quarta-feira, abril 23, 2008

leituras atrasadas...

Hoje, Dia Mundial do Livro, pareceu-me um dia apropriado para cumprir algumas tarefas em atraso...

Reza assim a quinta frase completa da página 161 do livro que mora na minha cabeceira (há demasiado tempo...):
Aos dezanove anos tinha feito dois retratos num estúdio fotográfico de Genebra, um deles vestida como um jovem árabe, outro de marinheiro, com uma boina que ostentava, como nome do hipotético barco, a palvra «Vingança».
O livro chama-se «Histórias de Mulheres» e é uma compilação de biografias de mulheres [Agatha Christie, Simonde de Beauvoir, Alma Mahler, George Sand, Isabelle Eberhardt, Frida Kahlo,...] que Rosa Montero apresenta de foma muito pessoal.

A frase acima refere-se a Isabelle Eberhardt - que eu desconhecia completamente... - uma escritora suíça de vinte e sete anos [idade da morte em 1904] que se fazia passar por um rapaz muçulmano. O sub-título que lhe cabe no livro é «Fome de Martírio». E em todo o parágrafo onde está integrada a frase esta é a única que não explicita tudo isso... Deixo, então, aqui também as frases contíguas:
A infelicidade fazia parte essencial da sua personalidade, era uma definição (talvez a única) do seu ser ela.
...
Por essa altura escreveu no seu diário: «Quero ser alguém, e dessa forma cumprir o fim sagrado da minha vida: a vingança».

Agora vou fechar isto e ler um bocadinho... até porque continuo a ter na prateleira, em fila de espera, alguns destes...


É suposto eu passar a alguém isto da quinta frase completa da página 161 do livro que está mais à mão... Ora fica, mais uma vez, se lhe quiserem pegar, para as meninas do FarpasXXI.

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quinta-feira, julho 19, 2007

na prateleira...

Dizia eu que tenho uns quantos livros na prateleira à espera de serem lidos... Assim, fazendo uma pré-selecção, se tudo correr bem, as minhas leituras deste ano vão passar por estes cinco títulos:

Daqui houve nome Portugal (Antologia de verso e prosa sobre o Porto), organizada por Eugénio de Andrade
5 séculos de literatura, 69 autores, 5 reproduções de pintura, 8 fotografias e 8 gravuras; o mais completo e belo retrato das pedras e das gentes do Porto.

Cartas a uma jovem matemática, Ian Stewart
o que gostava de ter sabido quando era estudante [...:] o que é a matemática, [...] o papel da beleza no pensamento matemático, o futuro da matemática [...] tudo isso num estilo que combina subtileza, humor e um talento para ir direito ao assunto.

A morte melancólica do rapaz ostra & outras histórias, Tim Burton
histórias de humor sinistro [...] em que as personagens, heróis com corpos deformados e hábitos invulgares, projectam os nossos próprios sentimentos de alienação, fazendo-nos rir de uma infância que julgamos ter deixado para trás.

Agostinho da Silva – a última conversa, entrevista de Luís Machado
ao longo de cinco horas, Agostinho da Silva passa em revista o percurso de uma vida [...]; sem reservas e visivelmente bem disposto, aceita o desafio do entrevistador, respondendo a todas as questões e satisfazendo quase todas as curiosidades.

Histórias de mulheres, Rosa Montero
biografias de mulheres [Agatha Christie, Simonde de Beauvoir, Alma Mahler, George Sand, Isabelle Eberhardt, Frida Kahlo,...] frutos de uma visão muito pessoal e de um grande esforço de documentação, revelam sobretudo do campo da paixão, face a percursos extraordinários em que todavia cada um de nós se pode reconhecer.


Há mais ao lado destes e muitos outros ainda à espera nas livrarias a serem namorados há algum tempo... Tempo... O tempo... Sempre o tempo...

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
Meu amor, o tempo somos nós
[...]
Jorge Palma, "Eternamente Tu" (1989)

Eu tenho de ser mais tempo para ler!

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quarta-feira, julho 18, 2007

leituras passadas

A Leonor, cheia de boa-vontade, passou-me um testemunho sobre leituras... Não sabia ela no que se estava a meter!... As minhas leituras são menos que poucas... É triste – eu sei! – mas é verdade... E, como a agenda cultural, os livrinhos dos CD's e os rótulos dos iogurtes não são admitidos, tenho de alargar, um bom bocado, o intervalo temporal para conseguir cinco títulos... De qualquer forma, aqui ficam as minhas cinco últimas leituras, ou melhor, as minhas cinco leituras mais recentes – se bem que de recentes têm muito pouco!...

