terça-feira, dezembro 04, 2007

Sublime

Uma das característcias mais sublimes da máquina de propaganda do governo de Sócrates é que é a ele, e só a ele, cabe anunciar as medidas positivas: é ele que entrega os computadores, é ele anuncia os aumentos quando são acima da inflação, é ele que visita as escolas de sucesso, é ele que anuncia um investimento, por mais ínfimo que seja, de uma empresa estrangeira no país, é ele que aparece a dizer que Portugal ficou uma décima acima das previsões de uma qualquer organização internacional. Quando se passa o contrário, e são bastas vezes que isso sucede, lá vem o ministro da tutela, o secretário de Estado ou um assessor de um subsecretário de Estado comunicar, em pezinhos de lã, que as coisas não correram tão bem como seria de esperar. Hoje calhou a sorte à Secretária de Estado dos Tranportes, que toda a gente sabe que é a Drª Ana Paulo Vitorino, vir anunciar que no próximo ano o aumento dos transportes será superior ao valor da inflação. A senhora lá fez o seu trabalho de manter intacta a posição do chefe, e diga-se em abono da verdade, nem é assim um escândalo tão grande tendo em conta o aumento absurdo do preço do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis. Mas diga lá, caro leitor, se não gostava de ver, uma vez sem exemplo que fosse e só para deleite do espírito, o nosso primeiro, meio gago como é seu apanágio quando as coisas não lhe saem bem, dizer que afinal aquela estrada que estava prometida já era?

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Diário de Bordo

Aluna - Peço desculpa professor mas às terças à tarde vai-me ser muito difícil assistir às aulas.
Professor - Se só pode dar 10% de faltas, só pode faltar duas vezes, não poder vir nunca é demasiado.
Aluna - Sou professora contratada e quando cheguei à escola expus o meu caso ao Conselho Executivo mas disseram-me que não era possível mudar o horário.
Professor - Pois é, mas exponha o seu caso aos docentes das disciplinas deste curso, pode ser que possa fazer a cadeira em regime de tutoria.
Aluna - Vou ver o que posso fazer legalmente, posso usar os artigos, não posso abusar das faltas injustificadas, etc, vou ver quais são os meus direitos.
Professor - É não percebo porque é que os Conselhos Executivos não estão interessados em que os seus professores se actualizem.
Aluna - Já viu, há pessoas que não têm abertura nenhuma, vou ver o que posso fazer, senão tenho de desistir. Os meus direitos, tenho de salvaguardar os meus direitos.
Outra aluna - Colega, tem de compreender que os professores contratados chegam à escola em Setembro e estar a mudar os horários de todos os colegas é muito complicado.
Professor - Ah claro, mas de qualquer maneira...
Aluna - Vou ver o que posso fazer, contando com os meus direitos...

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terça-feira, maio 01, 2007

Intimidades

A leitura é um acto íntimo. Pode ler-se um jornal ou um livro num comboio ou num avião, pode ler-se uma mensagem para quatrocentos participantes de um congresso e pode ler-se uma passagem inteira de um livro numa aula que a leitura, a verdadeira leitura, aquela que fazemos para nos sintonizar com o texto, descodificá-lo é sempre um acto íntimo. E solitário, acrescento. Apenas conseguimos ler «em conjunto» quando, e desculpem-me a expressão muy Nicholas Sparks, dois são um.

Convém frisar, no entanto, que existem formas de representar o texto (teatro, música, declamação, …) que tiram à leitura o cunho predominantemente privado. Por mais paradoxal que possa parecer, isto acontece porque reconhecemos a quem o interpreta a capacidade de o tornar privado. Um actor prepara um texto, representa-o para dezenas de pessoas, mas consegue, pelo menos para grande parte, tocar em cada um dos assistentes. De forma diferente e pessoal.

Posto isto, passemos ao âmago da questão. Tenho lido entrevistas de escritores que afirmam solenemente que gostam mais de ler do que de escrever. Para além disso, os conselhos que costumam dar aos novos escritores é para que leiam muito. De preferência livros deles. Confio que todos eles têm milhares de páginas lidas, analisadas, comentadas. Contudo, desconfio que nenhum deles, perdão, que alguns deles ainda não explicaram a quem promove o lançamento dos seus trabalhos que a leitura de um texto é um acto íntimo, com as excepções aclaradas no parágrafo dois deste arrazoado. As leituras nos lançamentos dos livros. É isso que me traz aqui hoje.

