sexta-feira, março 20, 2009

um lugar bonito...

Pelo caminho, passo por duas meninas nos seus 10anos e um adulto que seria o pai de uma delas. Não sei o contexto da conversa, mas então falavam de um sítio muito bonito, com árvores...

- Assim como Tróia? - pergunta uma das miúdas.
- Ãh... sim, mais ou menos como Tróia... - acede o adulto.
- Mas sem prédios e sem hoteis - interrompe a outra criança - só com pouquinhas casas pequeninas.

Repito que não sei do que falavam, mas admirei a perspicácia das crianças: uma por reconhecer Tróia como um lugar bonito, outra por lhe apontar o crescimento urbano.

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quinta-feira, outubro 16, 2008

Somos Traídos pela Nossa Própria Percepção e Experiência

"Vemos muito bem que as coisas não se alojam em nós com a sua forma e essência, e não penetram em nós pela sua própria força e autoridade; porque, se assim fosse, recebê-las-íamos do mesmo modo: o vinho seria o mesmo na boca do doente e na boca do homem são. Quem tem os dedos gretados, ou que os tem entorpecidos, encontraria na lança ou na espada que maneja uma rigidez semelhante à que o outro encontra. Os objetos externos rendem-se então à nossa mercê; alojam-se em nós como nos apraz. Ora, se da nossa parte recebêssemos alguma coisa sem alteração, se as faculdades humanas fossem bastante capazes e firmes para apreender a verdade pelos nossos próprios meios, esses meios sendo comuns a todos os homens, essa verdade se transmitiria de mão em mão de um para outro. E pelo menos se encontraria uma coisa no mundo, entre tantas que há, que seria acreditada pelos homens por um consenso universal. Mas o facto de não se ver proposição alguma que não seja debatida e controversa entre nós, ou que não o possa ser, mostra bem que o nosso julgamento natural não apreende muito claramente aquilo que apreende; pois o meu julgamento não pode fazer com que isso seja aceite pelo julgamento do meu companheiro, o que é um sinal de que o apreendi por algum outro meio que não um poder natural que exista em mim e em todos os homens. Além dessa diversidade e divisão infinitas, pela con­fusão que o nosso julgamento causa a nós mesmos e pela incerteza que todos sentem em si, é fácil ver que a posi­ção deste é bem pouco sólida. Quão diversamente não julgamos nós as coisas? Quantas vezes mudamos as nossas opiniões? O que hoje afirmo e acredito, afirmo-o e acredi­to-o com toda a minha convicção; todos os meus instrumen­tos e todos os meus recursos empunham essa opinião e ­respondem-me por ela em tudo que podem. Eu não poderia abraçar verdade alguma nem preservá-la com mais força do que faço com esta. Estou nela por inteiro, estou nela verdadeiramente; porém acaso não me ocorreu, não uma vez mas cem, mas mil, e todos os dias, de ter com es­ses mesmos instrumentos, nessa mesma condição, abraçado alguma outra coisa que depois julguei falsa? Precisa­mos pelo menos de nos tornar sábios à nossa própria custa.
Se amiúde me vi traído por essa aparência, se a minha pe­dra de toque costuma mostrar-se falsa e a minha balança parcial e injusta, que segurança posso ter nesta vez mais que nas outras? Não será tolice deixar-me enganar tantas vezes ­por um guia? No entanto, que a fortuna quinhentas vezes ­nos mude de lugar, que não faça mais que, como a um vaso, esvaziar e encher incessantemente a nossa crença com outras e outras opiniões, sempre a actual e mais recente é a certa e infalível. Por esta é preciso abandonar os bens, a honra, a vida e a salvação, e tudo, A última desgosta-nos das primeiras e desacredita-as no nosso espírito (Lucrécio)"
Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

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quarta-feira, dezembro 19, 2007

Onde é que eu já vi isto?

As palavras saltando do livro com magia intempestiva. Afinal encontro alguém estruturante. E, não resistindo à tentação, arranca das palavras mágicas e dactilografa-as com despudorado prazer. A técnica não é de todo para aqui chamada.

