pareciam ter sido escolhidas por um pintor, tal o efeito de harmonia que o conjunto proporcionava. Fora das muralhas, o pior de Lugo: o trânsito. Ou melhor, as indicações de trânsito: penso que nunca demorei tanto tempo para sair de uma cidade como nesta.
Sai-se de Lugo e entramos na maratona. Vão ser quatro horas de viagem até Gijon. Troca-se de CD, porque, como é sabido, não há uma única estação de rádio em toda a Espanha que não passe a Ágata lá do sítio, e, embora Pessoa tenha contrariado aquilo que Amiel disse, “a paisagem é um estado de alma”, colocando-a nos termos de que um estado de alma é que é uma paisagem, não há poetas nem estados de alma que contestem a percepção de que a paisagem começa a mudar.
Não perca o emocionante epílogo desta blogonovela de viagens

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Estação pateta

Cara Silly Season,

Portuguesmente falando, és apenas a Época Pateta. O nome inglês soa melhor, a retinir campainhas, a sibilar de assobios, a festa de guizos. Estrila muito mas significa pouco. Não tenho nada contra as guizalhadas, embora não seja um praticante entusiasta. Mas contra as carneiradas, tenho. Cresci numa saudável rebeldia contra o conformismo. Ora tu, Estação Tonta, és o exemplo mais acabado, retinto, e rebaixado desta tirania do banal que põe todos a dançar ao toque da mesma caixa. Sob a tua aura e protecção campeiam os estagiários de jornalismo, os militantes da chalaça, os bobos de ocasião. E vá de perguntinhas, e vá de expedientezinhos, e vá de entreter o pagode que só quer é rir, à torreira do sol, a sacudir a areia do croquete, enquanto as crianças chilreiam na praia. Pobre enfeitada Sazão Foleira, vê se percebes que, apesar do lastro de alarvidade que a tua teimosia quer preservar, já vai havendo muitos cidadãos que não têm pachorra para sandices.

Mário de Carvalho in "Visão" nº751, 26 de Julho de 2007


Mário de Carvalho foi recentemente galardoado pelo romance Um Deus passeando na brisa da tarde. Decididamente um dos meus escritores contemporâneos de eleição.
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sexta-feira, julho 27, 2007

Nunca pensei que um dia pudesse vir a dizer isto:

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daa da da da-daa da da da-da-da-da-da


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Slows

- O camarada Jerónimo declamou em pleno Estado da Nação.
- Os camaradas também se corrompem, os camaradas chineses também são destituídos, já não há camaradas corruptos destituídos como no antigamente.
- Conhecem o Roy Buchanan? Aquela guitarra parece ter uma alma viciada em melancolia.



Outros slows
Diálogo com um computador intempestivo chamado Acer:
Acer - Tenho de converter cadeias perdidas de ficheiros.
Eu - What?
Acer - Já só faltam 20%.
Eu - És um rapaz assaz lento.
Acer - My dear, apenas 45%.
Eu - É impressionante a quantidade de ficheiros que consegues converter, apenas em segundos.
Acer - Querida, preciso de sossego, 'tou a fazer contas de cabeça, apenas 75%.
Eu - Vou propor-te para a conversão de pessoas, a judiciária precisa de computadores terapêuticos, como tu.



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quinta-feira, julho 26, 2007

Gebrauchsanweisung für Portugal

Dois livros sobre o balcão: Darum nerven die Japaner e My dear Krauts. A senhora sorriu, à medida que pegava nos livros, e, enquanto fazia a conta, comentou a multiculturalidade da minha escolha. Aproveitei a simpatia e delicadeza no trato e perguntei se não tinha algo sobre Portugal. Não. Apenas aquele. Agradeci a informação e lamentei não haver mais nenhum. Tinha-o há uns anos, religiosamente entre as relíquias de leitura e de viagem, ainda a primeira edição em capa dura. Comentámos algo sobre a colecção e adiantou-me que fazia parte do compromisso dos autores escrever sobre os países sem rodeios e com toda a sinceridade e honestidade. Paguei, guardei os livros num saco de pano amavelmente oferecido, acredito que pela troca prazeirosa de palavras e fui-me.
Gebrauchsanweisung für Portugal, assim se chama o livro. Traduzido à letra significa Instruções de Uso ou Manual de Instruções e fugindo quer aos manuais de instruções, quer aos comuns guias de viagem, o autor discorre sobre o país. Neste Manual de Instruções de Portugal, com o qual me cruzei em Munique há uma boa meia dúzia de anos, Eckhart Nickel é o escriba, Portugal o objecto da escrita e da escrita transparece o amor incondicional por este país de fadas - Märchenland-, assim o considera. A paixão por Portugal nasceu de forma fortuita, mas como todas as paixões, intensa e arrebatadora. Conta que, numa triste tarde de Dezembro de céu ameaçadoramente cinzento prometendo neve, ele e um amigo não conseguiam prosseguir com o trabalho entre mãos e que, ao procurar algo que os consolasse da inacção e invernia, depararam-se com uma garrafa de Vinho do Porto Niepoort na garrafeira da cave. O primeiro gole como um orgasmo. O Inverno lá fora esquecido e o desejo de conhecer mais sobre o país de origem dessa verdadeira poção mágica apresentou-se de imediato como um apelo irresistível, guiando posteriormente Eckhart Nickel a Portugal.
Poupar-vos-ei a traduções de qualidade duvidosa – traduttore=traditore – nas páginas deste livro encontro mais do que julgo sermos e, mesmo se, aqui e ali, espreita timidamente o paternalismo do país pequenino, como se quer um país de fadas, há um encanto permanente nas gentes, um fascínio pela História e pelos escritores, bem presente nas citações frequentes de Bernardo Soares, uma surpresa nos hábitos do quotidiano em que as novelas e a gastronomia ocupam lugar de destaque e, acima de tudo, um carinho imenso por este lugar que Nickel descobre e se redescobre a cada linha.
imagem: minha

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Pesetero 2

À chegada a Madrid, questionado pelos jornalistas, Simão declarou: “Estou feliz, e quero triunfar neste clube”. O “clube” a que Simão se refere, como todos sabemos, não passa de um clube de bairro que, com muita sorte e algum esforço, talvez consiga classificar-se um pouco acima do meio da tabela da Liga Espanhola. Porém, desta feita, o sorriso de Simão não enganava ninguém: estava realmente radiante(1).

A esta hora cerca de [diz-se] 6 milhões de portugueses devem-se estar a interrogar: como é que um jogador [seja ele qual for] com contrato vitalício com o maior clube do mundo(2), que até está no “conceituado” Guinness Book, o deixa, para ir jogar num clubezeco com meia-dúzia de sócios(3)?

