domingo, abril 06, 2008

uma casa portuguesa: UPA

Com algum atraso da minha parte [peço desculpa], aqui se abre mais uma janela do projecto UPA. O mês (atrasado) de Março ficou a cargo de Camané e Dead Combo, sob o binómio separação/união.

As guitarras do duo Dead Combo entram devagar e suspendem bem ao jeito do fado para entrar a voz do fadista menino: «O vendavaaal paaassou, nada mais resta». O enquadramento musical mantem-se com o dedilhar lento das guitarras (eléctricas) que arrastam ao sabor do fadista. A voz é de Camané no seu registo. Continua a ser interessante como as parcerias são conseguidas sem esquecer as individualidades: há um todo musical onde identificamos claramente as partes.

O binómio separação/união nasce da relativização comum da saúde mental em face da saúde física, quando deveriam ser consideradas como um todo... A letra solta-se da origem do tema e canta o auto-encontro de quem se perdeu e a importância do equilíbrio interior após uma separação.

Para onde vou? não sei
O que farei? sei lá
Só sei que me encontrei
E que eu sou eu enfim
E sei que ninguém mais rirá de mim

A. Rodrigues, "O Vendaval" (2008)
musicada por Joaquim Pimentel
interpretada por Camané e Dead Combo


Relembro que as músicas são criações originais e vão sendo disponibilizadas na página UPA08
do site da Encontrar-se, onde se pode ouvir a música gratuitamente e fazer o donwload mediante um donativo.

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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

NMP

NMP: Nova Música Portuguesa - será um conjunto de posts que publicarei sobre algumas novas bandas portuguesas que sabem muito bem o que fazem e para onde vão.
Começo com os Sean Riley & The Slowriders. São de Coimbra e dizer que trazem o Farwest para o Choupal é um bom princípio para começar a descrever a sua música. Mas é redutor, porque incompleto, para a paleta de sons e influências que mostram neste primeiro álbum. Destaco neste single de avanço a letra muito bem conseguida, a voz imperfeita e o ambiente que o órgão Hammond empresta ao tema. Fixem este nome e apreciem esta música. Porque em minha opinião ainda vamos ouvir falar muito deles.

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domingo, julho 29, 2007

Do Caos e da Ordem

Para quem por aqui passou durante a Festa da Música, sabe que as minhas preferências musicais andam entre o Pop/Rock de gente como os Oasis, Nirvana ou Interpol, o Metal dos Metallica ou Megadeth e os songwritters como Cohen, Cave ou Andrew Bird. Há, no entanto, um senhor russo que acrescenta a Clássica ao meu leque de escolhas. Chama-se Tchaikovski. Quando comprava discos, nunca tinha entendido por que razão ele me obrigava a ir a um posto de escuta ouvi-lo, e, por vezes, a trazê-lo para casa - a Música Clássica não é definitivamente a minha prioridade. Até que um dia, ao ouvir mais atentamente a peça que está aí em baixo, percebi que ela era como a vida, as pessoas e o mundo: um pouco de ordem na orquestra e um pouco de caos no piano. E a arte, como se costuma dizer, é uma imitação da vida.




Aqui, uma versão bem alternativa

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sexta-feira, abril 20, 2007

em falta: "Domingo no Mundo" (Sérgio Godinho)

No passado mês tivemos aqui na casa a Festa da Música, onde cada um de nós foi publicando vídeos a seu bel prazer. A minha predilecção/evangelização ;) pela música nacional condicionou um bocado a minha selecção, porque, de facto, não é muito fácil encontrar vídeos de qualidade com as músicas dos “meus” artistas. Não sei se estranharam, mas não trouxe à Festa qualquer vídeo de Sérgio Godinho... Obviamente, não por achar que ele não merecesse participar da Festa, mas por encontrar apenas duas ou três músicas com qualidade áudio e vídeo disponíveis. Não que eu não goste dessas músicas, mas, apenas, há outras de que gosto mais, muito mais. Uma excepção que encontrei, por ser uma música que aprecio bastante e por o vídeo ter qualidade, foi “Domingo no Mundo”. Mas uns pormenores técnicos impediram na altura essa publicação...

