quinta-feira, novembro 15, 2007

Receitas de Leitura II

DOSE DE AMOSTRA

Na família Diogo cada vez mais se desenhava diferença de atitude em relação a Carnaval da Vitória. Os dois miúdos tratavam o porco como membro da família. Limpavam o cocó dele, davam-lhe banho e, todos os dias, passavam nas traseiras do hotel a recolher dos contentores pitéus variados com que o bicho se jibóiava.
O suíno estava culto, quase protocolar. Maneirava vénias de obséquio com o focinho e aprendera a acenar com a pata direita, além de se pôr de papo para o ar à mínima cócega que um dos miúdos lhe oferecesse na barriga.
Pai Diogo aferia o porco de maneira diferente. Para ele era tudo carne, peso, contabilidade no orçamento familiar. Indisposto de engolir o peixe frito, os olhos dele bombardeavam direito no porco para um balanço da engorda: «Estás-te a aburguesar mas vais ver o que te espera», e com a mão no pescoço mostrava-se aos filhos na forma de como se corta uma goela, «faca! é o fim de todos os burgueses!».


Manuel Rui, (2007), Quem me dera ser onda, Lisboa, Caminho.

Composição
Quem me dera ser Onda de Manuel Rui é uma novela em torno da existência urbana de uma família em Angola pululante de episódios rocambolescos. Pai, mãe, dois filhos e um porco partilham o sétimo andar do apartamento, mau grado a oposição dos vizinhos.

Indicações
Este livro está indicado para quem gosta de viajar no tempo e no espaço. Recomenda-se no caso de indivíduos com gosto pela fantasia, por prosas coloridas, por metáforas e que sejam atreitos à sedução das leituras que não se esgotam numa primeira vez. É muito bem tolerado por quem tem apreço pelas letras de expressão portuguesa com o calor dos trópicos e a cor da paisagem africana, ainda que urbana.

Precauções
Não se recomenda a indivíduos sem capacidade de dar umas boas risadas ou que tenham alicerces demasiados profundos em quotidianos sombrios e realidades lineares desprovidas de imaginação, humor e sátira. Está desaconselhado para amantes de romances longos. Podem verificar-se pontualmente episódios de ansiedade. Caso comecem a ocorrer sonhos frequentes com o Carnaval da Vitória ou pensamentos inquietantes sobre o seu destino, a leitura deve ser descontinuada imediatamente.

Posologia
Recomenda-se a leitura diária de algumas páginas não se conhecendo efeitos de sobredosagem. Desconhecem-se efeitos secundários de uma segunda ou terceira leitura.

Outras apresentações
Caso tenham sido observadas melhorias com a leitura de Quem me dera ser Onda recomenda-se a incursão em Estórias de Conversa do mesmo autor e em Os da minha Rua de Ondjaki.

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quarta-feira, outubro 17, 2007

Receitas de Leitura


Dose de Amostra

O telefone despertou-me numa fria manhã de Junho. Sentei-me na cama. A luz, lá fora, inerte e alheia, morria numa lenta gradação de cinzentos. Era triste como uma fotografia antiga. Naquela posição, sem precisar de mover a cabeça, sem precisar sequer de mover os olhos, eu via os barcos levitando na baía. Luanda em Junho pode ser uma cidade muito triste. Reconheci a voz, do outro lado, mas não me conseguia lembrar a quem pertencia.
- Aconteceu de novo...
- Quem fala?
O gritar das cigarras. Uma funda e escura alameda de acácias rubras. Fechei os olhos e voltei a ver os troncos cobertos pelas cascas das cigarras. Quando era criança achava que fossem fantasmas de cigarras. Não sabia ainda que as cigarras mudam de pele (ou de corpo) vezes sem conta. Fiz um esforço para afastar o sono. Preferia estender-me na cama e adormecer de novo. Tenho sonhos tristes. Às vezes choro enquanto durmo. Só choro, aliás, enquanto durmo. Todavia a luz, lá fora, era ainda mais triste do que as sombras dos meus sonhos mais tristes.

José Eduardo Agualusa (2006), Passageiros em Trânsito, Dom Quixote

Composição
Passageiros em Trânsito é composto por vinte e dois contos do escritor angolano José Eduardo Agualusa, anteriormente publicados na revista do Público e agora compilados num só volume. A composição recente data de 2006. A aventura, o fantástico e a inquietude de outras latitudes são os princípios activos de base, embora outros componentes presentes contenham a procura incessante de quem somos afinal nesta travessia e alguma nostalgia encerrada no verbo partir.

Indicações
Passageiros em Trânsito está particularmente indicado para quem gosta de viajar, sente o apelo da partida e tem curiosidade acerca de paragens distantes. Também indicado para quem aprecia uma boa prosa, simples e despretensiosa, mas carregada de significado e alguma mística que espreita aqui e ali.

Contra-indicações
Não deve ser lido por indivíduos com obsessão pela segurança do aconchego do lar, cheios de certezas, desprovidos de fantasia e com tendência para a aversão a relatos ficcionais e estórias com laivos de exotismo, algumas peripécias e palavras cheias de calor e cor. O carácter breve e conciso dos contos está contra-indicado nos amantes de romances longos e densos.

Precauções
Indivíduos sugestionáveis com tendência para imergirem nas personagens devem evitar a leitura de Passageiros em Trânsito. Podem ocorrer ataques ligeiros de ansiedade de partida e excitabilidade. Verificaram-se casos raros de taquicardia e alucinações. Caso os leitores sintam uma coceira no estômago, a curiosidade a crescer dentro de si ou a procura involuntária do passaporte ou da mala de viagem devem descontinuar a leitura imediatamente. Se os sintomas persistirem, mude de leitura ou corre o risco de acordar no outro lado do Atlântico.

Posologia
Passageiros em Trânsito deve ser lido em doses pequenas, ao ritmo de um conto por dia para melhores resultados e fazer jus ao tempo diferente e ritmado das latitudes em que decorre a acção. Se se sentir tentado a rumar pela leitura dentro pode ler dois ou mais. Não são conhecidos efeitos de sobredosagem. É muito bem tolerado por indivíduos imaginativos e de alma errante.

Outras apresentações
Se se deu bem com a leitura de Passageiros em Trânsito deve continuar a ler mais livros do autor como Um Estranho em Goa ou O Vendedor de Passados. Como complemento estão indicados outros relatos de viagens alicerçados na realidade de carácter não ficcional como Sul de Miguel Sousa Tavares. Recomenda-se a leitura de Mia Couto, com especial incidência no mais recente romance do escritor moçambicano O Outro Pé da Sereia.

Inspirado aqui

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