O difícil é perceber o porquê de não gostar de matemática.
Sempre a atraiu o pensamento lógico, mas deixou-se encaminhar para outras atracções, mas ironicamente a matemática estava por lá.
Pensava amiúde:
nenhum estudante de filosofia é um bom exemplar da reflexão, se, entretanto, não desenvolver o pensamento lógico; nenhum curso de filosofia vale a pena se não nos ampliar tal tipo de raciocínio; afinal a lógica é matemática poderosa para a vida.
Mas o obstáculo instalou-se, afinal sobressaia o esplendor do vocabulário ambíguo e subjectivo, aquele tipo de vocabulário que se coaduna com todo o tipo de desvario com assentimento intelectual.
O atributo alegrete veio de todos os sentidos e o objectivo: ensinar a pensar, reduziu-se a meia dúzia de textos fundamentais, tentando fazer a ponte entre coisa nenhuma.
Teimava com os pares: nunca o ensino da filosofia foi tão pertinente e tão incompreendido.
Após alguns anos de reflexão chegou à conclusão que o falhanço do objectivo fundamental da filosofia centrou-se, apenas, na sua cristalização em história da filosofia.
Explicitamente a função era clara, implicitamente dúbia.
Afinal, como ensinar Kant, partindo do pressuposto de que se é capaz de explicar o implícito (história da filosofia), não fazendo a mínima atenção ao explícito (lógica argumentativa)?
Ensinar a pensar é ensinar a perceber, contextualizar, raciocinar, analisar, sintetizar, e construir um pensamento.
Nunca como agora, após o advento da tecnologia e do saber especializado, se chegou a conclusões tão perenes. E a verdade nunca foi tão posta em causa, a história recente de qualquer disciplina é a prova cabal.
O mais interessante é que já Descartes dizia que a única certeza residia na geometria, tudo o resto deveria ser posto em causa. Porquê? Todo o ser humano que se dedique a um determinado estudo chega a uma determinada conclusão acerca de alguma coisa.
O pressuposto da filosofia em Descartes é duvidar para chegar a algum lado, mas para duvidar precisamos de conhecer. Conhecer como? Se não abordarmos a disciplina numa perspectiva histórica?
Acontece que abordar uma disciplina numa perspectiva histórica não é contar a história da carochinha, é acima de tudo compreender para se fazer apreender. Ora compreender para se fazer apreender, pressupõe, para além da perspectiva histórica, um entendimento da razão de ser das coisas. E é através da razão de ser do implícito, isto é Kant afirma X porque até ali se tinha afirmado Y, que se chega ao explícito, a lógica dos argumentos.
Os seres humanos importunam-se muito pouco com reflexões do género: mito da caverna, embora o mesmo possua cada vez mais actualidade. O advento da sociedade de consumo desenfreado, sem questionamento da necessidade, levanta cada vez mais a pertinência da questão.
Entretanto um sorriso instala-se nos lábios, a memória apresentou-lhe um filme a preto e branco.
Interior, sala de aula
O professor catedrático de lógica explica a proposição X no quadro, vira-se procurando assentimento e compreensão por parte dos alunos, na carteira da frente depara-se com uma aluna olhando espantada para a fórmula escrita no quadro, o professor, reage ao ar espantado da rapariga, ironizando:
- Minha Senhora, a Senhora parece a Alice no país das maravilhas.
Foi a partir dessa altura que começou a dar razão a quem afigurava a matemática como disciplina elementar para compreender a vida, mas, de uma maneira muito simples.
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