“Domingo no Mundo” fecha o CD de hoje da colecção do Público. E ao vê-la, lembrei-me da minha falta... Espreitem o vídeo... É uma animação, resultado de um projecto de estudo de ilustração... Só é pena a música não estar completa, pois daria um bom clip...

A música dá título ao álbum de 1997 e deve ser, dos mais recentes de originais, aquele que mais gosto. Comparativamente com os anteriores, sem perder a riqueza das letras, ganhou diferentes arranjos e percussões – digo eu, que pouco percebo do assunto. Sérgio Godinho vai-se sabendo rodear de bons músicos, de diferentes gerações, contribuindo para um rejuvenescimento da sua música. O CD de hoje do Público intitula-se “Anos 90 – Novos Sons na Cidade” e Sérgio Godinho aparece juntamente com Pedro Abrunhosa, Da Weasel Boss AC, Cool Hipnoise, Kussondulola, General D, Clã e Ornatos. Acho uma certa piada de cada vez que associam Sérgio Godinho aos ritmos mais urbanos de poemas “multissilábicos” e o misturam em playlists com bandas mais jovens. Estando nós no século XXI e tendo eu nem metade da idade do senhor, essas associações, para além de me darem mais oportunidades de o ouvir na rádio, fazem-me sentir uma espécie de permissão social para gostar das suas músicas... – mas sobre isto eu ainda hei-de falar melhor um dia destes...

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domingo, abril 15, 2007

«Comparemos Mitologias»

[ou fazendo um cocktail com a agenda interna do GR]

Pessoa está para a literatura assim como Bowie está para a música.

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sábado, março 31, 2007

Rock e ocultismo

Não poderia encerrar a minha participação na Festa da Música do GR sem me referir à divertida relação que existe entre o rock e o mundo do ocultismo.

Segundo reza a lenda, tudo começou com a associação ao satanismo de um dos maiores músicos de blues da década de 30, Robert Johnson. O filme "Crossroads" (A Encruzilhada) aborda superficialmente a história do pacto que Robert Johnson teria feito em troca da sua genialidade musical. Deixo de seguida o excerto do famoso duelo de guitarras de "Crossroads", interpretado magistralmente por um dos mais virtuosos guitarristas de rock da actualidade, o espalhafatoso Steve Vai, que representa no filme uma espécie de demónio da guitarra:


Mas a associação entre o mundo do rock e o ocultismo seria retomada, em força, décadas mais tarde, e direccionada para bandas como Rolling Stones, The Doors, Led Zeppelin, e Beatles. Consta que John Lennon tinha bastante interesse pela obra do famoso mestre do ocultismo, Aleister Crowley*. Fascínio que levou os Beatles a colocarem a figura de Crowley na capa do álbum Sgt. Peppers. Aliás, por Mr.Crowley ser uma figura recorrente em temas rock de sucesso, é também um dos principais responsáveis pela associação que se faz entre o rock e o ocultismo.

Porém, a verdadeira associação, a ser feita, não passaria da tradução musical da obra de alguns dos maiores génios literários da história da humanidade. Assim sendo, não é difícil de detectar a corrente simbolista de Charles Baudelaire na maioria dos temas dos HIM, como em "Poison Girl"; ou recordar os fantásticos contos de Edgar Allan Poe, como "Murders In The Rue Morgue", revisitados por Iron Maiden, ou "The Call of Cthulhu" de H.P. Lovecraft, musicado por Metallica.

Como a partir de amanhã, aqui no GR, a Festa da Música vai dar lugar ao Mês da Poesia, termino com esta brilhante adaptação de, "The Rime of the Ancient Mariner", do poeta Samuel Taylor Coleridge, uma vez mais, na voz de Bruce Dickinson.

