sábado, maio 17, 2008

O pecado mora ao lado

O abutre é um animal desacreditado, mas se o olharmos de uma forma neutra, verificamos que, tal como qualquer espécie da cadeia alimentar, o bicho apenas precisa de se alimentar.

O desagrado humano em relação àquele animal é tão só porque se alimenta de carne em putrefacção, o que poderá entrar em conflito com certos rituais humanos: como o direito à não profanação de um cadáver. É, aliás, esta crença mítica, que impede muitos seres humanos de doarem os órgãos dos familiares falecidos precocemente, por exemplo.

Lamento profundamente a ignomínia a que votamos o pobre do abutre, pois afinal a causa da sua inglória reside em razões que o ultrapassam.

A injustiça do raciocínio anterior é, igualmente, a fórmula que poderemos usar quando lemos notícias como: “A revolução mais esperada”, a próxima revolução começa em Maio, Educação e Emprego, Saúde e Qualificação de Vida, Comunidades e Participação Cívica, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 29 e 30 de Maio de 2008, um Congresso Internacional, subjugado ao tema Inovação Social.

Afinal as empresas apenas estão a entrar em áreas às quais o estado mínimo pretende estar apenas como parceiro ou regulador do “mercado”, daí que as ONG’s comecem a substituir o estado em papéis que lhe eram tradicionais: o bem-estar social, e transformar o tal bem-estar social num mercado regulado e onde é atribuído o papel primordial à sociedade civil.

O único problema ético é o facto da pobreza e da miséria social serem transformadas numa oportunidade de negócio, por muito que as ONG’s venham invocar o incontornável “associação sem fins lucrativos”.

De repente, os males da sociedade serem transformados em alvos do mercado, do negócio e do investimento soa-me a sordidez, mas se calhar é apenas uma espécie de crença mítica que me impede de olhar para a questão com neutralidade, afinal, tal como o abutre, a razão de ser do mercado é a oportunidade do negócio e isso é algo que também o ultrapassa.

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quarta-feira, maio 14, 2008

Sinais

Quando um prémio Nobel, ex-funcionário do FMI, alerta para a influência catastrófica daquele organismo internacional em diversas economias, dando como exemplo paradigmático a Argentina, é bom que se lhe preste atenção, afinal Stiglitz pertenceu ao sistema.
Quando Vasco Graça Moura argumenta que o acordo ortográfico não assegura a unidade da língua portuguesa, é bom que se leiam outras fontes que corroboram este argumento e quando afirma: "Se Portugal vai precisar de muitos anos e de muitos milhões de euros para cumprir o acordo, entretanto, não deixará de haver grupos editoriais brasileiros que a grande velocidade lhe tomarão o lugar sem apelo nem agravo, uma vez que não têm de fazer absolutamente nada para se adaptar à situação!"* e aliar este argumento à criação de uma super editora em Portugal, por um lado, ou à compra da editora Guimarães por Paulo Teixeira Pinto**, por outro.
Quando assistimos à proliferação de notícias sobre crimes, violência doméstica, catástrofes naturais, futebol e/ou Fátima nos telejornais nacionais é caso para questionarmos a auto-estima dos responsáveis pelo noticiário?
Quando lemos as frases extraordinárias de Mira Amaral e do presidente do BES acerca da impertinência de Geldof, ficamos a perceber, afinal a ideologia ainda é o que era.
Quando ela se dirigiu à secção de poesia de uma grande editora/livraria ficou espantada, apenas meia dúzia de autores menores, uma grande edição e mais meia dúzia de obras notáveis. Espreitou despudoradamente para uma novidade, abriu o pequeno livro e deparou-se com as seguintes palavras:

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

PEIXOTO, José Luís (2008). Gaveta de Papéis. Lisboa: Quasi, p. 41

Saltou de contente, comprou o pequeno livro e os seguintes pensamentos conduziram-na até ao balcão da livraria, afinal, ela, uma rapariga tão comum, também tinha comportamentos de poeta.

*MOURA, Vasco Graça (2008). Acordo Ortográfico: A perspectiva do desastre. Lisboa: Aletheia, p. 16.
**Vasco Graça Moura é um dos 30 membros do futuro Conselho Editorial da Guimarães. Se não consigo imaginar Miguel Paes do Amaral a vender o seu acervo editorial ao melhor comprador brasileiro ou angolano, também não o consigo fazer em relação a PTP, são homens cujo valor pátria está pouco arreigado às investidas especulativas da globalização. Valha-nos isso!

