segunda-feira, abril 30, 2007

as the sparrow

















Foto: Hooks K

To give life you must take life,
and as our grief falls flat and hollow
upon the billion-blooded sea
I pass upon serious inward-breaking shoals rimmed
with white-legged, white-bellied rotting creatures
lengthily dead and rioting against surrounding scenes.
Dear child, I only did to you what the sparrow
did to you; I am old when it is fashionable to be
young; I cry when it is fashionable to laugh.
I hated you when it would have taken less courage
to love.


Charles Bukowski in The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Black Sparrow Books, Boston, 1983, pág. 18

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Claridade (e escuridão)

Neste Mês da Poesia, que está a terminar, tenho-me lembrado muito da minha professora de Português do ciclo. Todas as semanas, ou, pelo menos, semana sim, semana não, parte do sumário era «Produção de um texto escrito». E isto consistia em, a partir de um tema, de uma forma ou de uma leitura construirmos nós um pequeno texto, sendo que o privilegiado era, de longe, o texto poético. Fazíamos pequenas quadras, ou variações de uma estrutura; às vezes saíam coisas interessantes, outras vezes nem por isso; às vezes dava gosto, outras vezes, confesso, enfado. Quando se conseguia, de facto, escrever alguma coisinha de jeito, dava gosto; mas havia alturas em que passava os 10 minutos a juntar duas palavras – e mal! Admiro a criatividade e a perseverança do escritor. Muito raramente escrevo um texto à primeira e o escrever e voltar a escrever sem se chegar a lugar algum consegue ser bastante frustrante... Aqueles momentos de produção poética no 5º e 6º ano foram bons exercícios – que eventualmente até tinham bons resultados...

Lembro-me, uma vez, de termos feito, um poema a partir de uma leitura, procurando como que explorar-lhe o outro lado. Lembro-me que o meu falava do escuro e de uma rapariga num cesto de verga... Busco os cadernos, à procura... Achei! «Escuridão». Falta agora achar o original, que não sei de quem é, mas lembro-me que fala do branco, da luz e de uma rapariga a estender roupa... Busco o manual do 6º.ano... Achei! «Claridade» de Miguel Torga. E, num momento de narcisismo, aqui fica mais um (dois!) poema que me diz alguma coisa, de alguma forma, a fechar a minha contribuição poética do Mês.


Claridade

Clareou
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pouso tudo num telhado...
(Eu, destas grades, a ver,
desconfiado).

Depois, uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante,
estendeu roupa num cordel:
Roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...

E não foi preciso mais:
Logo a alma
clareou por sua vez.
Logo o coração parado
bateu a grande pancada
da vida com sol e pombas
e roupa branca, lavada.

Miguel Torga
.......................................................



Escuridão

Escureceu
Passaram bichos ao luar
com vontade de sonhar
que nos seus ninhos foram pousar
(E eu do meu quarto
a olhar).

Depois,
uma rapariga negra
(era negra como a noite)
deitou-se num cesto de verga.
Pobre rapariga, não tem casa,
não tem lar
(e eu do meu quarto
a olhar).

A minha alma ficou preta
(preta como carvão)
ao ver a rapariga negra
a dormir quase no chão...
.....................................................


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domingo, abril 29, 2007

E tu, sabias?

LISBOA

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade, in Lisboa com seus Poetas, Dom Quixote.

foto: minha

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sexta-feira, abril 27, 2007

Somos Diferentes


Somos diferentes, Coração sem par!
Nós, e os fins a que estamos destinados.
Os anjos que nos guardam, admirados
Se fitam, quando cruzam a voar.

Tu costumas palácios frequentar,
Onde vês, do teu canto fascinados,
Brilhar mil olhos, mais iluminados
Do que os meus, mesmo em pranto a transbordar.

Porque vens escutar, na escuridão,
A pobre, triste e pálida canção,
Que eu canto, pelo mundo a vaguear?

A tua fronte em bálsamo está ungida;
A minha, pelo orvalho humedecida.
Só a Morte nos pode nivelar.

BROWNING, Elizabeth Barrett, Sonetos Portugueses, Lisboa, Relógio d'Água, sd, p.17

Elizabeth B. Browning, poetisa inglesa, nasceu em 1806 e faleceu em 1861.
De saúde débil viveu, durante 7 anos, em regime de reclusão.
Aos quarenta anos de idade conheceu o poeta Robert Browning, com o qual se casou e com quem foi viver para Itália, local onde morreu a 30 de Junho de 1861.
"Conta-se que, um dia, já depois de casados, Elizabeth entrou no gabinete do marido com um maço de papéis na mão, e, pousando-o na sua mesa de trabalho, disse «lê isto», e retirou apressadamente. Robert leu o que ela tinha deixado. Em 44 lindíssimos sonetos, escritos desde a data do seu primeiro encontro até àquele dia. (...)
Maravilhado, Robert pediu a Elizabeth que publicasse aqueles sonetos. Ela recusou, por não querer tornar públicos os seus sentimentos mais íntimos. Robert, então, lembrou dar-lhes um título que indicasse tratar-se de traduções, por exemplo, «Sonetos Traduzidos do Bósnio». Elizabeth acabou por aceitar a sugestão; mas, achando certa semelhança entre os seus sonetos e os de Camões - julgo que pela análise delicada do sentimento amoroso -, preferiu chamar-lhes «Sonnets from the Portuguese» (...). Imprimiram-se com esse título, e sem nome de autor, em 1847; só depois da morte de Elizabeth foram publicados, com o seu nome, pelo marido. São, talvez, os melhores sonetos de amor de toda a literatura inglesa."