"Quando o ser humano pretende imitar a outrem, já não é ele mesmo. Assim também a imitação servil de outras culturas produz uma sociedade alienada ou sociedade-objecto. Quanto mais alguém quer ser outro, tanto menos é ele mesmo.
A sociedade alienada não tem consciência do seu próprio existir. (...). O ser alienado não olha para a realidade com critério pessoal, mas com olhos alheios. Por isso vive uma realidade imaginária e não a sua própria realidade objectiva. Vive através da visão de outro país. Vive-se Rússia ou Estados Unidos, mas não se vive Chile, Peru, Guatemala ou Argentina.
O ser alienado não procura um mundo autêntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro país e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade. Vive em outro país e trata de imitá-lo e se crê culto quanto menos nativo é. Diante de um estrangeiro tratará de esconder as populações marginais e mostrará bairros residenciais, porque pensa que as cidades mais cultas são as que têm edifícios mais altos. Como o pensar alienado não é autêntico, também não se traduz numa acção concreta.
É preciso partir de nossas possibilidades para sermos nós mesmos. O erro não está na imitação, mas na passividade com que se recebe a imitação ou na falta de análise ou de autocrítica.
Julga-se que os bolivianos ou panamenhos são preguiçosos, porque são bolivianos ou panamenhos. Por isso procura-se ser boliviano ou panamenho.
Acredita-se que ser grande é imitar os valores de outras nações. (...).
Outro exemplo de alienação é a preferência pelos técnicos estrangeiros em detrimento dos nacionais.
A sociedade alienada não se conhece a si mesma; é imatura, tem comportamento exemplarista, trata de conhecer a realidade por diagnósticos estrangeiros.
Os dirigentes solucionam os problemas com fórmulas que deram resultado no estrangeiro. Fazem importação de problemas e soluções. Não conhecem a realidade nativa.
Antes de admitir soluções estrangeiras, teria de se perguntar quais eram as condições e características que motivaram esses problemas. Porque o ano de 1966 da Rússia ou dos Estados Unidos não é o mesmo 1966 do Chile ou da Argentina. Somos contemporâneos no tempo, mas não na técnica.
Além do mais, os técnicos estrangeiros chegam com soluções fabulosas, sem um julgamento prévio, (...).
As soluções importadas devem ser reduzidas sociologicamente, isto é, estudadas e integradas (...). Devem ser criticadas e adaptadas; neste caso, a importação reinventada ou recriada. Isto já é desalienação, o que significa senão autovaloração.
Geralmente, as elites acusam o povo de fraqueza ou incapacidade e por isso suas soluções não dão resultado. Assim, as atitudes dos dirigentes oscilam entre um otimismo ingênuo ou um pessimismo ou desespero. É ingenuidade pensar que a simples importação de soluções salvará o povo. Isso se passa entre os candidatos que, por não conhecerem a fundo os problemas do poder, fazem mil promessas e ao chegar ao poder encontram mil obstáculos que, às vezes, os fazem cair no desânimo. Não se trata de desonestidade, mas de ingenuidade."

Sociedade Alienada in FREIRE, Paulo, Educação e Mudança, (2007). São Paulo: Paz e Terra. p. 35-36.


Questões pertinentes:

1 - Qual a família ideológica de Paulo Freire?
Esquerda. Defensor da educação popular. Responsável por ampla produção técnica na área da educação e prática de alfabetização. Conceitos-chave na sua obra: conscientização, consciência crítica, consciência ingénua, educação bancária, educação popular, empatia, compromisso, engajamento.

2 - A sua teoria educacional está ao serviço de que ideologia?
Esquerda, no sentido em que os valores da esquerda conduzem à valorização do ser humano e para a construção de uma sociedade fomentadora da igualdade de direitos e de oportunidades. Contudo, apesar de os seus conceitos se poderem conotar ideologicamente com a esquerda, e uma vez que a sua teoria educacional constroi os seus alicerces partindo da libertação do homem através da consciência crítica, diremos que países totalitários, sejam eles de direita ou de esquerda, olham para o seu conceito de educação como ideias perigosas.

