sábado, maio 17, 2008

O pecado mora ao lado

O abutre é um animal desacreditado, mas se o olharmos de uma forma neutra, verificamos que, tal como qualquer espécie da cadeia alimentar, o bicho apenas precisa de se alimentar.

O desagrado humano em relação àquele animal é tão só porque se alimenta de carne em putrefacção, o que poderá entrar em conflito com certos rituais humanos: como o direito à não profanação de um cadáver. É, aliás, esta crença mítica, que impede muitos seres humanos de doarem os órgãos dos familiares falecidos precocemente, por exemplo.

Lamento profundamente a ignomínia a que votamos o pobre do abutre, pois afinal a causa da sua inglória reside em razões que o ultrapassam.

A injustiça do raciocínio anterior é, igualmente, a fórmula que poderemos usar quando lemos notícias como: “A revolução mais esperada”, a próxima revolução começa em Maio, Educação e Emprego, Saúde e Qualificação de Vida, Comunidades e Participação Cívica, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 29 e 30 de Maio de 2008, um Congresso Internacional, subjugado ao tema Inovação Social.

Afinal as empresas apenas estão a entrar em áreas às quais o estado mínimo pretende estar apenas como parceiro ou regulador do “mercado”, daí que as ONG’s comecem a substituir o estado em papéis que lhe eram tradicionais: o bem-estar social, e transformar o tal bem-estar social num mercado regulado e onde é atribuído o papel primordial à sociedade civil.

O único problema ético é o facto da pobreza e da miséria social serem transformadas numa oportunidade de negócio, por muito que as ONG’s venham invocar o incontornável “associação sem fins lucrativos”.

De repente, os males da sociedade serem transformados em alvos do mercado, do negócio e do investimento soa-me a sordidez, mas se calhar é apenas uma espécie de crença mítica que me impede de olhar para a questão com neutralidade, afinal, tal como o abutre, a razão de ser do mercado é a oportunidade do negócio e isso é algo que também o ultrapassa.

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quinta-feira, julho 26, 2007

a democracia...

[Adaptado de memória (de forma muito livre) do episódio desta semana de ER...]

Luka:
Tu és daqueles que ainda acredita que, se o mundo aderisse todo à democracia, seria um mundo melhor...

eu:
??? Mas... mas... eu também... então não era suposto???!!!...

Carter: ... E qual é a alternativa?! ditaduras militares?!

eu: Pois, isso! Qual é a alternativa?...

Luka: Quem cá está é que sente. Quem cá está é que sofre. Quem cá está é que morre. Quem cá está é que vê morrer... Os soldados americanos voltam nos seus aviões, para as suas casas, para as suas esposas, para os seu filhos, os seus sofás e as suas televisões...

eu: Mas isso não é "culpa" da democracia...

Carter: Mas também morreram americanos no Iraque!...

eu: Ó lindo, agora estás a ser mais ingénuo que eu... A questão aqui não é tanto sobre os soldados que morrem... É sobre os que não morrem, sobre o que fica para eles viverem...

Luka:
Mas não são as mulheres americanas que são violadas, não são as crianças americanas que são mutiladas... Ainda que por cá os movam inicialmente orgulhos nacionalistas e sentimentos patrióticos, mais cedo ou mais tarde, as coisas deixam de fazer sentido... Quando se começa a perder a família e as raízes deixa-se de saber porque é que se há-de continuar a viver a guerra... Aí começa a sobrevivência... Os rostos audazes de outrora são agora estes rostos assustados e temerosos...

Carter e eu:
...

... ... ...

eu:
Espera lá... mas isso não é "culpa" da democracia, pois não?...

... ... ...

eu: Não é, pois não?...

A democracia é o pior
de todos os sistemas
com excepção de todos os outros
[...]
Há muitos países que julgam
que têm democracia
inclusive às vezes o nosso
mas encha-se de justiça o fosso
e erga-se a liberdade ao meio
que só de intenções está o inferno cheio

Não há justiça sem liberdade
e o vice-versa é também verdade
essa é a luta, no fundo
p’los direitos humanos no mundo

Sérgio Godinho, "A Democracia (aforismos)" (1989)

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quarta-feira, julho 25, 2007

um murro no estômago...

Ontem terminou na RTP2 mais uma temporada (a nona) de ER (Serviço de Urgência)... Foi forte, muito forte... Eu sei que sou fraquinha e que me incomodo com as imagens das operações, dos órgãos todos para lá a mexer cheios de sangue, das agulhas e dos bisturis. E nesta altura, perguntam vocês, então, porque vejo eu a série... ER vai muito além disso, além da cama de operações, além das chegadas das ambulâncias,... Há vidas, relações, problemas, dúvidas e decisões... Mas neste episódio isso também foi forte!

Carter juntou-se a Luka por uns dias na missão de voluntariado em África... A África das guerras e das guerrilhas. A África onde não se vive... sobrevive-se! A África que nos mostra a insignificância dos nossos problemas... Eu sei que essa África existe, mas instintivamente tendo a esquecê-la... E, depois, de cada vez que tropeço nestas histórias, levo um murro no estômago... Antes deste acho que foi com "Diamante de Sangue"... Fico uns momentos anestesiada, sem capacidade de reacção... Sinto-me pequenina, pequenina, pequenina... Carter, inconsolável, insurgia-se contra o facto de ali se morrer de algo facilmente curável com um medicamento de $10... Luka, mais conformado, muda-lhe o ponto de vista: «Hoje vacinámos 200 crianças! Quando é que em Chicago, salvaste 200 vidas num só dia?...»

A fechar o episódio, o regresso a Chicago e um beijo silencioso na testa de Abby que dorme tranquila... - acalma o espírito e serena a tensão...

imagens (1) (2)

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segunda-feira, março 26, 2007

É meu e vosso este fado

Tal como Pacheco Pereira também não gosto das antenas eólicas espalhadas pelas serras, a Serra da Lousã já está pejada destes Adamastores terrestres e, infelizmente, não se vislumbra nenhum génio literário capaz de as desmistificar mitificando-as.
As populações não lutam contra o seu aparecimento, tal como não lutam contra as palmeiras, as rotundas, os prédios, o alcatrão, mais os digníssimos e ousadíssimos sinais exteriores de autoritarismo e megalomania abjecta.
Mas se a preocupação dos intelectuais é pelo direito à contemplação de uma paisagem natural em vias de extinção a dos remediados é pelo pão.
E entre uma e outra decorre uma distância cultural e civilizacional intocáveis.


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sexta-feira, março 09, 2007

Isto não é uma delegação. É uma constatação.

Foto: Julius Rooymans

Como no Geração Rasca os homens estão em evidente minoria, é Dia da Mulher sempre que a Cristina a Vera e a Leonor quiserem.

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