A verdadeira resposta a esta questão é amplamente conhecida dos [diz-se] 4 milhões de portugueses remanescentes, mas na versão “oficial” a saída de Simão prende-se essencialmente com a pretensão do jogador em querer jogar num campeonato mais competitivo e, claro, de poder passar a auferir o dobro do salário.

O que não me admira nada é que daqui a cinco anos, com 33 a caminho dos 34, Simão volte em ombros ao Ésse Éle Bê para fazer mais um contrato de cinco anitos, até aos 39/40, para que Rui Costa possa, finalmente, reformar-se.

Mas tenho de ser sincero, como Sportinguista, fico bastante satisfeito com a saída do Simão. Para o cenário ficar [ainda] mais cor-de-rosa, só falta mesmo o Quaresma também sair do Fê Cê Pê.

(1) Já não lhe via aquele sorriso “sincero” desde que "saiu" do Barcelona e assinou o contrato "vitalício" com o Ésse Ele Bê.
(2) Traduzindo do lampionês para o português: clube com a maior acumulação de sócios do mundo. Este acervo inclui todos os “sócios” que não pagam quotas [nem nunca fizeram tensões de o fazer] assim como todos os sócios defuntos, acumulados desde da data da fundação do clube [que ao contrário do que se vai dizendo por aí, ainda não perfaz os 100 anos de existência].
(3) Este número só inclui sócios vivos e com quotas em dia.

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dona melancia debuchando

dona melancia repondo seus Ray Ban - 'cê viu, benzinho, a memória dessa menina daí?
dom melão mirando perna alheia - essa menina não come queijo desenfreadamente como 'cê, meu bem.
dona melancia inclinando óculo e pensando: será possível? - ´cê tá realmente convencido de tamanha patranha, benzinho?
dom melão a perna dessa menina é um colosso - não 'tou não, meu bem.
dona melancia esse menino é mão cheia de mau caminho e surfa e tudo - 'cê é mas é um trapaceiro, já não há homem como no antigamente.
dom melão xi, que grande figurão - 'cê tá bancando uma de "garota de ipanema", meu bem.
dona melancia e 'cê tem certeza que consegue manter-se impune perante essa onda? - "garota de ipanema", eu? 'cê pensa qu'essa deslavada 'tá consciente de seus direito?
dom melão essa menina é um pedaço de virtude - sabe porque eu não passo sem 'cê, meu bem?
dona melancia de nariz empinado e anuindo: é, 'cê ainda tem toda essa idade! - conversa fiada.
dom melão ajeitando sua toalha na areia e semicerrando pensamento - 'cê é uma espécie em vias de ebulição.

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Um saco do lixo tecnológico

A empregada do café dirige-se para o caixote do lixo exigido, actualmente, pela inspecção, uma espécie de Ecoponto.
Levanta a tampa, lá dentro compartilham miudezas o caixote azul, o amarelo e o verde, ergue o azul e despeja-o no saco de lixo preto, o mesmo procedimento para os restantes.
Fecha a tampa do caixote do lixo.
Lá dentro outras miudezas:
Azul admirado - não sabia que já existiam sacos do lixo tecnológicos.
Amarelo empertigado - ai não? andas muito desfasado.
Verde altruístico - as raparigas são fantásticas, já viram como conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo.
azul - qual fantásticas, qual carapuça, o saco de lixo é mas é tecnológico.

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Parabéns, Mick!


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a democracia...

[Adaptado de memória (de forma muito livre) do episódio desta semana de ER...]

Luka:
Tu és daqueles que ainda acredita que, se o mundo aderisse todo à democracia, seria um mundo melhor...

eu:
??? Mas... mas... eu também... então não era suposto???!!!...

Carter: ... E qual é a alternativa?! ditaduras militares?!

eu: Pois, isso! Qual é a alternativa?...

Luka: Quem cá está é que sente. Quem cá está é que sofre. Quem cá está é que morre. Quem cá está é que vê morrer... Os soldados americanos voltam nos seus aviões, para as suas casas, para as suas esposas, para os seu filhos, os seus sofás e as suas televisões...

eu: Mas isso não é "culpa" da democracia...

Carter: Mas também morreram americanos no Iraque!...

eu: Ó lindo, agora estás a ser mais ingénuo que eu... A questão aqui não é tanto sobre os soldados que morrem... É sobre os que não morrem, sobre o que fica para eles viverem...

Luka:
Mas não são as mulheres americanas que são violadas, não são as crianças americanas que são mutiladas... Ainda que por cá os movam inicialmente orgulhos nacionalistas e sentimentos patrióticos, mais cedo ou mais tarde, as coisas deixam de fazer sentido... Quando se começa a perder a família e as raízes deixa-se de saber porque é que se há-de continuar a viver a guerra... Aí começa a sobrevivência... Os rostos audazes de outrora são agora estes rostos assustados e temerosos...

Carter e eu:
...

... ... ...

eu:
Espera lá... mas isso não é "culpa" da democracia, pois não?...

... ... ...

eu: Não é, pois não?...

A democracia é o pior
de todos os sistemas
com excepção de todos os outros
[...]
Há muitos países que julgam
que têm democracia
inclusive às vezes o nosso
mas encha-se de justiça o fosso
e erga-se a liberdade ao meio
que só de intenções está o inferno cheio

Não há justiça sem liberdade
e o vice-versa é também verdade
essa é a luta, no fundo
p’los direitos humanos no mundo

Sérgio Godinho, "A Democracia (aforismos)" (1989)

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quarta-feira, julho 25, 2007

A minha casinha

Eu gosto da minha casinha. A minha casinha é amarela com portadas verdes. A minha casinha tem um jardim. Da minha casinha vejo o mar. A minha casinha fica a meio caminho entre o mar e a cidade. E, na minha casinha, posso fazer o que quero. Na minha casinha posso escrever, ler, ouvir música, cozinhar, dormir, descansar, cantar, rir e falar. Na minha casinha as palavras são bem-vindas. Na minha casinha posso ver televisão. Na minha casinha posso ver televisão e adjectivar a contento a entrevista do primeiro-ministro. Na minha casinha posso perorar sobre a entrevista do primeiro-ministro, classificar o desempenho do primeiro-ministro, aplicar uns impropérios libertadores, adjectivar abundantemente o primeiro-ministro, socorrer-me de vocábulos eloquentes e variados, recorrer a estruturas sintácticas e construções semânticas politicamente incorrectas e/ou socialmente reprováveis – só as felinas o poderão avaliar- e dizer exactamente o que quero e o que penso, dentro da minha casinha. A minha casinha é amarela com portadas verdes. A minha casinha tem um jardim. Gosto muito da minha casinha.
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Vaias?