Manuel Corrêa de Barros in Introdução, Idem, p.8-9
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quinta-feira, abril 26, 2007

O que se diz ao editor a propósito de poemas


A José OlímPio e Daniel

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado.

Terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do dactilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.

João Cabral de Melo Neto
Vários, Poesia Brasileira do Século XX dos Modernistas à actualidade, Selecção, Introdução e Notas Jorge Henrique Bastos, Lisboa, Antígona, 2002, p. 126

"Nascido em Recife, em 1920, foi diplomata toda a vida, tendo trabalhado em diversos pontos do mundo, incluindo Portugal, onde se reformou da diplomacia. Estreou-se em 1942 com A Pedra do Sono, livro de espessura surrealista, marca que depois abandonou, tornando-se um acérrimo defensor da concisão imagética, do verso racional, equilibrado nas oito sílabas que caracterizam a maioria dos seus poemas (...). João Cabral de Melo Neto faleceu em Outubro de 1999."
Idem

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quarta-feira, abril 25, 2007

HOMENAGEM AOS LIVROS PEQUENOS E A ALGUNS MENOS

Livros pequenos onde se concentra
a vida das palavras que é o eco
de vozes vivas povoando as cenas
de cada hora contra o céu batendo
livros que dizem coisas tão
diversas do mundo e as prendem
aos olhos de quem espera
não a ígnea
visão que é a que nasce
afinal na passagem de olhar para dizer
mas só a escala mortal
da vida livros
pequenos coração do dia,
cantata, o grito claro, a noite vertebrada
e alguns livros grandes
a colher na
boca, toda a terra, cenas
vivas
livros grandes perfeitos como se
fossem pequenos

Gastão Cruz; "Homenagem aos livros pequenos e a alguns menos", O som do mundo, in Repercussão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, pág 24

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Camões

Verdes são os campos,
De cor do limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes;
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gado, que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não o entendeis:
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Camões, Luís de, Poesia Lírica, Lisboa, Dom Quixote, 2003, p.80-81

Camões é o meu poeta preferido. Falo Universalmente. Camões deu-nos o seu talento e ainda nos enalteceu e celebrou.
Camões é um dos meus grandes amores, que fazer? Celebrá-lo!, principalmente num dia em que se enaltece a liberdade.
Não há ninguém que simbolize de forma tão gritante a própria poesia e o que é a poesia? A suprema liberdade: a da criação.
Descansa em paz, meu guerreiro!

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Canções de Abril: Somos Livres!

Das canções de Abril, esta [somoslivres.mp3] era a minha preferida:

Somos livres! (uma gaivota voava voava)

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.
Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
“quando for grande
não vou combater”.
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

Letra e música: Ermelinda Duarte

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terça-feira, abril 24, 2007

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.

Sophia de Mello Breyner Andersen, Memória divida - Poesia de antes e de depois do 25 de Abril, Coordenação de Francisco José Viegas, Selecção de Pedro Mexia

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POEMA PIAL


Toda a gente que tem as mãos frias

Deve metê-las dentro das pias.


Pia número UM

Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,

Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,

Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,

Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,

Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,

Para quem se penteia com bolos-reis

Pia número SETE,

Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,

Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,

Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,

Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,

Tampa nas pias!

Fernando Pessoa


poema e imagem retirados daqui

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segunda-feira, abril 23, 2007

O Mostrengo (Fernando Pessoa)

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, "Mensagem"

"Aprendemos" Fernando Pessoa no Secundário. É um nome incontornável quando falamos da nossa poesia. Não achei que eu o fosse trazer aqui à Festa, por saber que, garantidamente, alguém o faria, e por não me considerar suficientemente conhecedora da sua obra para o ter como convidado. No entanto, pensando eu em poemas que me dizem alguma coisa, de alguma forma, lembrei-me do «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME e roda nas trevas do fim do mundo, MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME, de El-Rei D. João Segundo»... E, apesar de Pessoa já ter passado por cá com mais autoridade, partilho convosco um texto do poeta, não tanto pelo conteúdo em si, mas pela leitura declamativa que dele apetece fazer...