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quinta-feira, novembro 08, 2007

educadamente...

Sentada no teatro do Batalha (Porto), assisto a (mais um) espectáculo de Tunas académicas. Estou junto à porta do fundo... Sinto um cheiro... Atrás de mim havia entrado gente a fumar...

- Olha, não podes fumar cá dentro?

- Ah, eu sei. - responde o rapaz educadamente.

Faço tenções de me virar para a frente e continuar a apreciar o espectáculo, mas reparo que o rapaz educado continua impávido e sereno atrás de mim de cigarro na mão...

- Podes, então, ir lá para fora?... - pergunto serena, contendo um: então que raio estás a fazer aqui dentro???!!!

- Ah... claro... - acede o moço, afastando-se educadamente, deixando, no entanto, transparecer um: estás a falar a sério?!... é só um cigarrinho!...


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terça-feira, outubro 16, 2007

ir ou não ir?...

Tenho, há largos meses, uma dúvida que me atormenta:

ir ou não ir ao Rivoli?...

Eu acredito que o espectáculo seja bom - ai dele, que não seja!!!... - não é isso que está em causa... Mas, então, e os meus princípios?!... Não me apetece apoiar o senhor que monopolizou um dos principais espaços de excelência cultural da cidade... Não me apetece, pronto!

E não percebo como tem mesmo havido público para tanta exibição?!!! Afinal quem é que tem ido ver aquilo?!... Ainda por cima no meio de tanta polémica... Onde está a cidade que se indignou com a saída dos funcionários e se solidarizou com os manifestantes?!...

Passou ontem um ano sobre o início da Rivolição...
Lembram-se?...

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Diário de Bordo

Aluna - Peço desculpa professor mas às terças à tarde vai-me ser muito difícil assistir às aulas.
Professor - Se só pode dar 10% de faltas, só pode faltar duas vezes, não poder vir nunca é demasiado.
Aluna - Sou professora contratada e quando cheguei à escola expus o meu caso ao Conselho Executivo mas disseram-me que não era possível mudar o horário.
Professor - Pois é, mas exponha o seu caso aos docentes das disciplinas deste curso, pode ser que possa fazer a cadeira em regime de tutoria.
Aluna - Vou ver o que posso fazer legalmente, posso usar os artigos, não posso abusar das faltas injustificadas, etc, vou ver quais são os meus direitos.
Professor - É não percebo porque é que os Conselhos Executivos não estão interessados em que os seus professores se actualizem.
Aluna - Já viu, há pessoas que não têm abertura nenhuma, vou ver o que posso fazer, senão tenho de desistir. Os meus direitos, tenho de salvaguardar os meus direitos.
Outra aluna - Colega, tem de compreender que os professores contratados chegam à escola em Setembro e estar a mudar os horários de todos os colegas é muito complicado.
Professor - Ah claro, mas de qualquer maneira...
Aluna - Vou ver o que posso fazer, contando com os meus direitos...

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sábado, junho 23, 2007

Vergonha

O post até tem estilo, está escrito com verve e as ideias estão bem organizadas. Mas eu tenho vergonha dele. Tenho vergonha que ele seja a narrativa de um facto e não fruto da imaginação do autor. Tenho vergonha daquele excesso de zelo, daquela alucinação de quem acha que as pessoas comuns têm computadores que se auto-formatam. Tenho vergonha de se ter apreendido uma tese de doutoramente por meio ano. Acima de tudo, tenho vergonha que os meus impostos sirvam para pagar horas extra àqueles funcionários públicos e tenho vergonha que o meu voto, independentemente da cor, sirva para legitimar um Estado e um sistema que trata assim os seus cidadãos.

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domingo, maio 27, 2007

como é possível???!!!...

Enquanto na RTP1 vão desfilando entrevistados na Festa do Futebol, na RTP2 está uma criança caída no Pavilhão de S. João da Madeira... Joga-se a final da Taça de Portugal... de Hóquei em Patins entre o Cambra e o Braga. A pouco mais de 3 min. do final da partida, uma criança caíu do varandim das bancadas para o interior do campo. Qualquer coisa como 2m de altura. O jogo parou de imediato e ambas as equipas médicas acudiram prontamente. Não parecia grave, pedia-se apenas uma maca para transportar a criança. A maca demorou 7 min. a entrar em campo! 7 min.!!! Como é possível???!!!... 15 min. depois a criança sai em maca transportada pelos bombeiros sob uma chuva de aplausos do pavilhão. Parece maior a precaução que a gravidade... Assim seja! Mas... 7 min. para entrar uma maca em campo???!!!