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Por vezes há reformas que são incompreendidas

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Não sei de nada!

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Isto é para quem tem ânimo, vontade e determinação

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Absolutamente inadmissível

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Quem? Conheço mal!

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Insinuações que começam nos blogues

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Não estou a pensar em baixar os impostos até 2009

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Falta de perspicácia

Diz José Socrates, a propósito da contratação de crianças para a apresentação do Plano Tecnológico para a Educação, que tanto ele como a Ministra da Educação ficaram surpreendidos. A ausência de vaias devia ter sido desde logo um indicador fiel de que algo não estava bem. Ao que parece não costumam ser tão bem recebidos.
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um murro no estômago...

Ontem terminou na RTP2 mais uma temporada (a nona) de ER (Serviço de Urgência)... Foi forte, muito forte... Eu sei que sou fraquinha e que me incomodo com as imagens das operações, dos órgãos todos para lá a mexer cheios de sangue, das agulhas e dos bisturis. E nesta altura, perguntam vocês, então, porque vejo eu a série... ER vai muito além disso, além da cama de operações, além das chegadas das ambulâncias,... Há vidas, relações, problemas, dúvidas e decisões... Mas neste episódio isso também foi forte!

Carter juntou-se a Luka por uns dias na missão de voluntariado em África... A África das guerras e das guerrilhas. A África onde não se vive... sobrevive-se! A África que nos mostra a insignificância dos nossos problemas... Eu sei que essa África existe, mas instintivamente tendo a esquecê-la... E, depois, de cada vez que tropeço nestas histórias, levo um murro no estômago... Antes deste acho que foi com "Diamante de Sangue"... Fico uns momentos anestesiada, sem capacidade de reacção... Sinto-me pequenina, pequenina, pequenina... Carter, inconsolável, insurgia-se contra o facto de ali se morrer de algo facilmente curável com um medicamento de $10... Luka, mais conformado, muda-lhe o ponto de vista: «Hoje vacinámos 200 crianças! Quando é que em Chicago, salvaste 200 vidas num só dia?...»

A fechar o episódio, o regresso a Chicago e um beijo silencioso na testa de Abby que dorme tranquila... - acalma o espírito e serena a tensão...

imagens (1) (2)

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Memórias de Viagens

- ir a Nice e ficar estarrecida com as senhoras dos cãezinhos, Tchékov inspirou-se naquelas senhoras.

- ir ao Mónaco e ter finalmente assumido a minha deficiência na área Matemática, eram demasiados Ferraris por m2.

- entrar na Alemanha via Sudeste (eu e os pontos cardeais costumamos conviver razoavelmente) percorrer o centro, ir até Berlim, e, quando me encontrava quase quase na fronteira, ter-me enganado no combustível e passar a noite em casa de um mecânico alemão que não sabia falar outra coisa que não alemão, ter dormido uma sesta numa espécie de sofá e ter arrancado já de manhãzinha.

- o português nas ruas do Luxemburgo e a pousada da juventude mais nojenta que me apareceu pela frente (a de Bruxelas também é séria candidata).

- a linguagem polifónica das ruas de Bruxelas.

- a monumentalidade de Berlim e o azedume dos alemães quando nomeava o muro.

- Bratislava e o âmago de duas civilizações.

- a entrada decadente da República Checa e a luz de Praga sobre o rio.

- a euforia das ruas de Londres, o verde, as casinhas, os taxis, o Museu Britânico (aquela gente fartou-se de pilhar).

- os Van Goghs do Museu Van Gogh.

- o estacionamento de bicicletas à entrada de Amesterdão, a decadência dos drogados, a red zone e os diques.

- as máscaras, o Carnaval e a folia de Veneza.

- a má educação de um policial, numa esquadra de polícia em Barcelona. A extraordinária riqueza intelectual da "Sagrada Família", as casas de Gaudí e Las Ramblas.

- o snobismo dos franceses, o Louvre, finalmente a Gioconda, segue-se em frente e encolhe-se os ombros. Afinal, já vi a Gioconda.

- a Viena rica, estonteante e exibicionista.

- a monumentalidade do Parlamento de Budapeste.

- a ostentação de Cannes, a inexistência de areia decente e as escarpas sobre a praia.

- a fruta tropical, o mar estilo "caldo" e um certo estilo de vida na República Dominicana. Quando abriram as "cancelas" a pobreza, a jovialidade e o regatear conviviam habilmente num linguarejar castelhano.


Fotos de uma certa HP já reformada, de cima para baixo:
Berlim, Bratislava, Praga e Áustria




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terça-feira, julho 24, 2007

Drive

Numa época em que o avião é preferido para as viagens, sempre que posso e a distância não é proibitiva, utilizo o automóvel. Com o conforto actual dos ditos, faz-se uma viagem com centenas de quilómetros sem ficar com o corpo todo moído e tem-se a enorme liberdade de ir visitando pequenas vilas, aldeias, gentes e paisagens que de outro modo não poderíamos conhecer.
Uma boa viagem de automóvel inicia-se sempre com três rituais: a constatação de que não houve tempo para fazer uma revisão ao carro; a inspecção das malas, para saber se não nos esquecemos de nada, sabendo nós que ao quilómetro cento e cinquenta da viagem vamos lembrarmo-nos que ficou para trás a única coisa que não podia nos podia faltar; e a quebra da promessa que às nove da manhã, em ponto, engrenaríamos a primeira velocidade: são dez e ainda as malas não estão fechadas.
O percurso até à primeira paragem é sempre feito em auto-estrada. Estamos frescos, suportamos melhor a concentração que uma maior velocidade exige e, de qualquer forma, escapamos mais rapidamente da paisagem que quotidianamente, para mal dos pecados, nos cerca. Quando a fome começa a apertar, decidimos mandar às malvas o que o viamichellin nos sugere, sai-se da auto-estrada e entramos dentro de Santiago de Compostela: onde já se viu comer uma tarte de Santiago numa estação de serviço? Come-se numa esplanada, situada nas labirínticas ruas da cidade velha e aprecia-se uma cena inolvidável: um artista de rua faz equilibrismo com umas bolas transparentes. Uma rodava na cabeça, outra nos braços, passa uma do ombro direito para o ombro esquerdo. E estamos nisto, quando sai disparado do meio da esplanada um cão que provocou o descer do pano do acto com uma praça cheia de bolas transparentes a rolar no chão em todas as direcções e igualmente preenchida pelos sorrisos de quem assistia a tão peculiar cena. E uma esplanada repleta de sorrisos é o melhor sinal de que estamos de férias.
Continua