3 - Outras questões:
- poderá a educação descomprometer-se da nossa ideia de homem e de sociedade?
- quem defende o mau estado geral de Portugal é tão só alienado? Ou realista?
- Portugal nunca poderá ultrapassar o seu fatalismo pois os seus nativos são pouco dados ao esforço e visão estruturante?
- os portugueses estão fadados à ignorância, menoridade intelectual, falta de civismo, educação?
- quando falamos de portugueses e Portugal estaremos a falar de nós ou dos outros?
- quando falamos mal de Portugal teremos uma ideia aprofundada de Portugal?
- devemos generalizar comportamentos, atitudes e valores?
- poderemos considerar os portugueses como seres alienados dado que cada vez são mais correntes expressões como: o chico esperto português, um país de corruptos, os políticos portugueses são todos uns corruptos, os médicos portugueses são x, os advogados portugueses são y, os professores são z, os formadores são p, etc, etc, etc.

4 - Para mim, é claro como a água o seguinte:
- enquanto não debatermos objectiva e honestamente estas questões não conseguiremos sair do mau-estar social a que chegámos.
- esse debate deverá ser aprofundado e arredado de preconceitos. O que pretendo dizer com preconceitos? ideias genéricas acerca de algo sem aprofundamento. Por exemplo: os portugueses são pouco generosos, logo somos um país com falta de civismo e solidariedade. Esse ideia quando confrontada com a opinião de um estrangeiro acerca de nós cai por terra, porquê? Seremos muito generosos para os estrangeiros e pouco generosos entre nós?
- com todo este artigo não se pretende ofender, provocar gratuitamente, defender uma ideia concreta acerca do ser português, deve ser apenas encarado como um tijolo para ajudar à reconstrução de um edifício em ruínas, é que está à beira de ser transformado numa pousada (elite? juventude?)*.


* - estará mesmo, Nancy? pelos vistos tu és das que não acreditas na mutabilidade da realidade. Ai essa consciência crítica, ai essa consciência crítica.

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quinta-feira, outubro 25, 2007

Kids

Criança de oito anos conversando com o seu gato.
- ´tás-te sempre a lamber, isso é p'ra estares apresentável p'rá tua miúda? 'Tá à vontade, eu compreendo. Ah, se quiseres podes sair à noite, eu fico-te com os miúdos e olha qu'eu sou confiável. Pensando nisso, queres levar um laçarote? Não gostas? Então? Um laçarote põe qualquer rapaz apresentável. Acho que deves pensar no assunto. Abraçando e beijando o gato. Ó minha coisinha fofa.

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sexta-feira, julho 13, 2007

Oito maneiras de responder a um funcionário

I - maneira sarcástica
Utente - Queria marcar duas consultas para o Dr. Paulo.
Funcionária do Centro de Saúde - Qual é o seu número?
Utente - Não tenho aqui.
Funcionária do Centro de Saúde - Então qual é o número?
Utente - Luís da Baviera
Funcionária do Centro de Saúde - Luísa da Baviera?
Utente - Não, Luís.
Funcionária do Centro de Saúde - 'Tá a ver? P'rá próxima não marco consulta nenhuma. ‘Tá a ouvir? ´Prá próxima não marco. Processo número XY450. Qual é o outro nome?
[Utente - Correia de Campos.]

II - maneira andas a ver muitos filmes americanos
[Utente sacando da Magnum e apontando à funcionária do centro de saúde - Are you sure?]

III - à espanhola
[Utente esbugalhando os olhos esbracejando e acrescentando levemente diplomático - Oye Iñaki, para que vamos a discutir si lo podemos resolver a hóstias?]

IV - à inglês aculturado
[Utente very polite e acrescentando - Oh, baby, how can I get a piece of ass?]

