quarta-feira, outubro 31, 2007

Desafios com apertos de mão

o método:
Desafia-me a Teresa para o seguinte (copiei descaradamente):
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloggers.

o fruto do acaso:
"(...)-Todos iniciavam o aperto de mão.
[Continuando e contextualizando:]
- 88% dos homens, mas apenas 31% das mulheres, recorriam ao aperto de mão dominante.
- Algumas mulheres davam aos homens um aperto de mão frouxo em alguns contextos sociais, para transmitir uma mensagem de submissão. Segundo os autores, 'esta abordagem pode revelar-se desastrosa para uma mulher, pois fará os homens concentrarem-se nas suas qualidades femininas, não as levando a sério.(...)'"

o autor:
REGO, Arménio (2007), Comunicação Pessoal e Organizacional, Lisboa: Edições Sílabo, p.161

o título do subcapítulo:
Apertos de mão dominadores, submissos e igualitários

a etiqueta:
a psicologia engagé de certos livros técnicos.

os bloggers desafiados:
Joaninha, Blog da Joaninha
António Luís, Panela de Pressão
Maria Carvalho, Dias com árvores
Harry_Madox, Duelo ao Sol
Eduquês, Eduquês

nota adicional:
Teresa, ainda dizem para aí que não há coincidências, pelo menos as dos livros do acaso.
Obrigada e um bom dia.

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terça-feira, outubro 30, 2007

Um dia li um livro

O autor. A capa. O título. Uma recomendação. Uma crítica favorável. Uma arrasadora. Uma polémica. Entre os vários factores que nos atraem a um livro, um entre muitos prevalecerá e será esse que nos obrigará a pegar nele e a trazê-lo para casa. Este de que vos falo e que repousa aqui à minha esquerda à espera de ser lido foi escolhido não pelo autor, não pela capa – a Presença não prima por capas particularmente atraentes- não pelo grafismo – aplicam-se as observações tecidas às capas- nem pelo facto de ostentar orgulhosamente na cinta Prémio Nobel da Literatura 2006. Este mesmo, o que está aqui bem ao meu lado, à mão de semear, foi comprado num dos achaques geradores de compulsões consumistas, só assim se explica que tenha sido adquirido numa grande superfície, local a que, regra geral, recorro inconscientemente quando o tempo me aprisiona na aldeia. E assim, antes de me precipitar sobre as razões primeiras que levam um ser humano a um local de consumo, desviei caminho e quedei-me logo à entrada, do lado direito. Rodeei o escaparate com o top dos mais vendidos, dei uma volta por trás e entre os vários que manuseei – os iogurtes, saladas e detergentes que esperassem, a leitura pode ser por vezes um urgência- abri um livro que se me entrou pela alma com uma singela frase iniciadora: Um dia li um livro e toda a minha vida mudou. Assim reza na página 13, muito distante, portanto, da 161 que o Pedro gentilmente me pediu. Abandonemos então a página 13. Mais à frente a afirmação lacónica No dia seguinte apaixonei-me. Procuro avidamente a página 161, na esperança de que o livro me devolva mais uma das inúmeras frases em que é explícita a ligação complexa de absoluta dependência entre este narrador cuja vida mudara por causa de um livro e que, algumas páginas depois, sucumbira aos insondáveis e por vezes apocalípticos mistérios da paixão. Página 161 enfim. Quinta linha: Ao lado dos novelos havia modelos para tricôs e bordados, desses que saem na revista A Mulher e a Casa que a minha mãe comprava antigamente, com muitos patinhos e cãezinhos em ponto de cruz, assim como talagarças representando mesquitas, acrescentadas sem dúvida pelo editor a pensar na mulher turca, já que o resto tinha sido sacado de revistas alemãs da especialidade. Estremeço. Um livro que me levara a comprá-lo pela sedução da primeira linha acabava de trair-me com uma frase repleta de referências a lavores, uma evocação das fadas do lar submissas, distante do fascínio dos livros, é certo, mas ligada à parte feminina de cumpridora dona de casa que me levara ao supermercado. Nem nos livros se pode confiar.

E agora passo o testemunho à Ana Vidal, à Pitucha, ao Bandeira, ao meu caríssimo colega blogosférico Carlos Malmoro e à Cristina Ferreira de Almeida.
Já sabem: abrir o primeiro livro que tiverem à mão na página 161, copiar a quinta frase completa e passar a corrente aos próximos.

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Ora diga lá

Sra ministra:
os tais 22% não terão nada que ver com a migração nas Novas Oportunidades?
É que os números poderão ter muitas leituras, como sabe...

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segunda-feira, outubro 29, 2007

ORNITHORHYNCHUS PARADOXUS

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O russo

Dois mil e sete. Ano da graça de dois mil e sete. Assim marcava o calendário lá de casa pendurado na parede da cozinha ao lado da porta e assim dizia um outro calendário no talho da aldeia onde se tinha ido aviar antes de ir buscar a Vanessa Marise à escola no aixam azul metalizado. Manel Francelino não se conformava. Ele era obras na estrada, ele era obras aqui e acolá. Uma ocasião a sua Vanessa Marise ia chegando atrasada e isso é que não podia ser que já se sabe a professora na perdoa, ai não não, mas aquilo era trânsito que começava logo ali na rotunda. Voltou a fazer contas. Ora então, pelas suas contas, essas mesmo que se desenhavam agora na sua cabeça, faltavam ainda uns anos. Nesta altura a santa estava ali perto, de resto, a santa nunca ia muito longe, mas ainda assim eram dezassete freguesias e, por conseguinte, só voltava dali a uns poucos de anos. Ainda não era já, o que piorava de sobremaneira o estado de confusão do Manel Francelino. Atão, se a senhora da Nazaré na bem este ano, pra qué aquilo? E o Manel Francelino era rapaz muito dado a saber quês e porquês, herdou-o por parte da mãe e do pai, já se sabe, herdou-o por parte da aldeia toda que, há uns anos, era tudo primos e primas e, tantos os primos como as primas, as tias e os tios, eram rapazes muito dados a saber os pormenores da vida alheia, com particular incidência na árvore genealógica do inquirido. O pior de tudo era se, por exemplo, lhe saltava ao caminho um apelido conhecido, Duarte ou Jesus. Ó pá, aquilo era uma máquina, um computador com uma velocidade de processamento de dados infalível Ah, já tou a beri! Bocê é filho do ti João do Paúl, que era irmão da Francelina da Chanca. Ah pois, Atão, esse tá casado com uma rapariga que é cunhada do primo do Chico da Amendoeira e essa rapariga tem uma prima que é cunhada da nha irmã… Ah pois claro. Como é que não vi isso antes? Quando chegou a casa, disse à Quina Francelino A Senhora da Nazaré bem este ano! A mulher sabia que o Manel Francelino não ia para novo, notava-se na dureza de ouvido evidente, julga-se que acentuada nos momentos em que a conversa não lhe convinha, mas daí até antecipar a vinda da santa à freguesia ia um passo de gigante. Bem o quê, Manel? Atão inda falta tantos anos! Mas tu na bês que eles andam a arranjar a estrada? É só obras. Só pode ser a santa. Quina Francelino encolheu os ombros, chamou pela Vanessa Marise na fosse a neta tar a namorari e voltou à lida dos patos e coelhos.
No dia seguinte, o Manel Francelino investiu. Na podia ser, atão, na podia ser, ele era a estrada com tapete novo, ele era os traços a serem pintados, os muros. Perguntou ao rapaz que estava lá entretido a mandar parar os carros, uma vida triste, a levar com os fumos dos escapes e agora vermelho, agora verde, levanta a tabuleta, vira a tabuleta, siga, siga. O homem foi peremptório na resposta. É o russo, ti Manel, é o russo que vem aí. Ah, disse o Manel Francelino O Ruço sobrinho da Ti Mari Ruça? Não, homem, o russo, o Putin! O Pinto? Na tou a ber, mas deve ser importante esse ruço. Pois, é importante é. Manel Francelino ficou desolado. Afinal havia alguém mais importante que a senhora da Nazaré, ainda por cima homem, ruço e não era o sobrinho da Ti Mari Ruça.