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Doze letrinhas apenas

Se se for daqui para aqui é muito provável que se passe por aqui. E este aqui, além de uma aldeola curiosa com os Alpes em pano de fundo, é uma palavra com doze letrinhas apenas: O B E R A M M E R G A U, duas menos do que Neuschwanstein, Carlos.
Oberammergau é uma terrinha abençoada pelo turismo que acorre em massa para ver as pinturas exteriores nas fachadas das casas – Lüftlmalerei- mais uma dúzia de letritas, testemunho do passado barroco financeiramente favorecido e catolicamente devoto, comprar uns souvenirs, regra geral, objectos em madeira talhados manualmente – Holzschnitzerei- quinze letras apenas, figuras de caminhantes ou apenas um Edelweiss. De dez em dez anos, Oberammergau é palco da representação da paixão de Cristo em agradecimento à graça divina concedida com o desaparecimento da peste e do sofrimento causado pela Guerra dos 30 anos. Os actores são todos amadores, os homens, diz-se, não cortam as barbas e cabelos durante muito tempo para serem fisicamente mais fiéis ao tempo que retratam. No ano 2000 teve lugar a 40ª representação, a próxima será portanto em 2010, os preparativos já começaram, e, estima-se, que as barbas a crescer também. Tudo isto pela módica quantia de doze letrinhas apenas:
O B E R A M M E R G A U.

foto: minha

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dança contemporânea

Num passeio rápido de primeira visita ao Bandeira ao Vento, deparei-me com um vídeo de dança – coisa rara por onde quer que nos passeemos!... E lembrei-me que tenho um post em atraso, já escrito há uns tempos, mas que perdeu oportunidade...


Ora, dança contemporânea... Concordo com a primeira parte... tenho dúvidas na segunda!

Quando a dança contemporânea é, de facto, dança, o contemporâneo dá-lhe liberdade de movimento, o corpo é utilizado de forma inesperada e todo ele é material de trabalho. O inesperado surge-nos de duas formas: a naturalidade e a anti-naturalidade. A utilização de movimentos naturais surpreende-nos pela sua banalidade, que, de tão banal, não estamos à espera que seja dançável. O recurso a movimentos anti-naturais choca-nos pela falta de hábito e surpreende-nos pela exequibilidade.

Mas, por vezes, o contemporâneo "esquece-se" que também é dança e passeia-se demasiado – digo eu! – por outras áreas. Surgem, então, coisas estranhas que convidam à introspecção ou à reflexão do meio. Isso não é mau, mas é preciso que eu consiga alcançar o mínimo – o que nem sempre acontece: há peças que me ultrapassam completamente!!!

Gosto do convite reflexivo do contemporâneo, mas gosto também do que ele é, do que ele mostra e não só do que ele quer ser, do que está por detrás de tudo. Eu sou um bocado básica: o resultado tem de me ser agradável à vista!

A minha relação com o contemporâneo é, portanto, um bocado atribulada... Mas o balanço recente é muito positivo! Rui Horta, Né Barros, CNB com peças de Olga Roriz (e outros que desconheço completamente) e algumas coisas mais caseirinhas que tenho visto por aí... Tem-se dançado! É bom! :)


Resta dizer que o vídeo do Bandeira ao Vento também encaixa, obviamente (?), nesta positividade.

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Que fazer com tanto zelo

Que magnânima! E agora, Margarida Moreira?
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Arraiais

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Espreitando a blogosfera

Aqui na província isto também se "vê".
A província é, no entanto, mais democrática.
Os casos que vão passeando pelos meus olhos abarcam qualquer ideologia.
É o sintomático tratar da vidinha.
Ou será antes uma espécie de agentes de cidadania?




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segunda-feira, julho 23, 2007

Ls e Rs

lichtung

manche meinen
lechts und rinks
kann man nicht velwechsern
werch ein illtum


Ernst Jandl

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viagem relâmpago...

Agora, num post apressado, fica também a viagem mais rápida que já fiz: ida e volta de avião no mesmo dia... País desconhecido, que o continuou a ser. Uma terra pequena num país grande. Uma voltinha pela cidade, pela Santa Catarina lá do sítio. Pouco ficou. Cidade parada para nos receber. Gente calma e organizada que assistia pacificamente à nossa visita. Acho que estivemos sentados exactamente nesta esplanada até desistirmos de sermos atendidos. Não era por mal, mas o tráfego de visitantes parecia estar bem acima da média. Levantámo-nos e, mesmo antes de cairmos na solução trivial para a refeição rápida (também visível na foto), ficámos na fila das salsichas – humm humm humm!!! Salsichas enormes num pão que parece servir apenas para segurar nas ditas sem sujar muito as mãos – humm humm humm!!! Continuação da voltinha, inevitavelmente comercial... Gente civilizada com quem partilhámos o espaço... emoções e alegrias...

Retorno ao objectivo da viagem... Mais gente, mais partilha, mais emoções e mais... alegrias... Umas horas depois, embarque de regresso demasiado confuso... But... who cares?!... :)

Língua indecifrável, que o continuou a ser... Sabia apenas meia dúzia de palavras, que arrisco pronunciar, mas não me atrevo a escrever – a Leonor ainda me bate! :) Mas uma, aprendida especialmente para a ocasião, não esqueci: Gelsenkirchen!!! ;)


Há viagens que nos marcam por motivos bem mais além dos lugares e das gentes que nos recebem!... Eu estive a conter-me – a sério que estive! – mas tem mesmo de ser... não ficava completo o post. Com licença...

imagens (1) (2) (3)

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Slows

|Os meus agradecimentos a quem intercedeu junto do São Pedro, hoje 'tá a chover!

|Uma chuvinha, de vez em quando, em pleno Verão até é bem-vinda.
Chuva e algum Sol, de vez em quando, em pleno Verão é irritante.

|Já visitaram a vila de Santa Maria da Feira?

|"Foi Assim" de Zita Seabra, um outro alvo de assédio.

|O jazz cantado é um dos meus alvos musicais predilectos. O que se pede a um cantor jazz? A "coolest way" de interpretar a realidade. É mais por aí Lena!

|Dúvida um tanto mesquinha: no meio de tanto candidato, alimentaria Portas a esperança de brindar Telmo Correia (TC) com uma vereação?