* Fernando Pessoa também traduziu para português alguns poemas do famoso ocultista inglês, e Crowley chegou a deslocar-se a Lisboa para conhecer pessoalmente o nosso poeta, com o qual compartilhava o gosto pelo ocultismo.

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Femme Fatale

Esta é a minha música preferida dos Velvet Underground.
A senhora que canta chama-se Nico é alemã e conviveu durante alguns anos com os Velvet e o ambiente nova-iorquino.
Velvet e depois Lou Reed a solo são um marco extraordinariamente importante na história do Rock.
Aprecio o olhar clínico de Lou Reed sobre tudo o que o rodeia.
É um músico de excelência que, ao longo de várias décadas, nos foi proporcionando várias obras primas, trago-vos apenas duas delas a inicial e Walk on the wild side.

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sexta-feira, março 30, 2007

Da Música

É dos livros: a música é a mais universal das artes. Universal porque é susceptível de ser percepcionada por todos, porque basta saber assobiar para criá-la, porque consegue expressar todos os matizes do espírito humano, porque não conhece fronteiras, línguas ou religiões. A música é, igualmente, individual. Uma mesma música é interpretada de maneira diferente de indivíduo para indivíduo, e cada um desses indivíduos pode dar diferentes exegeses à mesma música, normalmente por variações do tempo, do espaço e do estado de espírito, conduzindo a que aconteça um movimento curioso: uma canção é universal, por aquilo que atrás se aduziu. Quando é apropriada por uma pessoa, torna-se individual. Já «dentro» dessa pessoa, ela volta a tornar-se universal na medida em que pode tomar uma pluralidade de interpretações, não pela subjectividade óbvia de cada indivíduo, mas porque para um mesmo indivíduo, a mesmíssima música pode despertar uma miríade de emoções, no limite contrárias, devido às circunstâncias em que é escutada: a arte é a mais universal das músicas.

A música está para mim como as «madalenas» estavam para Marcel Proust. Cada vez que meto um disco a tocar, é uma viagem no tempo que faço. Recordo nitidamente situações, pessoas, momentos. As canções são cábulas da história da minha vida.
Ao longo da Festa Música (FM), fui falando daqueles que estão no topo da pirâmide dos meus gostos. Hoje, trago-vos aqui os que estão na base. A base da pirâmide é sempre mais larga. Como tal, tratarei de deixar apenas links, e dentro destes algumas dedicatórias a quem teve a amabilidade fazer referência à FM.
Para finalizar quero corrigir aqui uma injustiça que os dicionários de sinónimos cometem: música significa, essencialmente, amizade. E é com essa amizade que dedico este post n.º 3000 (e respectivo vídeo) do Geração Rasca ao André, à Cristina, à Nancy e à Leonor.
Pink Floyd, R E M, Radiohead, Manic Street Preachers, Oasis, Mão Morta, Andrew Bird, The White Stripes, The Killers, Interpol, Muse, Therapy?, Suede, Tchaikovsky, Within Temptation, Sisters of Mercy, Dead Can Dance, Dave Matthews, Patrick Wolf, The Animals, Placebo, The Who, Megadeth, David Bowie, e muitos muitos outros, entre os quais estes senhores que esta noite vão actuar exclusivamente para os meus colegas do GR:


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There Will Be A Light

Em Portugal, durante todo o século XX, existiu sempre a tentação de uma ideologia política anular a outra.

Durante o Salazarismo a esquerda foi completamente ostracizada, eu não vivi tempo suficiente durante o antigo regime, para sentir qualquer tipo de malefício deste sobre mim.

Lembro-me do dia 25 de Abril e das imagens veiculadas pela TV a preto e branco e da alegria espalhada nos rostos.

Mas do interior vinha um eco de: parece que em Lisboa aconteceu qualquer coisa.

Viver num regime onde não se pode manifestar discordância política é extraordinariamente desagradável tanto em termos intelectuais como em termos físicos.

