terça-feira, julho 31, 2007

Drive

A paisagem começa a mudar. Continuamos no noroeste da Península, mas este já é o norte das montanhas e não dos montes, este é o Norte de um verde diferente do que se pode admirar pelo Minho e Galiza, este é um norte dos picos cónicos que imitam as formas dos seus cedros, assim como, quinhentos quilómetros atrás, os montes em meia lua retratavam as copas dos pinheiros.
A condução começa a fazer mossa. Já não há o mesmo discernimento e as estradas são exigentes. São exigentes e recompensadoras: à nossa direita alta, os “Picos da Europa”, à nossa esquerda baixa, o mar. Ao longo de uma estrada serpenteante esculpida na pedra da montanha, começa-se a sentir o conforto da viagem finalizada, embora ainda faltem cerca de meia centena de quilómetros para o destino. Aproveita-se o cansaço para uma última paragem, descendo até uma arriba. Estacionamos, entramos num café e nem é preciso abrir a boca para notarem que somos estrangeiros. Quando é feito o pedido, as línguas colidem: o meu castelhano não permite uma dicção tão cerrada quanto a dos asturianos. Um pouco de maleabilidade linguística de ambos os lados, o entendimento surge e o pedido é satisfeito. Caminha-se um pouco para se desentorpecer as pernas e a concentração. Abeiramo-nos do fim da falésia para espreitar o mar e ele surpreende-nos: embora esteja lá em baixo, a vinte metros de altura, é com tal violência que as ondas embatem nas rochas, que, ao longo dos séculos abriram fendas nas escarpas, fazendo com que a sua respiração venha desaguar a nossos pés, transformando o chão que pisamos num sem fim de pequenos géisers e nascentes de água – chamam-lhe bufones.


São oito da tarde, quando se chega finalmente a Covadonga com o sentimento de dever cumprido e de prazer anunciado. Algum cansaço que possa existir desvanece-se perante tal paisagem. Não vou chamar para aqui de novo os poetas para dirimirem sobre paisagens e estados de alma. Digo apenas que depois de dez horas de condução tão cansativas quanto deslumbrantes, uma fabada regada com sidra é a única paisagem que reconforta o estado da alma.

Foto 1, 2, 3

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