|Gostava muito que me explicassem, por poucas palavras, o que se passa no BCP. Pensar em TC e JG como: "Tão mau é despertar um lobo como cheirar uma raposa?" (Falstaff, p. 84, El-Rei Henrique IV, Lello & Irmão) poderá ser considerado um tanto redutor?

|Leram no Expresso a nova abordagem da PSP à criminalidade? (pensamento de um cínico: esta ainda acredita em contos de fadas!)

|Dúvida reaccionária: O António Costa (AC) vai aliar-se ao Sá Fernandes?

|Dúvida ideológica: O AC vai convidar a Zézinha?

|Dúvida provinciana: O AC consegue ir de férias com tanto bico de pé?

|Dúvida aristocrática: Ricos, depois da denominação ALL GARVE, 'tamos habilitadérrimos a considerar a Ibéria. Um verdadeiro cosmopolita é aquele que navega em todas as águas (O nosso Afonso, entretanto, já deu algumas voltas no túmulo).

|Caro João Villalobos, deduzo, a partir do seu ponto de vista, que também as raparigas possam associar-se e criarem a sua "reforma agrária", ou o gene masculino é mesmo a única forma de estabelecer laços com os antepassados? Esse seu ponto é, escrupulosamente, irredutível?

|A semana adivinha-se problemática. Não há problema sem solução!


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domingo, julho 22, 2007

Os meus agradecimentos...

a quem intercedeu junto de instâncias superiores por causa desta súplica.
Hoje está SOL!

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Sul


foto: minha
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Até agora podiam?

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frio?!... qual frio?!...

E lá fui eu, novamente, à Praça. Mas, desta vez, bem prevenida: três camisolas, duas meias-calça, calças até aos pés, cachecol, kispo com carapuço, e ainda na carteira luvas e gorro. Assim, sim! Enrolado o cachecol de volta da garganta, fechado o fecho e as molas do kispo até ao pescoço, protegidas as orelhas com o lenço da cabeça e posto o carapuço quase até aos olhos... assim, sim! Não houve frio que me incomodasse. E só para confirmar: estou a falar a sério!!! Eu devia ser a pessoa mais agasalhada de toda a cidade! :)

E, completamente enchouriçada, na Praça vi:

- Grupo de Bombos de Lavacolhos: meia dúzia de bombos grandes e pequenos, uma flauta e vozes deram uma volta em frente à Casa e entraram na Praça, gritando a abertura do palco. Contive uns pequenos saltos, pois ninguém parecia ainda com disposição para danças...

- Chuchurumel + Tiago Pereira: os instrumentos e as vozes, o computador e as imagens, a tradição e a tecnologia: uma combinação excelente! Pessoalmente, achei alguns momentos demasiado electrónicos, mas o conjunto foi muito, muito bom. Deu até para uma desgarrada de acordeão, entre as raízes do vídeo e a actualidade no palco. As recolhas, as vozes, os cantos, a terra, os animais, os instrumentos, os sons,... tudo isso era ponto de partida e de chegada dos dois músicos em palco – tudo fazia sentido!

- Brigada Victor Jara: animados e animadores, mostraram compreensão pelas caras enregeladas, brincaram com as bandas da moda made in Portugal, criticaram o fecho das urgências, lembraram Zeca,... Foi bom! Tiveram direito a encore, de novo Zeca com Janita acompanhado pelas vozes do público e um corridinho (ou outra coisa portuguesa bem rápida...) dançado e aplaudido de forma ordeiramente controlada do palco. Deu para aquecer! Não é que eu tivesse frio, mas foi bom para os desgraçados que (como eu, ontem) resistiram até ao fim no vale da Sibéria da Praça da Casa da Música... Vejam bem, que eu até tirei o carapuço! :)

Amanhã, relembro, a Casa Portuguesa da Casa da Música fecha, de forma gratuita, com o Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo. É ao meio-dia e é dentro da Casa... acho que arrisco deixar o chouriço em casa... :)

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sábado, julho 21, 2007

Livros de reclamações procura-se

Quero o Verão e o calor de volta!
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frio... muito frio!

Diz assim a Casa da Música a propósito dos concertos na Praça:
Em caso de condições climatéricas adversas, os primeiros bilhetes emitidos para os concertos na Praça terão lugar assegurado no interior da Casa até ao limite da lotação da sala.
Ontem fez frio... muito frio!... Mas não choveu... Portanto, a Casa Portuguesa da Casa da Música manteve-se na Praça. Um ciclo com grupos que partem da tradição musical portuguesa, recolhem, preservam e inovam os sons (esquecidos!) das nossas gentes. E tão portuguesa, tão portuguesa era a Casa que o frio de Trás-os-Montes se quis juntar a nós! Não sei se estão a perceber bem: estava frio, frio, frio... muito frio!

E, no friozinho da Praça, ontem, tivemos:

- Marenostrum: grupo de Tavira, acordeão, voz, baixo, guitarra e bateria, acompanhados pelo Quarteto de Saxofones Dythirambus. Muito, muito bom! Durante todo o espectáculo, uma projecção de imagens do Algarve "deles": o Algarve do mar e dos barcos e não o Algarve dos postais das camones na praia. Podiam era ter trazido também um bocadinho do calor de lá de baixo! :)

- Ronda dos Quatro Caminhos: muita gente, muitos instrumentos, muitos sons... demasiada mistura – digo eu! No entanto, acho que as questões técnicas do som não devem ter estado no seu melhor. A bateria abafava completamente os adufes, os violinos e as vozes principais sobrepunham-se às vozes dos coros das adufeiras e do coro alentejano... Foi pena... Mas confesso que o frio... muito frio, frio, frio que estava não deve ter ajudado neste meu juízo.

Hoje, de gorro, luvas, cachecol e casaco de Inverno, isto porque levar a manta e o cobertor é capaz de parecer um bocado mal, estarei de volta!
- 21h30, no exterior da Casa, gratuito: Grupo de Bombos de Lavacolhos
- 22h, no palco da Praça, 5€:
--- Chuchurumel, com projecção de imagens de Tiago Pereira
--- Brigada Victor Jara, com Janita Salomé, Gaiteiros de Milidh

A fechar o ciclo, temos amanhã ao meio-dia na Sala Suggia (sala 1), Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo. Gratuito. Então ao meio-dia, quando há sol e calor é que vamos para dentro da Casa?!... :)

Frio... esteve tanto frio, ontem... frio... frio... muito frio...