imagem: minha

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domingo, outubro 28, 2007

Por amor ao ambiente

Hesitei esta semana em comprar a "Visão", quebrando o hábito de há muitos anos a esta parte, embora não tenha sido a primeira vez que, depois de trazer a revista para casa, me questionei porque continuo a fazê-lo quase religiosamente. Esta semana, a revista cobriu-se de verde em homenagem ao ambiente, tendo sido extensível esta orientação ao teor dos textos publicados. Sendo o ambiente uma questão prioritária, ainda não consegui aferir se se trata de uma preocupação genuína ou apenas de mais uma moda, esta que deu agora em transformar as preocupações ambientais num tema recorrente, quando a catástrofe se vem instalando há vários e longos anos.
Um dos artigos publicados incide sobre os bons caminhos – como odeio a expressão boas práticas- a tomar no quotidiano caso queiramos ser amigos do ambiente. Nada contra, tenho essa preocupação todos os dias. Não obstante, houve dois conselhos que deixaram perplexa. O primeiro. A louça descartável está completamente fora de moda – não a use, sequer em festas. Ora, louça descartável em minha casa é exactamente como palitos de madeira: inexistentes e nem sequer uma hipótese. Chegam-me os aniversários infantis ou outras ocasiões em que faço o sacrifício de comer e beber em pratos e copos de plástico, raros, diga-se em abono da verdade, e isto porque o copo é para mim pelo menos um terço do prazer provocado pelo seu conteúdo. E agora a segunda dica que me encanitou mais do que a primeira: Há outras atitudes que só lhe ficam bem, recuse publicidade directa, se não lhe interessa. É menos papel que acumula. A sério? E que tal se começassem logo pela própria revista e pelos jornais? Não há jornal ou revista que não cuspa um prospecto publicitário assim que manuseada. Quantas árvores serão destruídas e qual o impacto ambiental das dezenas de panfletos que nos chegam sem os termos pedido? Gostaria de ver chegar o dia em que posso comprar tranquilamente um jornal sem que das entranhas lhe saiam cadernos de publicidade encapotados sob a designação pomposa de suplemento. Durante o fim-de-semana acumulei suplementos sobre cabelos, imobiliário, emprego e informática, publicidade a uma loja de electrodomésticos, a relógios de pulso, a material informático, a um cadeirão que alivia as dores cervicais, a um televisor que oferece um trem de cozinha caso se faça reserva imediata, a um catálogo para vendas on-line, outro para venda de telemóveis e um prospecto anunciando o último livro de José Rodrigues dos Santos. Muito lixo, portanto, lixo que preferia não ter feito caso os jornais não viessem prenhes de tanta inutilidade. Eu agradecia e o ambiente também.

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Ah, e não esqueçam que mudou a hora

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Um ponto de vista

Depois de ler o artigo do Expresso sobre o filho "caçula" de Jardim Gonçalves, estados de alma que se me atravessaram pelo éter:
- coitado do rapaz, deve ser duro, não querer estar à sombra do pai e, ao mesmo tempo, ter de usufruir das suas mordomias;
- coitado do rapaz, deve ser duro, ser dono de meia dúzia de empresas e, ao mesmo tempo, não saber como investir;
- coitado do rapaz, deve ser duro, não querer ter um pai rico e, ao mesmo tempo, ir ao banco do pai pedir dinheiro emprestado;
- coitado do rapaz, deve ser duro, não querer que se saiba que ele é um Jardim Gonçalves e, ao mesmo tempo, frequentar locais onde só "jardins" podem entrar;
- coitado do rapaz, deve ter sido duro, não querer ser um Jardim Gonçalves e, ao mesmo tempo, ter de ir pedir perdão por uns "troquitos";
- coitado do rico menino pobre.

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A vista de um ponto


Objectivo do seminário:
Criar uma espécie de "Academia da profissão" e no dizer das palavras altruístas da sua mentora "sem fins lucrativos".
Pontos de vista principais do discurso, com esta academia pretende-se:
- partilhar metodologias, olhares;
- potenciar reflexões;
- promover uma actualização profissional questionante e com oradores actualizados e profissionais;
- auscultar o público alvo sobre as suas necessidades de formação;
- apresentar algumas formações em agenda;
- etc.

Nuances "pouco importantes" do discurso:
- Sim, porque esta classe profissional está cheia de gente que faz isto como hobbie, os maus têm de saltar do mercado, encaram isto como umas horazitas para comprar mais um carro, mais um vestido, mais uma viagem. Sim, porque esta profissão precisa de dar uma volta. Precisa de gente responsável e que trabalhe com qualidade e gosto. Sim, porque como ouviram o membro da Agência X, isto vai mudar. Isto vai mudar e quem quer ficar tem de ser mais profissional, não pode andar aqui só para ganhar mais umas coroas e ir-se embora. Sim, porque os maus isto e aquilo e aqueloutro e etc e tal e é preciso dignificar e vai-te embora Maria Alice.

O Zé, durante o Seminário Matriarcal, passou por vários estados de espírito. Em primeiro lugar entusiasmado, em segundo desconfiado e em terceiro pirou-se dali com uma palavra na cabeça.

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sexta-feira, outubro 26, 2007

Aubrey de Vere

Quando moço, eu disse à Tristeza:
"Vem, que brinco contigo."
Agora está perto de mim todo o dia
E de noite retorna e diz:
"Volto amanhã com certeza,
Volto e fico contigo."

Andamos juntos pelo bosque,
Seus passos mansos murmurando ao lado.
Para amparar um ser em desestima,
Ergueu um invernoso abrigo,
E a noite toda, quando chove,
Escuto os leves respiros ao lado.

Aubrey de Vere

BLOOM, Harold, selecção de, Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades, Volume 1, Primavera, Rio de Janeiro, Objetiva, 2003, p. 20

Tenho muita pena de ainda não terem traduzido esta selecção genial para português de Portugal, mas enquanto tal não acontece vou (re)lendo a versão brasileira.

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quinta-feira, outubro 25, 2007

Porque hoje é quinta-feira

...e antes que eles se ponham para aí a postar peitaças ao léu do Brad e poses sensuais da drª Odete, apreciem a Monica a descobrir o sentido da vida.


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FEST-i-BALL

Música, bailes e workshops, mas também danças latinas, exposições e baile para crianças.

Portugal, Galiza, França, Itália, Cabo-Verde, Escócia, Irlanda,...

Scottich, bourré, valsa, valsa mandada, jig, reel,...

Sabeis do que eu estou a falar?... Se sim, já sabem que vale a pena. Se não, estão sempre a tempo de descobrir...

Bom fim-de-semanaaaaaaaa!
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Kids

Criança de oito anos conversando com o seu gato.
- ´tás-te sempre a lamber, isso é p'ra estares apresentável p'rá tua miúda? 'Tá à vontade, eu compreendo. Ah, se quiseres podes sair à noite, eu fico-te com os miúdos e olha qu'eu sou confiável. Pensando nisso, queres levar um laçarote? Não gostas? Então? Um laçarote põe qualquer rapaz apresentável. Acho que deves pensar no assunto. Abraçando e beijando o gato. Ó minha coisinha fofa.

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quarta-feira, outubro 24, 2007

uma valsa???!!!...

A RTP1 exibe aos domingos, depois de jantar, a série «Conta-me como foi». Narrada por Carlitos, o filho mais novo da família Lopes, mostra-nos a vida de uma família no Portugal de 60/70. Confesso que as cores mortiças da imagem me afastavam a curiosidade, que, ainda assim, o elenco teimava em não me fazer esquecer... Um dia hei-de ver aquilo com olhos de ver!... E assim foi. Nos últimos tempos tenho acompanhado a série e tenho gostado.

O que me traz aqui hoje é uma cena divertida do episódio deste fim-de-semana. Toni, o filho do meio, está no primeiro ano do curso de Direito e começa a tomar contacto com ideias e ideais que desconhecia por completo. Os alertas para uma nova realidade são-lhe apresentados por Helena, uma colega "especial", que é forte dinamizadora do movimento estudantil. Mas quero eu chegar ao momento em que, estando os dois na sala, Helena põe a tocar uma música em francês...

- Conheces?... Sabes o que é?...

- Não... Mas... é uma valsa, acho eu...

Helena ri-se, acede ao ingénuo esforço de Toni, dançam um pouco os dois e esclarece:

- Acho que sim, que podemos dizer que é uma valsa, mas acho que Marx não ia gostar muito de ouvir isso dito dessa forma. É uma valsa muito especial, é «A Internacional»...


O diálogo está adaptado de memória, mas foi qualquer coisa parecida. Uma valsa???!!! Ideologias à parte aquilo é uma marcha, certo?! Quanto ao Marx... Eu, se fosse a eles, preocupava-me era com a Odete! Há uns tempos recusou-se a dançar uma valsa no «Dança Comigo» por ser demasiado burgesa... Nem sei bem o que a senhora faria se os visse "valsear" «A Internacional»...