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quinta-feira, abril 12, 2007

aulas???... para quê?!

Ouço na Antena1 que foi aprovado o novo Estatuto do Aluno e, para além das habituais desconfianças e reclamações dos sindicatos de professores, ouvi algo que me deixou a falar sozinha para o rádio como que o questionando de tamanha enormidade. Ouvi eu então que o aluno deixa de chumbar por faltas directamente, sendo garantida a hipóteses de passar à disciplina por exame final!!!

Gente! Estamos a falar do Básico e Secundário!!! E numa altura em que até o Ensino Superior está a procurar valorizar a avaliação contínua, vamos agora permitir que o aluno do Básico faça as disciplinas por exame final, sem ir às aulas, simplesmente porque não lhe apetece???!!! Vamos lá assentar umas ideias: o aluno já "tem direito" a faltar de forma injustificada três vezes o número de horas semanais da disciplina (e reforce-se que as faltas justificadas não entram nesta contabilização). Portanto, estamos a permitir a substituição da sala de aula por um exame final, simplesmente, porque sim!

As linhas orientadoras deste novo documento são:
combater o insucesso e o abandono
reforçando a autoridade dos professores e das escolas.

É bonito, lá isso é! Mas analisemos duas situações:

- O aluno não sabe, nem quer saber - que me parece ser claramente o mais frequente em situações de reprovações por faltas. Não é um exame final sobre a aquilo que ele não sabe nem quer saber que o vai "salvar". Não se combate nem o insucesso, nem abandono, porque o aluno vai chumbar na mesma - desculpem-me a frontalidade...

- O aluno já sabe tanto que não precisa das aulas - no campo das hipóteses há que considerar todos os casos. Aqui, estamos a dispensar, descaradamente, a importância das aulas e do papel do professor, e a transformar a Escola num mero local de prestação de provas. Aqui, destrói-se toda e qualquer autoridade dos professores e da escola...

Alguém me explica qual é a ideia?... É que eu, não aplaudindo a postura da Ministra, tenho compreendido muitas das medidas que ela tem inventado, ou pelo menos tenho reconhecido os aspectos positivos as ideias no plano teórico. Mas aqui, nem isso... Alguém me explica?...

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quarta-feira, abril 04, 2007

não consigo gostar desta mulher...

Não consigo gostar desta mulher... Li o «Não há coincidências» e sobrevivi. Uma leitura levezinha para descansar a mente. Desde que tomado com moderação, para não cair no entorpecimento, não me pareceu muito mau... Até lhe achei uma certa piada. Ouvi-lhe duas ou três entrevistas e... desvaneceu-se o encanto de imediato. Não consigo gostar desta mulher. Fala com uma arrogância e sobranceria que me incomodam. Tendo em conta que nem tinha desgostado do tal livro, fui-lhe dando algumas oportunidades. Mas não! Definitivamente, não consigo gostar desta mulher.

Hoje no «Sociedade Civil» da RTP2 o tema era «porque é que nos apaixonamos pelas pessoas erradas?». Apanhei a coisa já a meio e falava, na altura, com alguma autoridade, uma psicóloga. Deixei ficar. Qual não é o meu espanto quando fala de seguida Margarida Rebelo Pinto... Perdi logo toda a vontade de ver o programa. Mas como ainda estava a almoçar, e as alternativas não eram do meu agrado, tentei - eu juro que sim! - dar-lhe mais uma hipótese... Mas não! Continua com manias de altivez e ares de senhora da razão. Simplesmente, não consigo gostar desta mulher!

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domingo, março 11, 2007

11 de Março de 2004 - Madrid

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segunda-feira, janeiro 29, 2007

geração espontânea

Nos cinzentos, despidos e inóspitos Aliados, nasceram agora timidamente quatro bancos (ainda não presentes na foto ao lado). No meio da praça deserta lá estão, dois voltados para cima e dois voltados para baixo, mantendo cada um a zua zona de influência bem espaçada, à espera de clientes.

O Rio saberá disto? É que ainda por cima os rebentos são verdes! Qualquer dia ainda vêm abaixo por serem tomados por qualquer erva daninha contaminadora do belo vazio cinzento...

Para já, está assim uma coisa um bocado para o esquisita, pois estão demasiado isolados no meio do vazio, mas pode ser que com o passar do tempo eles se reproduzam, se organizem e deixem a praça mais compostinha.

foto de Carlos Romão (A Cidade Surpreendente)

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