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Big Show Rodrigo Moita de Deus

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sexta-feira, julho 20, 2007

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A volta ao Mundo 80+27 dias

Imagem via: Fred. Olsen Cruise Lines

A propósito do tema do mês aqui no GR, cada vez que se fala em “À volta do Mundo” lembro-me de imediato da célebre volta ao mundo em 80 dias de Phileas Fogg imaginada por Júlio Verne. No final do terceiro capítulo desse clássico da literatura juvenil pode-se encontrar o seguinte cálculo:

De Londres a Suez pelo Monte Cenis e Brindisi, caminho-de-ferro e paquete – 7 dias
De Suez a Bombaim, paquete – 13
De Bombaim a Calcutá, caminho-de-ferro – 3
De Calcutá a Hong Kong, paquete – 13
De Hong Kong a Yokohama, paquete – 6
De Yokohama a São Francisco, paquete – 22
De São Francisco a Nova York, estrada – 7
De Nova York a Londres, paquete e caminho-de-ferro – 9
Total: 80 dias

Século e meio depois, e por cerca de 13500 € (por pessoa), também “podemos” dar uma volta ao mundo em 80+27 dias, com uma feliz passagem ao terceiro dia por Lisboa. Para os interessados, o programa da viagem pode ser consultado aqui.

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Já conheciam

o Bandeira ao Vento?
E não tinham dito nada?
Não vos perdoo!

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Arritmia

Arritmia é um documentário sobre o Andanças... sem o Andanças... É uma recolha, uma apresentação, uma reflexão sobre o espírito Andanças.

Depois do meu primeiro Festival de Fim de Ano, do meu primeiro Entrudanças e do meu primeiro Intercéltico, este vai ser o meu primeiro Andanças! Diz quem sabe que é uma espécie dos outros três todos juntos e multiplicado por muitos! Portanto, do Andanças propriamente dito só lhe conheço a fama. O Arritmia não me alarga o conhecimento neste sentido, no entanto, firma-me a certeza de um espírito de descoberta, de pesquisa, de tradição, da partilha, de ligação, de preservação, de dedicação,... A preocupação de não esquecer o Andanças para além dos passos de dança!: a necessidade de inovar sem cortar raízes, o agradecimento dos testemunhos, o acolhimento da simplicidade, a importância de aprender com quem sabe, o reconhecimento da genuinidade, a valorização da partilha,... Para além de um festival de danças e músicas, é um festival de pessoas e sons!... - digo eu, que nunca lá fui... ainda!!! :)


trailer

A minha posição é a mais simples de todas, um documentário sobre o Andanças, todo à volta da desconstrução do ritmo, do ritmo das cidades, do campo, da vida. Uma história de um festival de dança, sem imagens do festival, mas com tudo aquilo que o constitui, o Ambiente, a ecologia, a cultura participada, os sons, as pessoas...
Tiago Pereira [o autor]

DVD, 45 min, port/ing
Tiago Pereira
[http://www.modularvideo.blogspot.com/]

lançamento oficial:
The Irish Bar, Viseu
20 Julho, 6ª feira às 22h00

outros momentos Arritmia no YouTube:
- Arritmia os primeiros 8 minutos: A base quase final dos primeiros 8 minutos do meu novo documentario
- arritmia do minuto 35 e 20 ao 38: a sequencia chave as recolhas que como toda a gente sabe eu defendo ate a ultima
- Excertos arritmia: entrevistas arritmia
- arritmia: fim da parte que doi, a discussão continua, as portuguesas
- arritmia sincrono 01 Celina Piedade: Um estudo sonoro do trabalho em curso
- experiência 01: As danças e o post rock sugestão do meu amigo coelho branco

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Alegria no trabalho

Estou tão entusiasmada com o meu trabalho actual que vim aqui para vos dizer isso.
Estou tão entusiasmada com o que estou a fazer agora que vim aqui só para vos dizer isso.
Estou tão entusiasmada com o trabalho que não sei se vir aqui demonstra bem o entusiasmo que eu sinto.
Se calhar vir aqui demonstra dois tipos de entusiasmo:
- o conforto e a satisfação proporcionada(o) pelo "GR";
- a alegria em partilhar o fazer aquilo que se gosta.
E agora vou desbaratar entusiasmo de trabalhar para outro lado.

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quinta-feira, julho 19, 2007

Don´t try this at home

A verdade é que podem não saber quem foi Luís de Camões, ignorar por completo a existência de Fernando Pessoa ou do nosso Prémio Nobel da Literatura, desconhecer quem é o Presidente desta República das bananas sem bananas, é certo e sabido, porém, que o futebol é poderoso nestas coisas da imagem no exterior e, nos países islâmicos que visitei, ficou óbvio que os nossos embaixadores são mesmo os rapazes da bola. Bem me esforcei por arranhar um Saalam Aleikum, um Aleikum Saalam, um Chokran aqui e acolá mas sempre fui recebida com um Luís Figo, Rui Costa e outros tantos assim de rajada.
Era cedo, pelas cinco da madrugada talvez quando nos metemos no autocarro rumo a Marraquexe. A estrada entre Agadir e Marraquexe é estreita e com curvas, tem pouca visibilidade e a condução em Marrocos, pelo que me foi dado a observar não é muito mais cuidada da que se verifica por essas estradas lusas, um susto, portanto. Tudo isto pela manhã não se apresenta como o melhor dos cenários, até porque o meu humor matinal é mais eficaz que repelente e irascível que nem Marte em dias maus. Marraquexe, contudo, merecia o sacríficio. A cidade vermelha, com a Djem El Fnaa pululante de encantadores de serpentes, contadores de histórias e malabaristas com macacos, o sol a pôr-se na praça e a praça a levantar-se em luz e movimento, os mistérios que encerra a Medina e o perfume do chá de menta cruzados com as palavras de Elias Canetti em As Vozes de Marraquexe constituíam a motivação para esta via quase sacrificial através do Atlas.
Algures no meio do caminho fez-se uma paragem e eu fiquei, como convém nestas alturas, entregue a mim própria - eficaz, o repelente,- enquanto o meu companheiro de trilho fumava o seu cigarro descansado. Neste périplo, e enquanto destilava o humor canídeo na manhã tépida, entrei numa loja de souvenirs, vazia àquela hora. O empregado dirigiu-se a mim, perguntou-me a nacionalidade e, perante a mesma, chutou sem hesitar FIGO e eu rematei-lhe sem qualquer finta que não gostava do Figo, que era um pesetero. O homem calou-se, como um guarda-redes impotente perante um golo na sua baliza e deixou-me em paz zigazeando entre as estatuetas de alabastro e outras quinquilharias, sem sequer arriscar um regateio para aquecer as turbinas do negócio.
Quando regressei ao autocarro, relatei a história. Podia lá ser, andar a dizer mal do nosso felpudo mais famoso em terras mouras, que isto e mais que aquilo. Há assuntos que um homem e uma mulher não devem discutir. O Figo é um deles cá por casa e, a caminho de Marraquexe pelas sete da madrugada, assunto tabu.