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A senhora da rua d'avental


Três sem abrigo, em conversa altamente filosófica na esquina da rua Y, trocam "alcoolizações" filosóficas, entre si, entretanto, retirando os seus haveres do carro, um automobilista tipicamente "desalcoolizado".
Alguém inicia um monólogo intelectual, no passeio contíguo, mas em voz relativamente baixa e atravessando a rua simultânea:
- Seus filhos da p* (fdp), c* e anda a gente a pagar p'ra isto. Atravessando a rua d'avental e ar despachado. Toca a sair daqui seus fdp, tanta gente que morre e não faz falta e andam estes c* a viver à custa de quem trabalha. A senhora da rua d'avental vira-se para o automóvel embasbacado: desculpe, não tem nada a ver com isto, mas são uns fdp, então até já me telefonou a senhora da segurança social, que passou aqui e viu esta desgraça. 'Tá a ver aquele ali? A mulher "pose-o" na rua, é um desgraçado, coitadinhos daqueles filhos. Já viu a pouca vergonha? Não fazem "nenhures" e vivem à nossa custa, do rendimento mínimo nacional. Já viu isto? É uma pouca vergonha.
O automóvel não murmura, não reage, não soletra uma única vogal, franze o sobrolho, encolhe os ombros e aguarda pela ida da senhora da rua d'avental.

Imagem captada pelo telescópio hubble

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terça-feira, outubro 23, 2007

O dia de acção de graças

Podemos agradecer à Opus Dei.
Afinal como a família, para esta instituição, está sempre em primeiro lugar, pressupomos que os seus fundamentos tenham sido os principais responsáveis pelo pagamento das dívidas do filho ao banco, onde só por o acaso é/foi um dos responsáveis.
Podemos, enfim, dar graças a Deus.

Nota a posteriori: eu juro que não tinha colocado tal etiqueta (Estás com Ângelo Correia estás com Deus). Será que tal se deve à omnipotência ou à omnisciência?

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As estrelas

Lolita e
Ruiva
fotos: minhas

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segunda-feira, outubro 22, 2007

Todos os blogues têm a sua estrela…

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Paaiiiiiiiiii!!!!!!!!!

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Bibliotecas do mundo

As bibliotecas são um local de verdadeiro culto por um dos objectos mais amados da vida dos leitores: os livros. No silêncio que se deve observar para escutar as vozes das personagens e através das quais também o escritor dialoga com o leitor, existe uma comunhão que une leitor, escritor e obra escrita. Mas se algumas bibliotecas estão albergadas em sumptuosos edifícios, com as condições necessárias para a conservação dos livros, outras resignam-se à sua própria condição e nem sempre usufruem das melhores condições de funcionamento. Possuem, não obstante, o mais valioso ingrediente para o sucesso: a boa vontade, a determinação e o empenho. Assim é em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Brasil. Um pedreiro, Carlos Luís Leite e a mulher, Maria da Penha Mello, resolveram utilizar uma das assoalhadas da sua própria casa para albergar uma biblioteca numa comunidade carenciada em São Gonçalo. A ideia surgiu quando Carlos Leite estava a fazer obras numa casa. O dono queria desfazer-se de seis volumes e o pedreiro pediu para ficar com eles. A partir daí nasceu esta enorme paixão, ainda maior se tivermos em conta que Carlos Leite teve de abandonar a escola muito cedo para trabalhar e que as letras lhe permanecem quase indecifráveis. A biblioteca funciona em sua casa, no Jardim Catarina, e, entretanto, os livros foram tomando o lugar dos seus guardiães que agora ocupam apenas uma ínfima parte da sua casa, literalmente empurrados pelos livros. Em 2005, a biblioteca comunitária contava com 5.000 exemplares, tendo o número duplicado entretanto. Todo o acervo da biblioteca foi doado e é mantido por Seu Carlos e Dona Penha. A biblioteca é gratuita e frequentada por muitas crianças que utilizam o espaço para seu proveito e para melhorar o seu aproveitamento escolar, bem como por adultos que respondem ao chamamento dos livros.
E esta estória daria um belíssimo argumento para um filme, dos que nos deixam o coração a sorrir muito depois de abandonarmos a sala de cinema. Contudo, ela é ainda mais bela e comovente porque é real e nos enche o coração de esperança que leva a acreditar que há sempre um caminho e que os livros podem surgir na adversidade para melhorar vidas.
Aqui fica a mais sentida homenagem a quem sem meios, sem nunca ter tido acesso a livros ou a um meio cultural que promovesse o contacto com livros, educação formal e cultura dita erudita, tem no seu âmago a mais bela e tocante das qualidades: uma generosidade tão genuína e abnegada que só pode encher de luz os corações dos amantes de livros neste Dia Internacional das Bibliotecas Escolares. Bem hajam, Seu Carlos e Dona Penha.


Ler mais aqui.
Imagem do mesmo sítio.

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mãezinhas de Portugal...

- Mãezinhas de Portugal, temos Mário Cordeiro, «O Livro da Criança», do 1 aos 5 anos, da Esfera dos Livros...

- E para os paizinhos também!

- Mãezinhas e paizinhos, é evidente, mas mãezinhas.... mas os paizinhos provavelmente não têm tanta paciência como as mãezinhas para ler isto... e para as avozinhas e os avozinhos também...


Este diálogo, ou melhor monólogo interrompido, teve lugar n'«As Escolhas de Marcelo» desta noite... Foi uma coisa rápida, de fugida, durante a apresentação dos livros, que Maria Flor Pedroso fez questão de não deixar passar e que depois se limitou a sorrir condescendente.

"Mãezinhas de Portugal"???!!! Mas voltámos à idade média, foi?! E a pseudo-correcção que se seguiu?!!!... A querer dar um ar de "avançado" mas sem querer reconhecer a parvoíce que tinha dito, e sem imaginar a que ainda iria dizer!... "Os paizinhos provavelmente não têm tanta paciência como as mãezinhas para ler isto"... Isto de disfarçar mentalidades é complicado...

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domingo, outubro 21, 2007

Dez textos sobre Economia(s) (II)

«Não têm outra coisa a fazer senão pôr a descoberto os erros e as faltas dos outros. Nestas condições, não é muito difícil a essa gente viver usando de alguma precaução e cautela. E de tal se gabam com o maior atrevimento. Estão, por exemplo, convencidos de que todos lhe devem prestar vassalagem e olham o mundo como se fosse uma despensa. Somente vêem néscios nos que os rodeiam, e estão certos de poder espremê-los até à última gota, quando o desejem. Têm-se, de certo modo, senhores do mundo, e, personagens tão espertos quanto importantes, parecem estar persuadidos de que esta sábia ordem das coisas lhes pertence. Assemelham-se (...) aos desavergonhados que conseguem enganar os outros tantas e tão variadas vezes, que eles próprios chegam a acreditar que tudo aquilo, que dizem, fazem ou deixam de fazer, tem a sua razão de ser. (...) A natureza toda, o mundo inteiro, não é para eles mais que um grande e formoso espelho, criado, na aparência, com o único fim de que esses pequenos deuses possam admirar-se continuamente nele, sem que se deva reflectir nada nem ninguém, excepto as suas imagens soberanas.»