Contudo, depois da revolução dos cravos, o PCP pretendeu implementar um regime determinado e resquícios dessa tentativa foram demasiado dolorosas, para mim, e para todos os que não se sentiam minimamente atraídos por aquele tipo de regime.

É claro que nós sabemos que a base teórica do comunismo era ligeiramente diferente e que o sistema político fascista do “alguns serem mais iguais do que outros” pretendia ser substituído pelo revolucionário “alguns seriam, inevitavelmente, mais iguais que outros” ah e sabemos, também, que os protagonistas vestiriam de maneira ligeiramente diferente.

Não gosto do que simboliza o Salazarismo. O Salazarismo é a apologia da ideia comum que ainda hoje prevalece na igreja portuguesa: as famílias bem têm mais direitos que a ralé, a ralé tem apenas deveres e uma grande dívida para com a sociedade. Acontece que esta ideia, ligeiramente democrática, para meia dúzia, foi substituída durante largos anos por uma outra, extraordinariamente inovadora, quem é de esquerda é intelectualmente superior e inovador e irreverente e todos os outros são fascistas e gentalha desprezível. E, no meio disto tudo, o povo?

Bem o povo... vocês sabem... precisa de ser educado!

O problema da esquerda é que levou alguns anos a perceber que o povo não quer ser educado da mesma maneira; que sistemas de igualdade, ao nível profissional, por exemplo, geram profissionais irresponsáveis, arrogantes e corporativistas; e que nenhuma ideologia consegue transformar intimamente o homem.

O Portugal que deu votos a Salazar revela alguns ressentimentos:

- a direita que dificilmente se revê em Salazar mas que vota massivamente no ditador para se vingar do ostracismo a que Cunhal a votou;

- revela o povinho: o povinho não gosta de Cunhal, a igreja ensinou-o que os comunistas comem criancinhas e o povinho quando quer aprende; mas este povinho iletrado, analfabeto e alienado por meios da comunicação social como a TVI, por exemplo, foi, muito ironicamente, também “deseducado” pelos diversos sistemas de ensino que a esquerda foi “experimentando” ao longo de diversos anos. E o povinho também aprendeu pela escola da esquerda, pois quando quer aprende, que é melhor sermos funcionários públicos e fazermos de conta que produzimos.

- revela a esquerda extra-PCP de mal com o PCP, com Sócrates e ainda não refeita da orfandade de Mário Soares (foi essa esquerda de cabeça perdida que convenceu o velho leão a encarnar o seu papel preferido o de salvador da pátria).

E este é o Portugal do presente:

Universidades privadas que são um autêntico ninho de sabe-se lá o quê; de associações universitárias que são o ninho dos futuros políticos e autarcas do nosso país: licenciados em coisa nenhuma; de povinho deseducado por um sistema de ensino que se preocupa acima de tudo com o politicamente correcto: o insucesso escolar e tudo isto sem o mínimo de visão, com palavras ocas e para jornal mostrar; por empresários mal formados para o mundo dos negócios; por médicos irresponsáveis e sugadores do sistema de saúde; por um sistema de justiça corporativista, injusto e irresponsável, etc, etc, etc.

E os portugueses do presente não aguentam o seu Portugal porque:

- ainda não perceberam que é tempo de curarmos as feridas,
- ocuparmos os nossos lugares na sociedade,
- expulsarmos a má moeda
- e seguirmos em frente, unindo esforços e prosseguindo num objectivo comum: Portugal, um país de futuro.

Mas tudo isto, caríssimo leitor, é utopia pura e dura, pois nós sabemos que é muito mais interessante assistir à partida da bancada e chamar nomes ao árbitro, aos jogadores, ao treinador e curarmos as feridas com a verborreia dos "opinion maker" tão visionários e tão participativos no nosso passatempo preferido: enlamear a pátria, fazendo de conta que ela não lhe pertence e continuar despreocupado quanto ao seu empenhamento profissional, ao seu conhecimento, à sua motivação, à sua mais-valia enquanto ser humano.

Afinal o tempo muda-nos
mas
não deveríamos perder a crença
na nossa força
e na nossa luminosidade...