foto: minha

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Abstenção

Mais um recorde batido na abstenção. Os analistas afirmam que tal é resultado da [baixa] qualidade dos políticos, dos [fracos] hábitos de democracia dos portugueses, do enorme desfasamento que há entre a quantidade de queixas que os cidadãos fazem e a sua participação efectiva em escrutínios que validem tais reclamações. Embora subscrevendo em parte, tenho para mim que tanta abstenção resulta mais de um sistema que prende o cidadão à sua freguesia se quiser votar. Democracia deve ter como sinónimo liberdade, mas no dia de eleições, o dia maior das democracias, um cidadão tem de ficar «preso» durante dez minutos na sua freguesia. É impensável que em pleno século XXI eu não possa exercer o meu direito de voto no Algarve, em Vila Real ou no estrangeiro.
Um paralelismo interessante de estabelecer é com o meio financeiro: eu posso transferir todo o meu dinheiro, aqui e agora, para quem me aprouver. Mas se fosse dia de eleições e estivesse fora da minha freguesia, seria mais um a engrossar os números da abstenção. Actualmente, há meios electrónicos e informáticos seguríssimos, capazes de asseverar que a máxima «um Homem um voto» é respeitada e até melhor preparados para a detecção de fraudes eleitorais do que pelo tradicional caderninho. Como este é um Governo tão embeiçado pelas novas tecnologias, acho que o que de mais importante poderia fazer pela democracia era dotá-la de uma logística que garantisse que todos os cidadãos que quisessem votar o fariam. Porque uma democracia que exista para servir os cidadãos será sempre mais participada e mais legítima do que uma que se serve deles.
Ou será que não querem uma democracia forte?...

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Jane Austen


A minha escritora preferida é, sem sombra de dúvidas, Jane Austen.
Tenho toda a sua obra traduzida em português e, obviamente, há livros que venero e outros assim assim.
Orgulho e Preconceito é o meu preferido.
Seguem-se por ordem decrescente:
Persuasão,
Emma,
Parque Mansfield,
Sensibilidade e Bom Senso.
E, se não me falha a memória, é tudo.
Actualmente estou a ler uma obra menor «Amor e Amizade», Clássicos, Publicações Europa-América, mas a menoridade em Austen é sempre relativa.
É ou não um grande exercício de inteligência sermos capazes de olhar a realidade com este sentido de humor?

"Numa noite de Dezembro, eu, o meu pai e a minha mãe estávamos reunidos em redor da lareira a conversar, quando, subitamente, nos espantámos ao ouvir um bater violento na porta da frente da nossa casa rústica.
O meu pai sobressaltou-se.
- Que ruído é este? - perguntou.
- Parece que estão a bater à porta com toda a força - replicou minha mãe.
- É realmente o que parece - gritei eu.
- Sou da vossa opinião - disse o meu pai. - O som parece certamente advir de uma violência invulgar exercida contra a nossa inofensiva porta.
- Sim - exclamei eu. - Não posso deixar de pensar que se trata de alguém que quer se recebido.
- Essa é outra questão - retorquiu ele. - Não devemos pretender determinar o motivo que leva a pessoa a bater, mas estou em parte convencido de que alguém efectivamente bate com força à porta.
Nesse mesmo instante, uma segunda e tremenda série de pancadas interrompeu o discurso de meu pai, deixando-me a mim e a minha mãe algo alarmadas.
- Não será melhor irmos ver quem é? - sugeriu ela. - Os criados saíram.
- Penso que será melhor - repliquei.
- Certamente - acrescentou meu pai -, sem dúvida.
- Vamos, então? - insistiu minha mãe.
- Oh! Não percamos tempo - gritei.
Uma terceira e ainda mais violenta pancada na porta tomou de assalto os nossos ouvidos.
- Estou certa de que alguém está a bater à porta - disse minha mãe.
- Penso que isso é certo - replicou meu pai." p. 15-16

Para além do invejável sentido de humor, há, acima de tudo, uma certa noção de tempo que infelizmente se perdeu.

Imagem

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na prateleira...

Dizia eu que tenho uns quantos livros na prateleira à espera de serem lidos... Assim, fazendo uma pré-selecção, se tudo correr bem, as minhas leituras deste ano vão passar por estes cinco títulos:

Daqui houve nome Portugal (Antologia de verso e prosa sobre o Porto), organizada por Eugénio de Andrade
5 séculos de literatura, 69 autores, 5 reproduções de pintura, 8 fotografias e 8 gravuras; o mais completo e belo retrato das pedras e das gentes do Porto.

Cartas a uma jovem matemática, Ian Stewart
o que gostava de ter sabido quando era estudante [...:] o que é a matemática, [...] o papel da beleza no pensamento matemático, o futuro da matemática [...] tudo isso num estilo que combina subtileza, humor e um talento para ir direito ao assunto.

A morte melancólica do rapaz ostra & outras histórias, Tim Burton
histórias de humor sinistro [...] em que as personagens, heróis com corpos deformados e hábitos invulgares, projectam os nossos próprios sentimentos de alienação, fazendo-nos rir de uma infância que julgamos ter deixado para trás.

Agostinho da Silva – a última conversa, entrevista de Luís Machado
ao longo de cinco horas, Agostinho da Silva passa em revista o percurso de uma vida [...]; sem reservas e visivelmente bem disposto, aceita o desafio do entrevistador, respondendo a todas as questões e satisfazendo quase todas as curiosidades.

Histórias de mulheres, Rosa Montero
biografias de mulheres [Agatha Christie, Simonde de Beauvoir, Alma Mahler, George Sand, Isabelle Eberhardt, Frida Kahlo,...] frutos de uma visão muito pessoal e de um grande esforço de documentação, revelam sobretudo do campo da paixão, face a percursos extraordinários em que todavia cada um de nós se pode reconhecer.


Há mais ao lado destes e muitos outros ainda à espera nas livrarias a serem namorados há algum tempo... Tempo... O tempo... Sempre o tempo...

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
Meu amor, o tempo somos nós
[...]
Jorge Palma, "Eternamente Tu" (1989)

Eu tenho de ser mais tempo para ler!

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quarta-feira, julho 18, 2007

O Enforcado

Imagem: AllPosters

Para acabar de vez com a Direita só faltava mesmo sair esta carta do baralho.