Fédor Mikhaïlovitch Dostoievski, "O Pequeno Herói", Publicações Europa-América

Se "Tolstoi é um gigante moralista", Dostoievski é um portento psicológico. De outra forma, como poderia ter ele acertado na mouche na definição do pequeno e médio empresário português? E a pequenez tanto se refere à dimensão da empresa como à da mentalidade. Exemplos são mais que muitos: um que queria meter um relógio de ponto na empresa cinco minutos adiantados à entrada e outros cinco atrasados à saída, proibindo os relógios dentro da instalações; outro que telefonava cinco minutos antes das saída aos seus colaboradores motoristas para lhe fazerem mais uma carga e achava que não tinha de lhe pagar as horas porque era um favor que o empregado lhe tinha feito, o «empresário» que passou um cheque de quarenta euros e pediu para só metê-lo no fim do mês porque tinha de ver se tinha cobertura, ou outros dois que discutindo sobre uma nova legislação travavam o seguinte diálogo:
- Não é assim F.
- É, é. Então se o M. disse é porque é.
- Ora, ora, o M. não percebe nada disso. Eu falei com o P. ele disse que não era assim. E olha que o P. já anda nisto ainda o M. não era nascido.
Nisto um advogado coloca-lhe a tal lei em cima da mesa. Olham para o maço de folhas, um deles dá uma vista de olhos, guarda-a numa gaveta da secretária e continuam
- Mas o P. está mais dentro dessa área e conhece melhor esses assuntos.
- (...)
Estes são exemplos caricatos, verdadeiros e particulares, mas que expressam bem a mentalidade das gentes.
Mas é no geral que está o mal: não criam produtos com valor, têm a mentalidade do quero posso e mando, são incapazes de delegar competências, os funcionários são vistos como criados preguiçosos, escrevem anúncios nos jornais a dizer que oferecem quinhentos euros/mês, e fazem questão de colocá-lo em letras gordas para realçar "tamanha generosidade", são os recibos verdes a empregados com horário e obrigações, é a convicção de o Estado é que lhes deve dar os subsídios e pagar a formação aos seus funcionários, são as ameaças aos empregados que queiram estudar e a recusa de admissão de pessoas com o estatuto trabalhador-estudante, é a falta de associativismo, pela eterna desconfiança e pelo lema «no que é meu mando eu» que lhes impede de obter um único cêntimo com ganhos de escala, é a admissão de universitários pelo tempo de nove meses - o tempo em que só têm de lhe pagar um salário mínimo, o Estado paga o resto - mandá-lo embora e depois voltar a contratar outro nos mesmos moldes, são as vendas a negro ou sem papel. Não têm a mínima noção do que seja um organigrama de uma empresa, a higiene e segurança no trabalho, as leis que regem a actividade que se inserem, como se executa um projecto de investimento ou de financiamento, de como pode a tecnologia melhorar a sua produtividade, as obrigações ambientais a que devem obedecer, quais os desafios e oportunidades da globalização apresenta. Respondem sempre «está mal», «está muito mal» ou «está cada vez pior» à pergunta: «como é que vão os negócios?». No entanto, trocam de Mercedes como quem troca de camisa, constroem mansões aberrantes e do pior gosto possível para seu usufruto, a empresa deles é sempre a melhor do sector e eles são os melhores empresários do mundo.
Todas as generalizações são injustas, e a que está aí em cima por certo que também o é. Há excepções que tentam mudar as coisas, que tentam fazer de forma diferente, e diria eu com conhecimento de causa, fazer de forma correcta e sustentada o desenvolvimento das suas empresas. No entanto, a grande maioria das PME's funciona na forma acima descrita. Sabendo-se que as PME's representam cerca de noventa por cento do tecido empresarial português, resta-nos esperar que a nova geração de administradores faça a gestão de forma diferente. Caso contrário, não há governo, nem incentivos, nem subsídios comunitários que nos tirem deste marasmo de desenvolvimento económico. E isso vai ser uma tarefa longa, árdua e que não depende da mudança de governos; depende antes e acima de tudo de uma coisa bem mais complexa: a mudança de mentalidades.

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Simpsonize yourself

Simpsonizem-se aqui
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Pro-actividade na nossa vida pessoalmente económica

Ontem, depois de várias horas de reflexão, cheguei à seguinte check list de afazeres para segunda-feira:
- marcar reunião com Jardim Gonçalves;
- inscrever dia na agenda;
- desmarcar todos os compromissos já agendados para esse dia;
- pontos a tratar na reunião: perdão das minhas dívidas em relação ao empréstimo da casa, do carro, dos electrodomésticos, dos livros, dos cd's, das fraldas para o cachopo, das papas, do gasóleo, etc [elaborar lista rigorosa]. Para tal:
- apresentar contratos de empréstimos;
- contabilizar o total dos juros que o BCP me irá cobrar em relação a todos estes empréstimos;
- fazê-lo compreender que a reconfirmação da sua imagem de credibilidade poderá passar por pequenos passos como este.

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sábado, outubro 20, 2007

queeero ficar sempre estudaaante...

... Não coleccionei amores levados pelo vento, nem alimentei corações caprichosos, mas os anos de Faculdade deixam, sem dúvida, saudades... Confesso que me faz um bocado de confusão quem, passando por aqueles cinco anos, só tenha memórias insignificantes e se sinta profundamente aliviado por já não ter de pôr os pés naqueles corredores. Eu até aulas e exames guardo num cantinho especial! Mas, para além disso, há os bancos, o bar - o bar! as natas do bar! - as cantinas, os intervalos, as suecas, as esperas, os estudos, as fotocópias, as partilhas, as ansiedades, as alegrias, as tristezas, os comboios, os autocarros, os atrasos, as boleias... Sei lá! E estou a passar por cima de muita coisa... As praxes, as queimas, o traje, os grupos académicos,... Coisas boas e coisas más, mas com um balanço claramente positivo! Custa-me perceber quem não tenha nem um bocadinho de saudades... Quem não queira ficar sempre estudante... Quem sequer sorria com a ideia de eternizar a ilusão de um instante...

E agora deu-me para isto, porque nesta noite fui ver o FITU - Festival Internacional de Tunas Universitárias "Cidade do Porto"... E houve qualquer coisa que me fez levantar durante o "Amores de Estudante" final, em postura de hino, de respeito e de... partilha... - ainda que uma partilha muito egocêntrica, de mim para comigo, de memórias carinhosamente guardadas...

O Festival continua hoje (sábado), depois das 20h30, no Coliseu do Porto.

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sexta-feira, outubro 19, 2007

Porque daqui a 3 dias é outra vez Segunda-feira

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Sexta-feira


Porque há sextas para todos os gostos, aqui fica o contraponto aos caríssimos corta-fiteiros.

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Fé e Ciência

Interessa-me muito mais a perspectiva filosófica de olhar o mundo e a nossa relação com ele, do que as perspectivas da fé e da ciência. Ambas vivem demasiado encerradas nas suas explicações e tendem a tornar-se ridículas, pois as posições mais extremas tendem a olhar para a realidade na sua perspectiva e não questionando a possibilidade de estarem erradas.
Compreendo, tanto para a ciência como para a fé, é inquestionável a crença absoluta na sua relação com o mundo, pois caso fosse questionável tais certezas seriam abaladas, a chamada crise de fé. E quem se encontra na posição de crise deverá encontrar-se antes ou depois da certeza.
Concluindo, compreendo a necessidade de tanto num caso, como noutro, não se questionar a resposta da sua relação com o mundo.
Não compreendo é a perspectiva de não ser claro, que aquela é apenas uma das respostas possíveis.
Ok, aceito se argumentarem que afinal esta também é uma perspectiva que se encerra dentro de si mesma.

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O sentido da vida - uma resposta filosófica


«(...) Mesmo que a vida como um todo não faça sentido, talvez isso não seja preocupante. Talvez consigamos reconhecê-lo e continuar pura e simplesmente como antes. O truque consiste em manter os olhos no que está à nossa frente e permitir que as justificações cheguem a um fim no domínio interior da tua vida e no domínio interior da vida das outras pessoas a quem estás ligado. Se alguma vez te puseres a questão «mas qual é a finalidade absoluta de estar vivo?» - tendo uma vida de estudante, ou de empregado de bar, ou do que quer que sejas -, responderás: «Não há finalidade. Não faria qualquer diferença se nem sequer existisse ou não me preocupasse com nada. Mas preocupo-me e existo. E é tudo.»
Algumas pessoas acham que esta atitude é perfeitamente satisfatória. Outras acham que é deprimente, ainda que inevitável. Parte do problema reside no facto de alguns terem uma tendência incurável de se levarem a sério. Queremos ser importantes para nós mesmos «a partir do exterior». Se as nossas vidas como um todo parecem não ter finalidade, então uma parte de nós fica insatisfeita - aquela parte que está sempre a olhar por cima dos nossos ombros para ver o que estamos a fazer. Muitos esforços humanos, em particular os que são realizados ao serviço de ambições sérias, em vez de serem ao serviço do conforto e da sobrevivência, adquirem alguma da sua energia a partir do sentido da importância - o sentido de que aquilo que estás a fazer não é importante apenas para ti, mas é importante num sentido mais vasto: importante simplesmente. Se tivermos de desistir disto, podemos ficar ameaçados de perdermos o chão debaixo dos pés. Se a vida não é real, se não é séria, e o túmulo é o seu objectivo, talvez seja ridículo levarmo-nos tão a sério. Por outro lado, se não conseguimos evitar levar-nos tão a sério, talvez tenhamos, pura e simplesmente, de aceitar o facto de sermos ridículos. A vida pode não só não ter sentido, como também ser absurda.» p.91-92

NAGEL, Thomas, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, Lisboa, ed. Gradiva, col. Filosofia Aberta, 1995, p. 92

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Dancing Hillary

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quinta-feira, outubro 18, 2007

Purga em Angola

Ler com atenção a transcrição do livro por Francisco José Viegas. É interessante verificar o quanto um oprimido se torna, muito rapidamente, num opressor ainda mais sanguinário.

Contudo afirmações como:

«Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.»

irritam-me e revelam má consciência e ressentimento ideológico, o mesmo que rapidamente "cozinharia" procedimentos idênticos.

Como se nos devêssemos contentar com o facto de atrocidades de Pinochet, Che Guevara, Staline, Hitler, serem menores que, na linha contrária ao meu pensamento ideológico.

Qualquer atrocidade realizada em nome de qualquer ideologia é grotesca. Aliás Reinaldo Arenas, segundo a Atlântico, dizia qualquer coisa do género:

A diferença entre o comunismo e o capitalismo é que no primeiro quando te dão um pontapé no cu tens de aplaudir e no segundo podes gritar.