V - à Paulo Coelho
[Utente muito zen reformulando - 'Cê sabe, a vida é difícil p'ra todo, seu dia foi intenso, sua manhã lhe proporcionou momentos raros de concentração, mas 'cê tem d'aprender a lidar c'os outro, bem. Em primeiro lugar 'cê precisa de aprofundar leitura de minhas publicações literária, logo aí 'cê tem campo onde s'espraiar. 'Cê vai à praia, bem? Reveja sua infância auscultando onda de mar. A natureza, bem, a mãe natureza, lhe proporciona todas as resposta, e meditação, 'cê veja logo de seguida 'cê coloca todos esses filhos da mãe no saco. Depois 'cê até os pode jogar no rio. Ninguém vai buscar nada, bem.]

VI - à la teoria da conspiração
[Utente - Eu sabia que neste Centro de Saúde o fascismo imperava, é a lei da selva!, o director é da PIDE, daí que tenha gerado um centro concentracionário onde a regra, regra, regra é a maior virtude. Quem sair dela ‘tá “emmerdado”. E depois há um adjunto, o adjunto é político, sim, de certeza qu'é político, estão a ver a brigada do betão atrás? E o enfermeiro chefe? Qual é o partido do enfermeiro chefe? O enfermeiro chefe é da velha guarda, andou na corrupção além fronteiras, o seu livro de cabeceira devem ser as obras literárias do Cunhal. País de fascistas e comunistas e marialvistas. Tudo uma cambada de vendidos e filhos da michela. País maldito! Cigarreira é que é!]

VII - à popular arrivista
[Utente esbracejando cajado - Ó sua rameira, vossemecê sabe quem lhe paga o salário?]

VIII - à pós-moderno
[Utente - Desculpe, querida, hoje ‘tou assaz distraída com a minha individualidade, e estou com falta de vagar p’ra discussões idealistas.]

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terça-feira, julho 10, 2007

All Stars

Há dias uma amiga minha contou-me a conversa que se segue:
Adolescente - 'Tou cismada.
Mãe - Porquê?
Adolescente - Para os meus anos pedi umas All Stars, o meu pai foi comigo à loja e convenceu-me a comprar umas parecidas, as All Stars custam o dobro.
Mãe - E?
Adolescente - E? A Mariana tem umas All Stars eu quero umas All Stars, desde sábado que não paro de pensar nisto.
Mãe - Vamos lá ver, as All Stars quanto custam?
Adolescente - 56 euros.
Mãe - E as que trouxeste?
Adolescente - 24 euros.
Mãe - E são exactamente iguais às All Stars?
Adolescente - Sim, o formato é igual e são pretas como eu queria.
Mãe - Então?
Adolescente - Então? Não são All Stars e o dinheiro é meu, portanto eu deveria ter comprado umas All Stars e pronto.
Mãe - Tudo tem solução, se consideras mais importante a marca das sapatilhas que o dinheiro que elas custam, vais à loja e trocas de sapatilhas, não vejo qual é o problema. Contudo, se queres a minha opinião, parece-me um pouco exagerado comprares umas sapatilhas por 56 euros, quando poderias ter umas iguais por 24 eur, mas o dinheiro é teu e tens de aprender a gastá-lo.
Algumas horas depois
Adolescente - Tens razão, é uma estupidez estar a comprar umas sapatilhas que só são mais caras por serem de uma marca conhecida. E depois com a diferença posso comprar montanhas de t-shirts.

Diálogo final:
Nancy - Sorte a tua, a minha mãe nunca conseguiu argumentar convenientemente contra as Lois.
Amiga - E eu? Nem imaginas! Aliás, eu e a minha mãe temos feitios parecidos, ambas consideramos que a razão está sempre do nosso lado.
Nancy - Sabes, o que eu não percebo mesmo é porque é só consigo ter uma relação deveras amistosa com a minha progenitora.
Amiga - Quanto a mim algo vai bem no reino da maternidade.

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