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As Sete Maravilhas Blogosféricas

Cara Sem Sentido,

Sabemos que andamos adiantados no tempo, mas alguém tem de desbravar caminho, não é?
Senhoras e Senhores, depois de muito alfabeto revisitado, muita sinfonia Mozartiana posta em causa, aqui vai o resultado do escrutínio interno do "GR".
As nossas maravilhas blogosféricas são as seguintes:

Estado Civil

Para o ano prometemos demorar bastante menos tempo.
Ah, e agradecemos "electricamente" a quem votou em nós.

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Viagens imaginárias

1 - A primeira seria até à Índia, fascina-me o país de Gandhi, as paisagens, o monumento ao amor, o cheiro, as casas, os mercados, as ruas, apesar das hierarquias sociais e das suas castas, contudo pelo mundo inteiro encontramos tal prática, um pouco menos visível.
Os mais poderosos (em menor número) a desincentivarem os menos poderosos (em maior número) a ascenderem à posição predominante, chame-se isso fascismo, comunismo, idealismo ou o que quer que seja.
O filme "A bugs life" (Vida de Insecto), 1998, retrata a questão muito bem.

2 - A segunda seria até ao país da estátua da liberdade, Nova Iorque, as Cataratas de Niagara (hello, Thelma e Louise!), o deserto, os cowboys, New Orleans, Los Angeles, o Sul (Hello Scarlett O'Hara!). Andar pelos bares e ouvir blues, country, folk, visitar uma igreja protestante e ouvir gospels, andar num taxi amarelo (hello, taxi driver!), ver os vendedores ambulantes de hot dogs, visitar ChinaTown (hello, jack!) andar de helicóptero sobre Nova Iorque, correr todas as lojas de discos e livros que encontrar, deambular pelas avenidas numéricas, passear por Hollywood, passeio das estrelas, estátuas em pedra, correr todo o meu imaginário cinéfilo em alguns dias.

3 - A terceira seria o Rio de Janeiro, reconstruindo um imaginário que já não existe. O meu deambula à volta de Jobim, Vinicius, Chico, Caetano, escolas de samba, Copacabana, Cristo Redentor, Ipanema, com banda sonora de fundo, actualizando os gostos em todas as discotecas e livrarias que encontrar e, acima de tudo, entristecer a alegria com a violência gratuita, e o nada valer da vida humana. Quando chegar a ir ao Rio, será bem tarde, presumo.

4 - Outras visitas a aguardar melhores dias:

Itália
Rússia
Pirâmides do Egipto
América Latina
América do Sul
China
Japão

5 - Há países que me despertam pouca curiosidade: os países nórdicos, por exemplo, não sou nada de quem fique fascinado por aquele estilo de vida, sou apaixonadamente da Europa do Sul.



Digam lá se estes fatos e estes cabelos e, decididamente, esta letra, não são um excelente hino para um Verão revigorante?

Foto 1
Foto 2
Foto 3
Foto 4

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Crónicas a ler, cidades a ver


Mas é assim: o Rio é a mais bela cidade do mundo e eu queria viver aqui, acordar e ver a Lagoa, ouvir o ruído dos táxis a meio da noite, e saudar a corte portuguesa que, fugindo a sete pés da Lisboa em perigo no século XVIII, fez do Rio uma cidade suportável e destinada a sobreviver. Há males relativos que vêm por bens absolutos.

Francisco José Viegas, "A Beleza impura do meu Rio", na "Volta ao Mundo" deste mês de Julho.

Uma crónica a não perder.
foto: minha

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Venham mais vinte

É certo que o Pedro acabou com chave de ouro, mas foi uma pena terem chegado ao fim. Para quando mais vinte?

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leituras passadas

A Leonor, cheia de boa-vontade, passou-me um testemunho sobre leituras... Não sabia ela no que se estava a meter!... As minhas leituras são menos que poucas... É triste – eu sei! – mas é verdade... E, como a agenda cultural, os livrinhos dos CD's e os rótulos dos iogurtes não são admitidos, tenho de alargar, um bom bocado, o intervalo temporal para conseguir cinco títulos... De qualquer forma, aqui ficam as minhas cinco últimas leituras, ou melhor, as minhas cinco leituras mais recentes – se bem que de recentes têm muito pouco!...

- Queimada Viva, Souad – um relato aterrador e um testemunho actual!!! na primeira pessoa de uma mulher vítima... disso mesmo!...

- Sou Português... e agora?, Luís Filipe Borges – uma colecção de piadas e caricaturas levezinhas, umas melhores que outras, sobre... a tugolândia.

- O Zahir, Paulo Coelho – é... Paulo Coelho... cansei-me!... foi o primeiro livro que não levei até ao fim em toda a minha vida... desisti no fim do primeiro capítulo!

- Retrovisor – uma biografia musical de Sérgio Godinho, Nuno Galopim – preciso de dizer mais alguma coisa?... ;)

- As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll – os divertidos e absurdamente lógicos diálogos da Alice, do coelho e do chapeleiro, do Humpty Dumpty e da Raínha.


Resta-me deixar a promessa de que vou tentar melhorar este pequenina falha... Até porque eu gosto de ler e já tenho uns quantos candidatos na prateleira do quarto, cansados de estar à espera...

Passo o testemunho às meninas do Farpas XXI: Maria Ortigão e Manuela Queirós, para que nos contem as suas cinco leituras mais recentes.

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terça-feira, julho 17, 2007

Barcelona

Barcelona é Gaudí. Barcelona é a Sagrada Família, é Montjuïc, é o bairro gótico, é Raval, é mediterrâneo, é a Casa Milá, é Museu Picasso, é Parque e Palácio Güell, é Casa Vicens, é Las Ramblas, é o Parque da Ciutadella, é El Poble Español, é peixe e vinho, é Bogatell, é Collserola, é catalão, é Gaudí, é Barcelona.

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De azar em azar

Segundo o Henrique, o Portas teve azar: «o azar de ir a votos no lugar do País onde o eleitorado que pode votar CDS é mais urbano, letrado e informado». Como não gosto de dar más notícias, não queria ser eu a dizer isto ao Henrique mas... diz-se por aí que o Portas vai continuar a ter azar: o azar de ir a votos noutros lugares do país onde o eleitorado que pode votar CDS é mais rural, inculto e desinformado.

Mas também não é motivo para desanimar! É sabido que até as estórias mais dramáticas podem ter um final feliz; e aquilo que é o azar de uns, pode muito bem ser a sorte de muitos mais. Antevejo que este venha a ser mais um destes bem-aventurados casos.

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