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quinta-feira, março 29, 2007

Turn Your Lights Down Low

Odete Santos dizia há dias que não gostava da valsa por ser uma música da burguesia.
Eu acho piada à teatralidade de Odete Santos.
E admiro deveras a sua capacidade racional de ter adequado de tal maneira o seu gosto musical à sua ideologia.
Infelizmente, a mim, há músicas que me tocam.
Apesar de, aparentemente, não possuirem nenhuma razoabilidade nem intelectual nem ideológica.
Infelizmente, para mim, o interessante na música é a sua tendência em "apanhar-me" sem qualquer espécie de razoabilidade intelectiva.
Também aprecio utopias e Bob Marley e Lauryn Hill especialmente.

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A Memória Dos Dias (Fausto)


Não tenho vídeo, desta vez... Mas peço-vos, encarecidamente, que sigam o link acima e ouçam o que vos trago hoje, a fechar a minha participação oficial nesta Festa da Música. A música tem mais de 12 minutos... Ouçam-na, pelo menos uma vez, até ao fim... Abaixo segue um texto que escrevi na altura em que a (re-)descobri.

[Edição: É com muita, mas mesmo muita, pena minha que constato que o link acima parece estar indisponível... Resta-me então deixar-vos uma pequena gota (de 1min11s) do oceano que é "A Memória Dos Dias"...] Ouvir excerto
[Re-edição: Afinal o link lá de cima vai e volta... Deixo, na mesma, a ligação para o pequeno excerto, mas, se estiver disponível, não deixem de ouvir a versão integral no ÁUDIO ali em cima....]


Queria falar qualquer coisa sobre Fausto...

Recapitulemos primeiro umas coisas: eu cresci a ouvir Fausto nas cassetes gravadas do meu pai. Aquilo sempre me soou bem, apesar de não fazer ideia do que diziam as letras. Essas duas cassetes ainda vivem (apesar de já não estarem muito bem de saúde) e há uns anos (poucos) passaram da caixa de arquivo do meu pai para o meu quarto. Só nessa altura decidi prestar atenção às letras... e assustei-me de tanto sangue e tanto morto que por lá havia! Mas não ia ser por isso que iria deixar de gostar das canções. Em especial, "Como um sonho acordado", que sempre foi umas das minhas favoritas, tem um impacto particularmente forte quando se presta atenção à letra.

O meu pai comprou "Crónicas da Terra Ardente" que ouvi poucas vezes, pois de cada vez que pegava no CD ficava à espera das canções da minha infância que não apareciam...

Entretanto, oferecemos ao meu pai "Grande, Grande é a Viagem", que me deu a conhecer outras músicas, com a vantagem (ou não) de ser uma selecção de mais do que um álbum e a grande, grande vantagem de ser um CD e não uma cassete. No entanto "Como um sonho acordado", "O cortejo dos penitentes" e "O romance de Diogo Soares" (que fazem parte das minhas memórias de infância) não constam nessa selecção, o que me fez ouvir vezes sem conta a velhinha cassete 1 do meu pai.

Fui ao concerto no Coliseu [Junho/2005] sem conhecer mais do que isto sobre a obra de Fausto. As músicas do concerto (que nunca tinha ouvido!) reavivaram a memória de uma sonoridade tão característica que me fez sentir que afinal, apesar de tão pouco, até conhecia alguma coisa sobre Fausto.

Nos tempos que se seguiram estive mais atenta ao que se dizia sobre Fausto e (pasmo!!!) só nessa altura - na Laranja Amarga - descobri a existência da tão famosa e ainda inacabada triologia.

Mais recentemente, tendo em conta a boa impressão com que tinha ficado do concerto, finalmente comprei a "Ópera mágica do cantor maldito" (desta vez para mim, e não para o meu pai!).