Ainda bem que podemos gritar, mas não nos podemos contentar com quantificações de atrocidades.

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Orlando de Vez em Quando


Os alunos ouvem Orlando de Vez em Quando dos Cabeças no Ar, solicitam-se posteriormente interpretações.

A escola (alunos, professores, auxiliares e todos os restantes componentes/elementos da instituição):
- reproduz a estratificação social;
- segrega através do meio de origem da criança/adolescente;
- dá atenção apenas às pontas, os alunos brilhantes e os alunos mal comportados, entretanto há uma massa cinzenta, alunos medianos, que passam despercebidos;
- os alunos são cruéis uns com os outros;
- os alunos estão mais interessados em estar na escola para socializar e não para aprender.

Outras conclusões:
- A escola é afinal mais um componente da vida de um país e, como tal, reproduz a forma como os elementos desse país se "deixaram" formar.
- É por isso que a consciência crítica não nos deve abandonar, pois nalgum momento da nossa vida, nós somos aquilo contra o qual nos insurgimos, pelo menos teoricamente.

Cabeças No Ar,
Cabeças no Ar, 2002

Sou um patinho assim assim
Não há quem repare em mim
Não sou triste nem zangado
Eu sou só um pouco reservado

Não sou loiro não sou alto
Não corro muito depressa
Não tenho tempo de salto
Não remato nunca de cabeça

Eu sou o Orlando
E só venho à escola
De vez em quando

Os dias lá no meu meio
São muito mais não que sim
Não sou um patinho feio
As águas é que fogem de mim

Se as águas fossem iguais
Para quem começa a nadar
Talvez eu viesse mais
Talvez ate ousasse voar

Eu sou o Orlando
E só venho à escola
De vez em quando

Se alguém se lembrar de mim
E disser o Orlando não veio
Digam-lhe que eu hoje vim
Mas fiquei sozinho no recreio

Eu sou o Orlando
E só venho à escola
De vez em quando

Imagem

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quarta-feira, outubro 17, 2007

Receitas de Leitura


Dose de Amostra

O telefone despertou-me numa fria manhã de Junho. Sentei-me na cama. A luz, lá fora, inerte e alheia, morria numa lenta gradação de cinzentos. Era triste como uma fotografia antiga. Naquela posição, sem precisar de mover a cabeça, sem precisar sequer de mover os olhos, eu via os barcos levitando na baía. Luanda em Junho pode ser uma cidade muito triste. Reconheci a voz, do outro lado, mas não me conseguia lembrar a quem pertencia.
- Aconteceu de novo...
- Quem fala?
O gritar das cigarras. Uma funda e escura alameda de acácias rubras. Fechei os olhos e voltei a ver os troncos cobertos pelas cascas das cigarras. Quando era criança achava que fossem fantasmas de cigarras. Não sabia ainda que as cigarras mudam de pele (ou de corpo) vezes sem conta. Fiz um esforço para afastar o sono. Preferia estender-me na cama e adormecer de novo. Tenho sonhos tristes. Às vezes choro enquanto durmo. Só choro, aliás, enquanto durmo. Todavia a luz, lá fora, era ainda mais triste do que as sombras dos meus sonhos mais tristes.

José Eduardo Agualusa (2006), Passageiros em Trânsito, Dom Quixote

Composição
Passageiros em Trânsito é composto por vinte e dois contos do escritor angolano José Eduardo Agualusa, anteriormente publicados na revista do Público e agora compilados num só volume. A composição recente data de 2006. A aventura, o fantástico e a inquietude de outras latitudes são os princípios activos de base, embora outros componentes presentes contenham a procura incessante de quem somos afinal nesta travessia e alguma nostalgia encerrada no verbo partir.

Indicações
Passageiros em Trânsito está particularmente indicado para quem gosta de viajar, sente o apelo da partida e tem curiosidade acerca de paragens distantes. Também indicado para quem aprecia uma boa prosa, simples e despretensiosa, mas carregada de significado e alguma mística que espreita aqui e ali.

Contra-indicações
Não deve ser lido por indivíduos com obsessão pela segurança do aconchego do lar, cheios de certezas, desprovidos de fantasia e com tendência para a aversão a relatos ficcionais e estórias com laivos de exotismo, algumas peripécias e palavras cheias de calor e cor. O carácter breve e conciso dos contos está contra-indicado nos amantes de romances longos e densos.

Precauções
Indivíduos sugestionáveis com tendência para imergirem nas personagens devem evitar a leitura de Passageiros em Trânsito. Podem ocorrer ataques ligeiros de ansiedade de partida e excitabilidade. Verificaram-se casos raros de taquicardia e alucinações. Caso os leitores sintam uma coceira no estômago, a curiosidade a crescer dentro de si ou a procura involuntária do passaporte ou da mala de viagem devem descontinuar a leitura imediatamente. Se os sintomas persistirem, mude de leitura ou corre o risco de acordar no outro lado do Atlântico.

Posologia
Passageiros em Trânsito deve ser lido em doses pequenas, ao ritmo de um conto por dia para melhores resultados e fazer jus ao tempo diferente e ritmado das latitudes em que decorre a acção. Se se sentir tentado a rumar pela leitura dentro pode ler dois ou mais. Não são conhecidos efeitos de sobredosagem. É muito bem tolerado por indivíduos imaginativos e de alma errante.

Outras apresentações
Se se deu bem com a leitura de Passageiros em Trânsito deve continuar a ler mais livros do autor como Um Estranho em Goa ou O Vendedor de Passados. Como complemento estão indicados outros relatos de viagens alicerçados na realidade de carácter não ficcional como Sul de Miguel Sousa Tavares. Recomenda-se a leitura de Mia Couto, com especial incidência no mais recente romance do escritor moçambicano O Outro Pé da Sereia.

Inspirado aqui

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Outros Milionários


A cantora pop mais bem sucedida do mundo sempre me pareceu uma pessoa muitíssimo inteligente.
A forma como tem conduzido a sua carreira é, aliás, o exemplo disso, tal como a decisão milionária de largar a sua editora discográfica e lançar-se de armas e bagagens para o braço de uma empresa de espectáculos.
Já Prince tinha dado sinais de que as editoras discográficas e os seus ganhos milionários tinham os dias contados.
E quando um administrador português de uma editora disse numa entrevista que tinham de começar a haver exigências contratuais diferentes com os músicos, merchandising, por exemplo, franzi o nariz e pensei: só se eles forem parvos!

O digital veio para ficar e dar lugar a outros milionários, enfim, o capitalismo também precisa de se revitalizar.

Madonna

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As coisas que a gente lê III

Quanto ao artigo 30, a.leitão tem razão, Catalina Pestana extravasa a mera insinuação, afirma peremptoriamente. Já não posso concordar quanto a Paulo Pedroso. Aquilo que se lê acerca do político do PS são insinuações.
Poderiam argumentar e com bastante legitimidade: mas há o problema do segredo de justiça.
Provavelmente a intenção de CP é a de pressionar a justiça e o silêncio sepulcral que invadiu o caso. Presumo que seja essa a sua razão principal.
Presumo também que a razão da criação da associação dos cuidadores que surgirá, segundo ela até ao princípio do ano, seja uma forma de elementos da sociedade civil supervisionarem estas instituições, para que as mesmas deixem de ser dirigidas por gente bem intencionada e incapaz de reagir às pressões políticas e "outras".

Aqui por Coimbra, como no resto do país, também existem instituições deste género.
E conheço um agrupamento de escolas que se debate com o problema social acarretado por estas crianças. Algumas delas têm atrasos no desenvolvimento, outras são autênticas bombas humanas, todas elas com uma necessidade gritante de afecto e colo.
Como é que a escola pode olhar para estas crianças?
Caridade?
Não, obrigada!
Vitimização?
Não, obrigada!
Mas uma criança destas, numa sala de aula, é realmente problemática.
Acho que é pelas razões mais humanas, incluindo a capacidade de nos maravilharmos, a empatia e o amor, que se devem ensinar estas e todas as crianças.

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terça-feira, outubro 16, 2007

ir ou não ir?...

Tenho, há largos meses, uma dúvida que me atormenta:

ir ou não ir ao Rivoli?...

Eu acredito que o espectáculo seja bom - ai dele, que não seja!!!... - não é isso que está em causa... Mas, então, e os meus princípios?!... Não me apetece apoiar o senhor que monopolizou um dos principais espaços de excelência cultural da cidade... Não me apetece, pronto!

E não percebo como tem mesmo havido público para tanta exibição?!!! Afinal quem é que tem ido ver aquilo?!... Ainda por cima no meio de tanta polémica... Onde está a cidade que se indignou com a saída dos funcionários e se solidarizou com os manifestantes?!...

Passou ontem um ano sobre o início da Rivolição...
Lembram-se?...