Há cerca de dois meses, fui novamente a um lançamento de um romance. Primeiro, o convidado para a apresentação da novela diz as impressões que a leitura do livro lhe proporcionou. Nestas, estão geralmente incluídas as palavras “ruptura”, “excelência” ou “matiz”. Depois a assistência, por regra meia dúzia de gatos-pingados, no lote dos quais com muito gosto me incluo, faz umas perguntinhas ao autor. O autor cumpre: balbucia umas coisas, tenta responder a perguntas sobre o compadrio na edição e na crítica literárias em Portugal (em lançamento que se preze, são questões sagradas) ou imagina uma forma de disfarçar o olhar atónito quando lhe perguntam se a matriarca do livro, uma senhora de oitenta anos, não é um alter-ego ou, quiçá, um heterónimo dele. Ele, um rapaz de trinta e sete (esta foi verdadeira).

E no final, acontece aquilo que nunca deveria acontecer: o autor lê uma parte do livro. Então, toda a curiosidade que possa ter sido despertada até aqui, é docemente adormecida quando o autor ainda vai a meio do capítulo que se propôs a ler. Em minha opinião, aquilo é – não poupemos nas palavras – uma enorme maçada e um infinito tédio para todos: autor, convidados, assistência. Mas será que ninguém entende, no meio editorial, o enfado que esta parte de um lançamento representa? Além do mais, se um escritor não conseguir ler de uma forma entusiasmante para cada uma das sensibilidades presentes na assistência, o que é uma tarefa hercúlea, sublinhe-se, pode ocultar a qualidade que o texto possa ter.
A sério, não é assim tão difícil: um escritor escreve livros, os leitores lêem livros. E tanto a escrita como a leitura são actos íntimos. Consequentemente, agradece-se que libertem os lançamentos das sessões de leitura.

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quinta-feira, abril 12, 2007

aulas???... para quê?!

Ouço na Antena1 que foi aprovado o novo Estatuto do Aluno e, para além das habituais desconfianças e reclamações dos sindicatos de professores, ouvi algo que me deixou a falar sozinha para o rádio como que o questionando de tamanha enormidade. Ouvi eu então que o aluno deixa de chumbar por faltas directamente, sendo garantida a hipóteses de passar à disciplina por exame final!!!

Gente! Estamos a falar do Básico e Secundário!!! E numa altura em que até o Ensino Superior está a procurar valorizar a avaliação contínua, vamos agora permitir que o aluno do Básico faça as disciplinas por exame final, sem ir às aulas, simplesmente porque não lhe apetece???!!! Vamos lá assentar umas ideias: o aluno já "tem direito" a faltar de forma injustificada três vezes o número de horas semanais da disciplina (e reforce-se que as faltas justificadas não entram nesta contabilização). Portanto, estamos a permitir a substituição da sala de aula por um exame final, simplesmente, porque sim!

As linhas orientadoras deste novo documento são:
combater o insucesso e o abandono
reforçando a autoridade dos professores e das escolas.

É bonito, lá isso é! Mas analisemos duas situações:

- O aluno não sabe, nem quer saber - que me parece ser claramente o mais frequente em situações de reprovações por faltas. Não é um exame final sobre a aquilo que ele não sabe nem quer saber que o vai "salvar". Não se combate nem o insucesso, nem abandono, porque o aluno vai chumbar na mesma - desculpem-me a frontalidade...

- O aluno já sabe tanto que não precisa das aulas - no campo das hipóteses há que considerar todos os casos. Aqui, estamos a dispensar, descaradamente, a importância das aulas e do papel do professor, e a transformar a Escola num mero local de prestação de provas. Aqui, destrói-se toda e qualquer autoridade dos professores e da escola...

Alguém me explica qual é a ideia?... É que eu, não aplaudindo a postura da Ministra, tenho compreendido muitas das medidas que ela tem inventado, ou pelo menos tenho reconhecido os aspectos positivos as ideias no plano teórico. Mas aqui, nem isso... Alguém me explica?...

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terça-feira, abril 10, 2007

Percursos académicos “de certa maneira exemplares”

Terminar uma licenciatura com mais de 40 anos de idade, a um domingo, numa universidade privada que vai ser encerrada, após um dúbio processo de equivalências, e depois de uma desgastante vida profissional (partidária) em que nunca teve tempo para acabar a licenciatura. Pobrezinho! Tenho mesmo muita pena dele. Muita!

Tirar uma pós-graduação em engenharia sanitária numa universidade pública (Escola de Saúde Pública – UNL) ainda sem ter concluído uma licenciatura; e frequentar um Mestrado em Gestão no ISCTE e dizer que se tem MBA. Realmente… não é mesmo para qualquer um! É só para gente muito "especial".

O senhor ministro do ensino superior é capaz de ter alguma razão: o percurso académico do primeiro-ministro «é um caso de certa maneira exemplar» e «devia encher de orgulho e regozijo» o país. Bem… talvez “regozijo” não seja a expressão mais adequada. “Risota” é capaz de ser uma asserção mais ajustada.

PS. Aproveito para deixar aqui os meus sinceros parabéns ao António Balbino Caldeira, pela sua persistência, e pelo excelente trabalho de pesquisa que vem realizando.

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