Ontem lembrei-me que já não fazia ideia do que tinha a cassete 2 e hoje levei-a comigo para o carro. E foi aí que senti a necessidade de falar de Fausto. É que, em plena auto-estrada, sozinha no carro, com a música bem alto emocionei-me ao ponto de me virem duas ou três lágrimas aos olhos. Nunca me tinha acontecido isto, pelo menos ao ouvir apenas a música pela música; é diferente quando a música nos traz algum tipo de recordações... mas não foi o caso. A música em si foi demasiado forte...

Chegada a casa, tentei saber mais alguma coisa sobre a música da qual nem sequer o título eu tinha. Lembrei-me do "cantinho" que a Laranja Amarga tinha dedicado ao Fausto e fui lá espreitar a ver se descobria alguma coisa. E achei uma descrição, também do Nuno Sousa, que se encaixava perfeitamente naquilo que eu tinha ouvido:

«E que dizer daquela abertura, daquela primeira canção "A Memória Dos Dias"? Trata-se de um caminho musical, porventura menos popular, que Fausto não explorou ainda totalmente (nem nada que se pareça) e que, a avaliar pela amostra, poderia dar frutos apetitosos.»

Mais umas buscas para ver se a letra dessa música coincidia com a da cassete [que tive de ir ouvir outra vez, pois com a força da música nem prestei atenção letra]... e voilá! é mesmo "A Memória Dos Dias".

Nestas buscas descobri também outra coisa que, por incrível que pareça, ainda não sabia: as velhinhas cassetes do meu pai são gravações quase integrais de "Por este rio acima" e "O despertar dos alquimistas".

E pronto, tudo isto para dizer que acho que achei uma nova paixão: "A Memória Dos Dias"!!!

Outubro/2005

A Memória Dos Dias
Fausto Bordalo Dias [em inglês] [em português]
álbum: O Despertar dos Alquimistas (1985)
letra: (não encontro disponivel em lado algum... um dia destes eu transcrevo-a... agora não, que o post já vai longo...)

imagem:
CDGO

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quarta-feira, março 28, 2007

Os verdadeiros dramas do país real

Os comunistas, bloquistas e outros istas, andam indignadíssimos com a “instrumentalização” da RTP, e com aquilo que apelidam ser o “branqueamento de Salazar”. Os bloquistas, sempre muito afoitos nestas matérias, até já admitem chamar ao Parlamento o director de programas da RTP.

Aproveitando a onda dramática, a CGTP também já avançou com um pedido na ERC de suspensão do concurso “A Bela e o Mestre”, porque entende ser um programa que “viola o princípio de igualdade entre sexos”.

Estes acontecimentos fazem-me lembrar esta canção revisteira dos “Agostinhos”, interpretada pela dupla Ivone Silva/Camilo de Oliveira:

Ai Agostinho
Ai Agostinha
Que rico vinho
Vai uma pinguinha?
Este país perdeu o tino
A armar ao fino, a armar ao fino
Este país é um colosso
Está tudo grosso, está tudo grosso
Isto é que vai uma crise, isto é que vai uma crise!

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O Punk e as minhas memórias pós-revolucionárias

Quando comecei a ler os primeiros textos sobre o punk pensei:

isto tem tudo a ver comigo!

Detestava o rock sinfónico e tudo o que aquela corrente simbolizava, no meio de toda aquela parafernália de sons gostava ligeiramente dos Queen e da, actualmente, demasiado desgastada Bohemian Rhapsody.

Considerava execráveis os Emerson, Lake and Palmer, Genesis, Camel e Renaissance, achava apenas piada a alguns temas dos Jethro Tull e dos Pink Floyd.

O Punk apareceu, para mim, na altura certa, pois tudo o que se produziu a partir daí teve sempre muito mais a ver comigo e com o meu gosto musical.

Lia a Bravo, a Música e Som e uma ou outra revista que circulava pela escola e fascinavam-me os visuais de bandas como: Sex Pistols, Ramones, The Stooges, The Clash



Boomtown Rats, The Jam, Siouxsie & The Banshees, The Stranglers, Ultravox; e do lado de lá do Atlântico Blondie, Patti Smith, Television e Dead Kennedy's. Data dessa altura a descoberta de uma banda dos sessenta os Velvet Underground.