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As coisas que a gente lê II

Não tenho tido tempo, absolutamente nenhum, de ler comentários acerca da entrevista de Catalina Pestana ao SOL.
Não faço, por isso, a mínima ideia do que se diz por aí.
Interrogações:
- se CP foi professora da Casa Pia durante anos e posteriormente dirigente máxima, em que ponto é que pudemos desatar o nó da sua conivência com a situação que vem denunciar?
- e as insinuações/desconfianças contra Paulo Pedroso? Que tipo de declarações são aquelas? De concreto, contra o político, apenas levanta o véu de suspeição largado pelos miúdos, fala nas listas de nomes famosos a correr pelos jornais e Casa Pia, enviadas sabe-se lá por que interesses escusos, e insurge-se contra a vergonha nacional do aplauso a PP na Assembleia da República.
Confesso que este tipo de entrevistas intrigam-me pela sua falta de dados concretos, é como se nos estivessem a tentar desocultar algo demasiado claro.
Todo este processo revela de uma forma clara o seguinte:
- alguns dirigentes deste tipo de instituições são irresponsáveis;
- estas instituições sobrevivem à custa de alguma carolice de pessoas dedicadas;
- as crianças são presas fáceis de todo o tipo de agressores;
- alguns elementos do corpo docente convivem de uma forma passiva e acomodada com os atropelos;
- outros são aves de rapina prontas a sugar o sangue dos outros;
- e ainda outros fazem de conta que não vêem.

Catalina Pestana pode denunciar, é seu dever, mas o que mais ela sabe e não pode dizer?
O verdadeiramente aterrador, parece-me ser o que está oculto, pois o processo Casa Pia há muito que se "afundou" numa assustadora "irrealidade".
E é por estas e por outras que o zé povinho continua a "acreditar" na justiça, no poder político e revive emocionalmente a velha cantiga: "pra pior está bem, está bem, pra melhor já basta assim"

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As coisas que a gente lê I


Ontem li a seguinte frase de William Faulkner:
«como éramos pessoas felizes se todos os nossos erros se pudessem comer».
É ou não deliciosa naquilo que diz e deixa em aberto?
A frase conclui um acontecimento importante a criada X(?) fez uma quantidade de bolos, cuja necessidade se revelou desinteressante, continua com noções hilariantes acerca de economia doméstica, incluindo ovos e etc e tal e remata a pequena história com a frase anterior.
Tudo isto está incluído na obra «Na minha morte», cujas primeiras páginas, as que eu li, são monólogos interiores impressionantes na sua verosimilhança com a realidade.
Lemos Faulkner como se a personagem dialogasse connosco, e, confesso, é a minha primeira vez.
É sempre interessante relembrarmos a nossa primeira vez perante um fascínio, seja ele qual for.

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Oitentas: o antes e o depois [3]

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segunda-feira, outubro 15, 2007

Fundamentos para a utilização de uma palavra homófona homográfica

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Contemporaneidades

A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS.
A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem… A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa... A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é. E o amigo do marido da Maria filha da velha Então tu não lhe disseste que a tua mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai…
A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente… E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

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silêncio! que se vai dançar o fado...

Fados... Bons cantores, bons músicos, bons bailarinos, combinações ricas, arranjos interessantes e montagens bem conseguidas... Sim, gostei... Mas não acho que seja um bom filme... Não porque não seja bom, mas, simplesmente, por não ser um filme!... É (apenas?) uma excelente colecção de video-clips de canções cuidadosamente escolhidas e trabalhadas! No fundo, é uma banda sonora de um filme que não existe...

Está catalogado como musical... Tem música, sem dúvida! – boa música! Mas não tem história... Podem dizer que conta a história de um povo, de uma alma, de um sentimento e mais não sei o quê – é bonito mas não me convencem... E é que, não tendo enredo, estaria, para mim, mais próximo do documentário, mas acho que nem isso... Tem pontuais registos de arquivo de reconhecidas grandes vozes nacionais, aproxima-nos no ritmo e nos cantores dos países lusófonos e dos nossos vizinhos, tem até momentos de imagens de Abril e recria ambientes típicos... Mas não é o suficiente para lhe dar o carácter documental – digo eu!...

Perguntei-me: afinal o que define um filme?... Não consegui responder, mas o que quer que seja o meu conceito cinematográfico, acho que não abrange o musical de Saura.

Mas não se percam nesta minha indignação! Eu gostei e até fiquei com vontade de ver os anteriores "musicais" do senhor. "Aquilo" é um bom trabalho! Apesar de alguns momentos... estranhos, tem, acima de tudo, – relembro! – bons cantores, bons músicos, bons bailarinos, combinações ricas, arranjos interessantes e montagens bem conseguidas...

Gostei de muita coisa e apreciei, sobretudo, as danças – não é todos os dias que se vê dançar o fado! Menina neguinha de vestido branco e leque na mão dançando ao redor do seu neguinho. Um solo masculino, divertido e cúmplice com Mariza. Animação contagiante de volta de uma fogueira ao som de um Fado Batido pela Brigada Victor Jara. Um dueto de rua sobre arranjos urbanos num tributo a Marceneiro. Um pas-de-deux emotivo ao som de Amália na voz (??? – alguém me explica o porquê daqueles agudos???) de Caetano. Um trio amoroso em jeito de tango enrolado de traição ao som de Lila Downs em português. Um cheiro flamenco numa proximidade ibérica.


imagem adaptada

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domingo, outubro 14, 2007

A literatura também se deveria comer

Terminei hoje “Anna Karenina” (AK) e sinto-me uma rapariga feliz. Ao contrário do homenzinho que imaginava Tolstoi um gigante, a minha fantasia construiu um homem idoso, de longas barbas (influência das fotos) e interiormente uma espécie de Levin, uma das principais personagens masculinas de AK.

A história desenrola-se à maneira de um filme americano. Os capítulos vão cruzando as histórias dos casais: Levin/Kitty, Anna/Vronski e Oblonski/Dolly(?). Cada um dos casais simboliza um tipo de união: os primeiros um casamento assente no amor, respeito mútuo e felicidade; o segundo no amor carnal, egoísta e ciumento; o terceiro num casal infeliz, de um lado um homem egoísta, virado para os prazeres imediatos da vida e do outro uma mulher feliz com os seus filhos e infeliz com as infidelidades e inconsciência económica do marido.

A primeira frase da obra certamente já todos conhecem: «As famílias felizes parecem-se umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira». E é uma frase invulgar por todo um estranhamento em suspensão.

Anna simboliza a mulher que vivendo um grande amor, e tudo tendo sacrificado por ele, exige do seu par a entrega total. Contudo comete um erro de avaliação, Vronski está muito aquém das exigências de Anna e é esse o seu principal desencontro. Anna é uma mulher sedutora, inteligente e audaz, Vronski um homem vaidoso, egoísta e superficial. A paixão e a sedução une-os, mas não resiste aos primeiros abalos, encerrando-os num mundo incomunicável.

As páginas finais relançam um tema igualmente Universal, o sentido da vida. A resposta encontra-se na simplicidade, na consciência do lugar que se ocupa na família, na sociedade, ambicionando o bem em si mesmo, uma vez que o fim do ser humano é idêntico, um caixão e a terra a servir-lhe de berço.

Optei pela versão da Relógio de Água, aqui e ali sentem-se as falhas de revisão, umas palavras em falta, pois sem elas as frases não fazem sentido, outras em excesso, pois com elas as frases também não fazem sentido.

Demorei cerca de três semanas e tenho a dizer-vos que desde Dom Quixote que não lia uma obra com tanta avidez.

Nabokov no posfácio diz que a grandeza de Tolstoi reside na sua noção, muito própria, de temporalidade. Os seus homens e as suas mulheres são de carne e osso, poderiam cruzar-se connosco nos salões e essa é a diferença entre um grande autor e um medíocre. Sim é esta a diferença entre os grandes escritores. Os homens e as mulheres são de carne e osso, sentem, amam, vingam-se, invejam, amam, rejeitam, são medíocres e excelsos, mas constroem-se. Tal como o ser humano que cada um de nos é, repleto de ambiguidades, grandezas e mediocridades.

Recomendo, vivamente, mas muito vivamente!

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Sugestões de Leitura (edição especial)

  • O Poder da estética, por André Carvalho, no GR (essencialmente na parte dos parêntesis rectos);
  • Premonições, por Leonor Barros, no GR (pela tentativa de roubar o recorde de título com maior número de pontos de exclamação [26] à Cristina);
  • As regras querem-se com excepções, por Cristina Silva, no GR (por ter escrito um post com 323 palavras utilizando apenas seis pontos de exclamação);
  • Palavras Cruzadas, por NancyB, no GR (por me relembrar a expressão urbana que mais irei ler nos próximos mails dos meus colegas depois de verem este post: «levar no toutiço»);
  • Sugestões de Leitura (edição especial), por Carlos Malmoro, no GR (para fazer jus à segunda etiqueta do post).