- Queimada Viva, Souad – um relato aterrador e um testemunho actual!!! na primeira pessoa de uma mulher vítima... disso mesmo!...

- Sou Português... e agora?, Luís Filipe Borges – uma colecção de piadas e caricaturas levezinhas, umas melhores que outras, sobre... a tugolândia.

- O Zahir, Paulo Coelho – é... Paulo Coelho... cansei-me!... foi o primeiro livro que não levei até ao fim em toda a minha vida... desisti no fim do primeiro capítulo!

- Retrovisor – uma biografia musical de Sérgio Godinho, Nuno Galopim – preciso de dizer mais alguma coisa?... ;)

- As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll – os divertidos e absurdamente lógicos diálogos da Alice, do coelho e do chapeleiro, do Humpty Dumpty e da Raínha.


Resta-me deixar a promessa de que vou tentar melhorar este pequenina falha... Até porque eu gosto de ler e já tenho uns quantos candidatos na prateleira do quarto, cansados de estar à espera...

Passo o testemunho às meninas do Farpas XXI: Maria Ortigão e Manuela Queirós, para que nos contem as suas cinco leituras mais recentes.

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terça-feira, maio 01, 2007

Intimidades

A leitura é um acto íntimo. Pode ler-se um jornal ou um livro num comboio ou num avião, pode ler-se uma mensagem para quatrocentos participantes de um congresso e pode ler-se uma passagem inteira de um livro numa aula que a leitura, a verdadeira leitura, aquela que fazemos para nos sintonizar com o texto, descodificá-lo é sempre um acto íntimo. E solitário, acrescento. Apenas conseguimos ler «em conjunto» quando, e desculpem-me a expressão muy Nicholas Sparks, dois são um.

Convém frisar, no entanto, que existem formas de representar o texto (teatro, música, declamação, …) que tiram à leitura o cunho predominantemente privado. Por mais paradoxal que possa parecer, isto acontece porque reconhecemos a quem o interpreta a capacidade de o tornar privado. Um actor prepara um texto, representa-o para dezenas de pessoas, mas consegue, pelo menos para grande parte, tocar em cada um dos assistentes. De forma diferente e pessoal.

Posto isto, passemos ao âmago da questão. Tenho lido entrevistas de escritores que afirmam solenemente que gostam mais de ler do que de escrever. Para além disso, os conselhos que costumam dar aos novos escritores é para que leiam muito. De preferência livros deles. Confio que todos eles têm milhares de páginas lidas, analisadas, comentadas. Contudo, desconfio que nenhum deles, perdão, que alguns deles ainda não explicaram a quem promove o lançamento dos seus trabalhos que a leitura de um texto é um acto íntimo, com as excepções aclaradas no parágrafo dois deste arrazoado. As leituras nos lançamentos dos livros. É isso que me traz aqui hoje.

Há cerca de dois meses, fui novamente a um lançamento de um romance. Primeiro, o convidado para a apresentação da novela diz as impressões que a leitura do livro lhe proporcionou. Nestas, estão geralmente incluídas as palavras “ruptura”, “excelência” ou “matiz”. Depois a assistência, por regra meia dúzia de gatos-pingados, no lote dos quais com muito gosto me incluo, faz umas perguntinhas ao autor. O autor cumpre: balbucia umas coisas, tenta responder a perguntas sobre o compadrio na edição e na crítica literárias em Portugal (em lançamento que se preze, são questões sagradas) ou imagina uma forma de disfarçar o olhar atónito quando lhe perguntam se a matriarca do livro, uma senhora de oitenta anos, não é um alter-ego ou, quiçá, um heterónimo dele. Ele, um rapaz de trinta e sete (esta foi verdadeira).

E no final, acontece aquilo que nunca deveria acontecer: o autor lê uma parte do livro. Então, toda a curiosidade que possa ter sido despertada até aqui, é docemente adormecida quando o autor ainda vai a meio do capítulo que se propôs a ler. Em minha opinião, aquilo é – não poupemos nas palavras – uma enorme maçada e um infinito tédio para todos: autor, convidados, assistência. Mas será que ninguém entende, no meio editorial, o enfado que esta parte de um lançamento representa? Além do mais, se um escritor não conseguir ler de uma forma entusiasmante para cada uma das sensibilidades presentes na assistência, o que é uma tarefa hercúlea, sublinhe-se, pode ocultar a qualidade que o texto possa ter.
A sério, não é assim tão difícil: um escritor escreve livros, os leitores lêem livros. E tanto a escrita como a leitura são actos íntimos. Consequentemente, agradece-se que libertem os lançamentos das sessões de leitura.

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