Para além do visual fascinavam-me as afirmações políticas e socialmente incorrectas daqueles grupos; diziam enormidades nas entrevistas sem estarem preocupados com as reacções.

Imaginava-me a dizer coisas semelhantes aos meus amigos de esquerda, de direita ou do centro e exercitava a imaginação engendrando as suas infindáveis argumentações.

É que prevalecia, na altura, uma espécie de necessidade escatológica de gostos musicais ideologicamente consentâneos.

Os de esquerda falavam-me na tendência nazi do movimento Punk.

Os de direita do vestuário pouco próprio.

Os do centro insistiam na combinação do maravilhoso e do imaginário na obra dos Yes, algo de inexistente no Punk.

Sempre que falávamos sobre música a conversa descambava para o desacerto ideológico do Punk.

Depois de alguns desconcertos argumentativos resolvi adoptar uma postura musical ideologicamente neutra.

Não me manifestava ou não discordava e, a partir daí, fomos todos muito mais felizes.

É certo que lhe foi inerente um certo regime de clausura interna o que desgastou, para todo o sempre, a minha empatia com monumentos que simbolizem este estado, como, por exemplo, conventos e mosteiros...

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Optimismo, Prudência e Pessimismo

Como aqui muito bem se refere, é de um optimismo ingénuo realizar os concertos que visavam celebrar o 50º aniversário do Tratado de Roma ao ar livre na diluviana Bruxelas. Já os dirigentes europeus, preferiram não embandeirar em arco e fazer discursos mais prudentes quanto ao futuro da UE. Agora só não entendo as escolhas das bandas que actuaram nos referidos concertos: decretar os Scorpions e as Las Ketchup como embaixadores da música alemã e espanhola é, no mínimo, de um atroz e paralisante pessimismo.

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terça-feira, março 27, 2007

Fechando o Verão

Primeiro o impacto das rodas na pista, o batimento cardíaco levemente acelerado e ainda a dúvida. Será? O corpo moído, os olhos morcegos habituados a onze horas de ausência da luz solar e, finalmente, ar livre e rua. A Cidade Maravilhosa amanhecera não havia muito. Talvez por isso tenha tomado por natural uma certa neblina. Certo é que raros são os postais reais e imaginários do Rio de Janeiro onde o céu e o mar não são assustadoramente azuis e belos, o verde, o contraste perfeito e o Cristo Redentor, pacífico e sereno abraçando a cidade lá em baixo, intocável, impassível perante a vida dos homens turbulenta tão abaixo do seu pedestal inabalável. Neblina, porquê, então? E depois rumámos pela Linha Vermelha para a Zona Sul. Pela janela, ia procurando. Nada. E depois no hotel a conversa para casa e a pergunta facilmente adivinhável E o Cristo? Já viste o Cristo? Não, o tempo está meio cinzento. De tarde, a neblina adensara-se, o tempo fechara completamente e o postal do Rio que lentamente se desenhava à minha frente adquiria tonalidades cinzentas, salpicadas pela Mata Atlântica, uma bruma obstinada mais translúcida, a espaços, como um véu a envolver o Cristo Redentor. Outras cores diferentes das que fui acalentando ao longo de décadas. O castanho do encavalitado das casas morro acima. Nos três dias seguintes chuvas, a pergunta de sempre, e nos três dias seguintes a descoberta e a certeza que, mesmo com chuva, a cidade jamais sairá beliscada e adquire uma aura de mistério e serenidade. Da janela do quarto, o Calçadão e o mar revolto, o Tóni dos Cocos recebendo a sua carga diária bem cedinho pela manhã, os cariocas ainda assim usufruindo a cidade que é deles, uma peladinha de final de tarde, um jogging, uma água de coco debaixo do chapéu, outrora de sol, agora de chuva e o camelô que guardara sua mercadoria. Chuva, o meu Rio tinha agora chuva. Tornara-se mais nostálgico, enlaçado na melancolia dos trópicos, salpicado daquelas teimosas águas de Março que descolorindo a cor vibrante do meu postal imaginário, o preencheram melodiosamente com a voz de Elis avisando que estavam fechando o Verão.