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sábado, outubro 13, 2007

Oitentas: o antes e o depois [2]

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Oitentas: o antes e o depois [1]

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Espremedor de citrinos

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O sistema está em manutenção

Ele - No domingo afinal não vou trabalhar, o sistema está em manutenção.
Ela - Ai é?
Ele - Sim, imagina só, estes gajos não sabem escolher outro dia p'ra manter o sistema.
Ela escrevendo no moleskine rosa choque
Ele - escreves o quê?
Ela levantando a cabeça e semicerrando os olhos - há argumentos que devemos guardar religiosamente.

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sexta-feira, outubro 12, 2007

as regras querem-se com excepções...

Entro na FNAC, dou uma vista de olhos pelos CD's em destaque na entrada e a voltinha habitual pelos "suspeitos do costume" na secção... do costume ;) Às vezes tenho surpresas agradáveis para a carteira... Dois ou três quase, quase, quase a entrar no meu limite... Mas há que ser rigoroso, caso contrário levaria metade da loja para casa!

Por outro lado, as regras rígidas e bem rigorosas querem-se sempre com excepções :) e o que me trouxe hoje à FNAC vai ser responsável por uma delas!... Deixa-me espreitar o bar... Vai-se fazendo o teste de som já perante mais de meia plateia. Deixo-me ficar enquanto como qualquer coisa e depois vou comprar o CD...

Ora, eu já paguei, mas sinto-me um bocado estranha a abrir o plástico no meio da loja... O que é que me impede de o fazer ser o ter pago?... Ignoro os pensamentos e continuo na tarefa de rasgar o pequeno invólucro transparente. Consegui! Finalmente o livrinho das letras!

Gosto das fotos! Não gosto das letrinhas brancas que mal se lêem - ficam bem esteticamente, mas... são pouco funcionais. Adiante! Não vai ser uma futura miopia que me vai impedir de ler as letras agora!!! Esta é das poucas oportunidades que tenho para ler o poema pelo poema, sem ligação afectiva inconsciente à música e à interpretação...

Confesso que tenho um apreço muito instável por Tê e quase cheguei a querer que os poemas não me agradassem... Xô, xô, pensamento ruim!... Mas tenho de confessar que tive um gostinho especial ao apreciar particularmente uma das letras e depois reparar que não era dele. Shame on me...

A plateia sentada já está completa e ainda falta meia hora... Abandono o cantinho do fundo que me amparou as leituras e procuro um espacinho lá à frente para me sentar no chão... Perfeito! Agora é só arranjar o que fazer durante meia hora... Acho que vou rascunhar qualquer coisa no caderno...

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Premonições

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RIBA Stirling Prize 2007

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Diário de Bordo

Não li nenhum livro de Doris Blessing nem fazia a mínima ideia da existência literária da senhora. Após o anúncio, Maria Velho da Costa deve ter gritado qualquer coisa como: «as mulheres unidas jamais serão vencidas!» e soltado uma lágrima de crocodilo em prole do júri "outrora" machista (ver entrevista na revista «Os Meus Livros»).
Não há dúvida que o feminismo teve a sua época.
Tal como o machismo.
A diferença entre os dois é que um é fórmula gasta mas milenária e outro centenária.
Mas entre um e outro venha o badalo e escolha.

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O poder da estética

Apesar de já ter mais de uma dezena de livros [de bolso] editados em português, ainda não tive o prazer de conhecer nenhuma das obras de Doris Lessing – da qual já ouvi dizer tanto de bem como de menos bem. E como estes prémios têm sempre aquele efeito de aguçar o apetite do mais comum dos leitores, por [brevíssimos] momentos ainda pensei em ir a “correr” à livraria mais próxima para poder começar de imediato a ler [na transversal] qualquer “coisa” da octogenária britânica. E ainda me passou pela cabeça que, com alguma [bastante] sorte, conseguia fazer aqui [no GR] uma figuraça e, quiçá, bloggers como o Pedro Correia ou o João Villalobos ainda poderiam acabar por escrever um daqueles posts, tipo, “Gostei de ler”, com um link para o meu portentoso texto – tal como acontece aos meus “felizardos” colegas de blogue. O “único” senão é que eu teria de escrever um post inteiro sem parêntesis rectos, sem equívocos ortográficos, sem desacertos gramaticais, sem dizer mal de alguma coisa simplesmente porque sim, sem me “esticar” nos parágrafos e, mais difícil [talvez mesmo impossível], acabar por conseguir dizer alguma coisa inteiramente coerente, perceptível, inteligível, e que no final, não seja ofensiva para ninguém.

Assim [tendo em conta esta impossibilidade de facto], depois de ter analisado profundamente todos os prós e todos os contras [quando quero consigo ser minucioso] acabei por optar por* não comprar [ainda] nenhum livro da Doris Lessing; mesmo sabendo de antemão que esta opção vai acabar por me sair mais cara [monetariamente falando], porque as novas edições vão acabar por sofrer do já famoso super efeito Nobel no preço. Como desculpa para este meu momentâneo desinteresse poderia argumentar que prefiro aguardar por melhores traduções das obras de Lessing, mas a verdade é que as edições de bolso que se encontram presentemente à venda no mercado nacional não ficam tão bem nas prateleiras do meu escritório.

*“(…) acabei por optar por (…)”, “por (…) por” – eu tentar até tento, mas não consigo evitar estas repetições e outras redundâncias e equívocos.


Imagem via: The Folio Society

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Diário de Bordo

Aluna - Peço desculpa professor mas às terças à tarde vai-me ser muito difícil assistir às aulas.
Professor - Se só pode dar 10% de faltas, só pode faltar duas vezes, não poder vir nunca é demasiado.
Aluna - Sou professora contratada e quando cheguei à escola expus o meu caso ao Conselho Executivo mas disseram-me que não era possível mudar o horário.
Professor - Pois é, mas exponha o seu caso aos docentes das disciplinas deste curso, pode ser que possa fazer a cadeira em regime de tutoria.
Aluna - Vou ver o que posso fazer legalmente, posso usar os artigos, não posso abusar das faltas injustificadas, etc, vou ver quais são os meus direitos.
Professor - É não percebo porque é que os Conselhos Executivos não estão interessados em que os seus professores se actualizem.
Aluna - Já viu, há pessoas que não têm abertura nenhuma, vou ver o que posso fazer, senão tenho de desistir. Os meus direitos, tenho de salvaguardar os meus direitos.
Outra aluna - Colega, tem de compreender que os professores contratados chegam à escola em Setembro e estar a mudar os horários de todos os colegas é muito complicado.
Professor - Ah claro, mas de qualquer maneira...
Aluna - Vou ver o que posso fazer, contando com os meus direitos...

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A veia marxista-leninista

Imagem via: Sphere

Desta feita [coisa rara] até não me custa acreditar na palavra do primeiro-ministro, quando afirma que não teve qualquer conhecimento antecipado da visita dos agentes da PSP à delegação da Covilhã do Sindicato dos Professores; e até posso acreditar [por ser completamente irrelevante] que só soube de tal actuação através dos jornais.

Como é sabido, também não é esta a primeira vez que este governo é acusado da prática de políticas persecutórias e, pela sucessão de acontecimentos, também não deverá ser a última.

Apesar de não me rever nas posições daqueles que já andam por aí a defender que a democracia em Portugal está em perigo, também não me sinto capaz de compactuar com os que advogam o famigerado, “não se passa nada!”. A democracia pode até não estar em risco mas parece-me evidente que anda, no mínimo, algo adoentada; e assim deverá permanecer enquanto continuarem a não ser imputadas quaisquer responsabilidades por aqueles convenientes excessos de zelo praticados aqui e ali por uns quantos mui diligentes funcionários públicos que têm vindo a ser cirurgicamente plantados nestes últimos dois anos em lugares-chave por despacho ministerial.

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quarta-feira, outubro 10, 2007

"M" de Matemática... e de Música

Foi interessante. A definição da tonalidade, a afinação e as proporções gregas e renascentistas, os 12 meios tons e a Teoria de Grupos, o belo, o número de ouro e a sucessão de Fibonacci, a música estocástica e a Lei dos Grandes Números, a auto-semelhança, a compartimentação e os fractais e a Teoria do Caos.

