quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Namoro

Passada a adolescência, a idade madura chegara. Que idade era aquela em que o corpo se tornava estranho? Que tempo era aquele em que escurecia o olhar? Que corpo era esse que se lhe impunha? As rugas faziam as primeiras aparições e no espelho aparecia reflectida não só a imagem do corpo mas a imagem da mente, quando o reconhecimento nos retratos se faz a custo - aquela, quem é?- e as feições se assemelham velozmente às dos antecessores Serei esta, eu? A revelação ficou péssima, desfocada, e a cor, a cor está esbatida. Está sujo, o espelho. Serei eu, aquela? E, no final da noite há muito adormecida, o espanto e surpresa perante o rosto cansado, desconhecido até aí, e a pergunta ressurge, aquela ali, sou eu? Não me pareço eu. Eu era outra. Comprara os primeiros cremes anti-rugas com colagéneo ou silicone e extractos de algas, elixires da juventude da era pós-moderna havia pouco tempo, desde que aquela outra ela, eu? lhe aparecera após uma noite de intemperança. O armário da casa de banho, que suportava o espelho com quem detinha conversas inaudíveis pautadas por silêncios longos e observações demoradas, engravidara-lhe repentinamente, uma gravidez prenha e rotunda. Frascos e boiões, bisnagas e latinhas: grandes, pequenos, esbranquiçados, de cores desmaiadas, a panaceia possível para a agonia inevitável do inconformado entardecer. Ao contemplar-se no espelho, julgava-se momentaneamente ausente de mais uma ruga. Serei esta, eu? Pareceu-me ver-me de repente, e auscultando criteriosamente rugas e linhas, aquela ali, eu? desejava secretamente que o colagéneo - quem sabe?- surtisse efeitos também na alma consumida e que as marcas do tempo, bom e mau, se apagassem ou reduzissem. Como as rugas. Mas naquele dia de invernia cinzenta -quem diria?- em que ele gentil lhe pediu namoro, namoro como ninguém nunca lhe fizera antes, ela regenerou-se, sem cremes, sem elixires. Penteou-se, o cabelo ajeitado por cima do ombro, sorriu-se-lhe, e aquela ali, quem é? e reconheceu o rosto que regressava devagar, devagarinho, cada vez mais nítido no espelho. Serei esta, eu? Era ela de novo.

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segunda-feira, outubro 29, 2007

O russo

Dois mil e sete. Ano da graça de dois mil e sete. Assim marcava o calendário lá de casa pendurado na parede da cozinha ao lado da porta e assim dizia um outro calendário no talho da aldeia onde se tinha ido aviar antes de ir buscar a Vanessa Marise à escola no aixam azul metalizado. Manel Francelino não se conformava. Ele era obras na estrada, ele era obras aqui e acolá. Uma ocasião a sua Vanessa Marise ia chegando atrasada e isso é que não podia ser que já se sabe a professora na perdoa, ai não não, mas aquilo era trânsito que começava logo ali na rotunda. Voltou a fazer contas. Ora então, pelas suas contas, essas mesmo que se desenhavam agora na sua cabeça, faltavam ainda uns anos. Nesta altura a santa estava ali perto, de resto, a santa nunca ia muito longe, mas ainda assim eram dezassete freguesias e, por conseguinte, só voltava dali a uns poucos de anos. Ainda não era já, o que piorava de sobremaneira o estado de confusão do Manel Francelino. Atão, se a senhora da Nazaré na bem este ano, pra qué aquilo? E o Manel Francelino era rapaz muito dado a saber quês e porquês, herdou-o por parte da mãe e do pai, já se sabe, herdou-o por parte da aldeia toda que, há uns anos, era tudo primos e primas e, tantos os primos como as primas, as tias e os tios, eram rapazes muito dados a saber os pormenores da vida alheia, com particular incidência na árvore genealógica do inquirido. O pior de tudo era se, por exemplo, lhe saltava ao caminho um apelido conhecido, Duarte ou Jesus. Ó pá, aquilo era uma máquina, um computador com uma velocidade de processamento de dados infalível Ah, já tou a beri! Bocê é filho do ti João do Paúl, que era irmão da Francelina da Chanca. Ah pois, Atão, esse tá casado com uma rapariga que é cunhada do primo do Chico da Amendoeira e essa rapariga tem uma prima que é cunhada da nha irmã… Ah pois claro. Como é que não vi isso antes? Quando chegou a casa, disse à Quina Francelino A Senhora da Nazaré bem este ano! A mulher sabia que o Manel Francelino não ia para novo, notava-se na dureza de ouvido evidente, julga-se que acentuada nos momentos em que a conversa não lhe convinha, mas daí até antecipar a vinda da santa à freguesia ia um passo de gigante. Bem o quê, Manel? Atão inda falta tantos anos! Mas tu na bês que eles andam a arranjar a estrada? É só obras. Só pode ser a santa. Quina Francelino encolheu os ombros, chamou pela Vanessa Marise na fosse a neta tar a namorari e voltou à lida dos patos e coelhos.
No dia seguinte, o Manel Francelino investiu. Na podia ser, atão, na podia ser, ele era a estrada com tapete novo, ele era os traços a serem pintados, os muros. Perguntou ao rapaz que estava lá entretido a mandar parar os carros, uma vida triste, a levar com os fumos dos escapes e agora vermelho, agora verde, levanta a tabuleta, vira a tabuleta, siga, siga. O homem foi peremptório na resposta. É o russo, ti Manel, é o russo que vem aí. Ah, disse o Manel Francelino O Ruço sobrinho da Ti Mari Ruça? Não, homem, o russo, o Putin! O Pinto? Na tou a ber, mas deve ser importante esse ruço. Pois, é importante é. Manel Francelino ficou desolado. Afinal havia alguém mais importante que a senhora da Nazaré, ainda por cima homem, ruço e não era o sobrinho da Ti Mari Ruça.

imagem: minha

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segunda-feira, outubro 15, 2007

Contemporaneidades

A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS.
A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem… A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa... A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é. E o amigo do marido da Maria filha da velha Então tu não lhe disseste que a tua mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai…
A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente… E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

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