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Strawberry Fields Forever

São quase octagenárias.
Rio-me imenso com elas.
Um caso vivo de humor e irreverência.
Falam do passado sem despudor.
São do tempo de uma sardinha para três, no tempo em que no Portugal profundo a fome era um lugar comum.
Quando a sardinha não surgia, na mesa concorrida, acalentavam as tripas à luz da candeia.
25 tostões cada par de calças - ainda as ouço murmurar.
Começaram a trabalhar na alfaiataria do pai com 9 anos.
A primeira vez que uma delas foi à Figueira da Foz era já moça namoradeira.
E no regresso ainda contou pasmada ao fidalgo da aldeia:
ah e aquela praça da fruta e toda da boa!
Imagino a revolta que sentiram ontem quando se depararam com a vitória de Salazar.
Para elas o ditador português é o símbolo da fome
mas o comunista? Cruz credo!
também as imagino a dizer com o olhar arregalado.
Para elas Salazar e Cunhal estão ao mesmo nível.

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Grandes Neozelandeses

Fico feliz que os nossos rapazes tenham conseguido o apuramento para o Mundial de Rugby em França. Mas não sei como vai ficar o espírito patriótico da rapaziada quanto tiverem de defrontar a selecção neozelandesa. É que os Allblacks têm o dobro do tamanho da malta, e a Haka Dance inicial é, no mínimo, intimidadora. E apesar dos Neozelandeses serem uns autênticos touros, não me parece que esta seja a resposta mais adequada. Mas podemos sempre tentar vencê-los pelo riso.

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segunda-feira, março 26, 2007

What a difference...

O Espumante deixou-nos aqui «uma performance inesquecível de Jammie Cullum» no barroco de Blenheim Palace, e eu agradeço e retribuo, com outra performance inesquecível no “nosso” José Alvalade.

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Anarchy in the UI*



Vídeo dedicado a Luís Arouca, o reitor mais punk de Portugal.

* Universidade Independente

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Lá vamos cantando e rindo...

Na primeira fase do concurso votei em Manuel Fernandes Tomás. De resto, nem sequer tive paciência para ver mais de 10 ou 15 minutos de alguns dos episódios da interminável saga. Porém, e por mero acaso, acabei por assistir a alguns dos documentários do programa: Salazar, Fernando Pessoa, Infante D.Henrique, e [pasme-se] até consegui aguentar a primeira parte do documentário de D.João II com Paulo Portas.

Apesar de não ter qualquer dúvida que o Infante D.Henrique é o maior português de todos os tempos, tenho de confessar que se tivesse votado na fase final do programa provavelmente a minha escolha também recairia em Salazar. E não o faria por nutrir qualquer tipo de admiração ou simpatia pelo carismático ditador português, mas somente com o intuito de evitar que Álvaro Cunhal acabasse por vencer o concurso com o voto militante dos comunistas que, ainda assim, o conseguiram arrastar até à fase final do programa e coloca-lo num imerecido segundo lugar na classificação geral.

Pelos mais diversos motivos que não importa aqui referir, compreendo perfeitamente que alguns de vós se sintam frustrados e revoltados com a vitória final de Salazar. Eu sentiria precisamente o mesmo se porventura Cunhal vencesse o concurso [cruzes canhoto!].

No entanto, não fui capaz de deixar escapar uma gargalhada contida [para não ferir susceptibilidades] quando hoje de manhã me disseram que Salazar tinha vencido com 41% dos votos… 33 anos depois da Revolução de Abril.

Apetecia-me agora divagar um bocadinho sobre aquela célebre frase do “volta, estás perdoado”, mas não quero abusar mais da vossa paciência.

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