Foram algumas ideias breves, nada muito aprofundado, até porque se anunciava: para o público geral... Diga-se, no entanto, que a noção de público geral se aplicava apenas nos conhecimentos matemáticos... Será que o senhor se lembrou que podia haver quem não percebesse de música???!!! Acho que não... Confesso que aqueles exemplos sonoros ilustrativos de alguma coisa me passaram quase todos ao lado. Mas foi engraçado observar as reacções da plateia. Pelos acenos de cabeça e alguns comentários finais dava para perceber perfeitamente quem estava lá mais pela Música e quem lá estava mais pela Matemática; e acho que ninguém lá foi que não tivesse alguma afinidade com pelo menos uma das áreas.

No final, comentou alguém – músico! –, que o prazer com que ouviu uma vez um cientista falar do seu trabalho se equiparava ao do músico na composição. Uma posição – matemática! – discordou dessa comparação, frisando que a beleza da Matemática está no processo construtivo, no caminho que se percorre para provar algum resultado e não tanto no resultado em si, enquanto que a beleza da Música está no produto final. Sem querer ser tendenciosa, acho que concordo com esta discordância...

[Esta sessão do Breve Dicionário de Ouvir da Casa da Música integra-se no Mês da Matemática do Serviço Educativo, que tem mais actividades agendadas.]

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Os "oitenta"

Advertência: este post só será inteiramente entendido pelo grupo etário 30/45
Se há uma característica genérica à música dos anos 80 é que ela tinha sempre algo de muito bom e algo de muito mau. Comecemos pelo mau. O excessivo uso de sintetizadores/electrónica: havia grupos que tinham guitarras eléctricas, normais, mas que faziam questão de pôr os sintetizadores, normalmente com dois ou três pisos, alinhados em L, a fazer os sons da mesma guitarra. E depois, já se sabe, vinha aquele som que parecia que o amplificador da guitarra estava abafado dentro de água aos soluços. Os telediscos eram inundados por um êxtase cromático, berrante, no limiar da alucinação, as mulheres usavam sempre franjinha e dançavam de forma estranha, para não dizer mesmo muito mal, e os homens cantavam em falsete e muito mal dançavam. Ambos vestiam-se como, vamos ser meiguinhos, broncos: homens com jeans apertados e camisas de alças, mulheres com blusões de couro sobre blusas brancas com os necessários botões desapertados para se vislumbrar uma centelha das...bem, o caro leitor sabe do que falo.
Depois a parte boa. A música, a despeito da electrónica, era sempre baseada numa linha melódica forte, que entrava facilmente no ouvido, e tinha bons beats, que dava para a pista de dança. Aliás, esta característica, a presença de um beat forte que dê para a disco, está a ser recuperada pelas bandas de pop/rock emergentes, de onde destaco os Bloc Party, para tornearem a dificuldade que o instrumento rei do rock, a guitarra, tem em conseguir um bom ritmo. Mas voltemos aos 80's. As letras: gostava, e gosto, de muitas das letras dessa época. Têm um travo agridoce, uma melancolia suave e uma nostalgia assumida que as tornam inesquecíveis. Exemplifico com o "Forever Young" dos Alphaville, o "Hunting High and Low", dos Ah-a, "True Faith", dos New Order (no video abaixo, uma das minhas favoritas).
Se retirarmos algum kitsch, a encenação com demasiado pathos ou o modo como certos arranjos eram feitos, com mais tecnologia do que uma central nuclear, e nos basearmos no essencial da música - a melodia, o ritmo e a letra - os anos oitenta foram excelentes. Basta ter ouvido para escutar para além do sintetizador.
PS: Uma confissão: este post foi feito muito "por culpa" de um blogger chamado "Tarzanboy", que mantém um blog com a bonita idade de quatro anos, onde se dedica a saber por onde andam hoje os heróis musicais dos anos oitenta. É muito bem escrito, actualizado com bastante regularidade, e tem aquela pontinha de humor que cai bem em qualquer texto. Convido-vos a visitá-lo no dear 80's.

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No lo creo em manifestações espontâneas pêro que las hay, las hay…

... embora me sinta na obrigação de confessar, nunca ter visto alguma.

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Diário de Bordo

Bom dia a todos,

Um bom dia desejoso de sol, um frio ligeiro a refrescar-nos a face, e uma caminhada, mais uma, em mais um dia de trabalho.

Há dias que acordamos desejosos de atrasar, rigorosamente, o Inverno;
outros mais ou menos crentes na nossa capacidade produtiva;
ainda uns descrentes na humanidade;
mas sempre vivos.

Num destes dias deparei-me com "ELA" de frente. Foi brutal, aterradora, grotesca. Deixou-nos com os nossos rituais de incredibilidade. E com perguntas inovadoras: afinal porque acordo todos os dias, porque cresci, porque gerei filhos, porque tenho uma casa, um trabalho, família, amigos, desejos e temores?

ELA é uma espada vertical e sempre apta a terminar um percurso. Viver é, por isso, uma correria contra...

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terça-feira, outubro 09, 2007

cartas daquelas...

Ontem tive de ir aos correios e, enquanto esperava que chegasse a minha vez, li num cartaz que 9 de Outubro é o Dia Mundial dos Correios. Fiquei a pensar... Há quanto tempo não escrevo uma carta?... Daquelas em folhas de papel, com uma caneta e uma letra bonita... Daquelas que se dobravam cuidadosamente para dentro de um envelope... Daquelas em que se colavam selos e se levavam aos marcos vermelhos antes do último levantamento... Daquelas que nos deixavam dias ou meses à espera de uma resposta... Daquelas que dava gosto receber e que nos faziam pousar o resto do correio para ir ler para o sofá... Daqui a uns tempos ninguém sabe o que isso é!... Agora, enviar e receber uma mensagem para o vizinho ou para o outro lado do mundo demora apenas um instante. A comunicação intensificou-se, generalizou-se... vulgarizou-se. Não se escreve um mail como se escrevia uma carta... Ou escreve?...

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O Botas

O Botas voltou. O Botas moderno não tem nariz aquilino. O Botas moderno tem um nariz arredondado na ponta. O Botas moderno tem mais cabelo do que o antigo, mas está mais branco, pobre Botas moderno. O Botas moderno já não usa as roupagens tão cinzentas mas o Botas moderno usa fatinho cinzento também. O Botas antigo foi árvore que não deu fruto a não ser o Botas moderno, descendente directo do Botas antigo, só que mais moderno. O Botas antigo vivia na sua toca, tinha voz fraca mas mão de ferro, vivia só mas orgulhosamente só. A diferença que faz um advérbio de modo. O Botas antigo desconhecia essa tal coisa moderna e democrática de oposição. Que é lá isso oposição? Ai, ai, vamos lá ver o respeitinho. O Botas moderno tem que viver com a oposição, modernices, é o que é, quem inventou a democracia devia ser assassinado como o rei, mas partilha com o Botas antigo um mesmo princípio quem não é por mim é contra mim, por isso o Botas moderno não gosta que o vaiem BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ BÚ, Botas moderno, até porque nos tempos modernos do Botas moderno, o mundo é um local civilizado cheio de realeza e gente com pergaminhos, educação e berço Ah, onde já se viu vaiar um Primeiro-Ministro, perdão, um Botas moderno, um senhor dr. Botas Moderno? Xô, bichos do mato, vá, vá, recolhei em vossas tocas gentalha menor. E, como nos tempos do Botas antigo, protestar é coisa daqueles tais que comiam criancinhas ao pequeno-almoço, ai como é que era o nome? Comunistas? Mas esses já não acabaram? Ora essa, então e quem protesta assim? Quem? Quem mais? Quem mais se atreve? Os comunistas, pois claro. Quem não é por mim é contra mim. E quem é que está contra mim? Os comunistas, pois, a restante população reage em júbilo perante os impostos que aumentam, os hospitais a rebentar pelas costuras, as escolas que fecham, as inverdades pelas bocas fora sem o menor pudor ou respeito. E quem protesta, então? Os comunistas, senhor Botas moderno, o resto do povo é ordeiro e submisso. O Botas moderno quer saber quem são. Sim, quem são esses tais? Ide averiguar, ide. Aqui está uma diferença relativamente ao Botas antigo. Já não há a António Maria Cardoso, o Forte de Peniche é uma fortaleza sita numa cidade piscatória batida pelo Atlântico, lá para Oeste, o Tarrafal uma localidade de Cabo Verde. E sem tudo isto, que há-de, pois, o Botas moderno fazer? Investigar, claro, contornar, fugir. Dantes não havia estas modernices de protestar assim, e se o Botas moderno não tem a António Maria Cardoso, tem de tomar as suas providências, compreenderão. O Botas antigo caiu um dia da cadeira, pobre Botas antigo, mas o Botas moderno está agarrado à cadeira com uma cola mais eficaz do que a tal que colava cientistas ao tecto e, quando cair, só se for com a cadeira, mas claro empurrado pelos comunistas, os únicos que protestam, o restante povo é ordeiro e submisso e feliz.

Parque das Estátuas, Budapeste.
foto: minha

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