Sabia este poema de cor e lembro-me, perfeitamente de o declamar, feita parva, alto e em bom som, em frente aos espelhos cá da casa, armada em artista. Acho que é um poema que se presta a isso... Desde logo a "voz" do mostrengo sai-me qualquer coisa mais grave e forte e a do homem do leme tremendo soa, de facto, pequenina e sumida. Mas o auge da minha "declamação artística" vinha com a última estrofe, que pede naturalmente um crescendo em volume e em velocidade. E, depois de uma pequena pausa, sai um sentido «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME», seguido de um menos forte e mais rápido «e roda nas trevas do fim do mundo» como preparação para o clímax absoluto, o auge dos auges da profundidade de sentimento que transparece na força da voz, «MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME», que fecha com um conclusivo e, então, já seguro «de El-Rei D. João Segundo».

É um poema para se ler em voz alta!

Quanto ao conteúdo, propriamente dito, ainda que não seja isso que aqui me traga, não posso deixar de fazer uma pequena referência à vontade, à força, ao enfrentar de uma pequenez generalizada... Eu sei que o leme pode não ser seguro e que o mostrengo pode ser assustador... Sei também que estas metáforas podem ser demasiado idealistas, sei que a realidade é dura e tudo isso, mas – que raio! – podemos acreditar um bocadinho mais, sem nos estarmos sempre a queixar; podemo-nos, por momentos, orgulhar de alguma coisa sem estarmos sempre a dizer mal... Podemos, pois podemos?...

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domingo, abril 22, 2007

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

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EXPLICAÇÃO DA ETERNIDADE

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgávamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
e idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luis Peixoto; "Explicação da eternidade", O Amor É a Solidão, in A casa a Escuridão, Temas e Debates, 2002, pág 66

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A Rainha de Kachmir (Serenata de Hilário)

O vestido de noivado
da rainha de Kachmir
era a diamantes bordado,
como luar num terrado!...
Parecia o Céu estrelado,
ou a visão de um faquir,
o vestido de noivado
da rainha de Kachmir.

Se é a Via Láctea, em suma,
não há olhar que destrince!...
Nenhuma vista, nenhuma
jurará se é neve ou pluma,
se é leite, ou astro, ou espuma,
nem o próprio olhar do Lince...
Se é a Via Láctea, em suma,
não há olhar que destrince!

Levava, nas mãos patrícias,
leque de rendas e sândalo...
Oh! que mãozinhas... delícias
para amimar com blandícias,
para beijar com carícias
,que adorariam um Vândalo...
Levava, nas mãos patrícias,
leque de rendas e sândalo.

Cor da lua, os sapatinhos
eram mais subtis que o leque!...
Seu manto, púrpura e arminhos,
não rojava nos caminhos,
pois sua cauda, aos saltinhos,
levava-a um núbio muleque.
Cor da lua, os sapatinhos
eram mais subtis que o leque!

Eis que, no meio da boda,
entrou um moço estrangeiro...
Calou-se a alegria doida
da grande assembleia, em roda!
E a brilhante sala toda
fitou o jovem romeiro.
Eis que, no meio da boda,
entrou um moço estrangeiro...

Pegou no copo, com graça,
e brindou, em língua estranha...
E a rainha, a vista baça,
como a um punhal que a trespassa,
encheu de prantos a taça,
e o seu lenço de Bretanha...
Chorou baixinho, ao ouvir, com graça,
esse brinde, em língua estranha!

Encheu de pranto o vestido,
encheu de pranto os anéis...
E, sem soltar um gemido,
chorou, num pranto sumido,
o seu passado perdido,
os seus amores tão fiéis!...
Encheu de pranto o vestido,
encheu de pranto os anéis.

Quem era o moço viajante
Que fez turbar a rainha?...
Era o seu primeiro amante,
tão leal e tão constante,
que, do seu reino distante,
brindar ao Passado vinha...
Tal era o moço viajante,
que fez turbar a rainha.

Saudades de amor quebrado
fazem lágrimas cair!
Por um brinde ao amor passado,
ficou de pranto alagado
o vestido de noivado
da rainha de Kachmir.
Saudades de amor quebrado
fazem lágrimas cair!...

Gomes Leal
(1848-1921)
Poema retirado daqui

"A Rainha de Kachmir" encontra-se, por exemplo, no "Primeiro Livro de Poesia" organizado por Sophia de Mello Breyner Andresen.
Este poema de Gomes Leal é, da colectânea referida, um dos meus preferidos.
Para além da viagem ao mundo encantado das Rainhas e dos Reis é, igualmente, uma viagem a um tema bem português: a saudade, para além de outro com raízes pátrias bem profundas: os amores proibidos.

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sexta-feira, abril 20, 2007

O dos Castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa (1888-1935)
8-12-1928
De Mensagem, 1934

Século de Ouro
Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX
Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra
Braga, Coimbra, Lisboa
Ed. Angelus Novus & Cotovia
2002
p. 247

Não foi o acaso que me fez escolher este poema de Fernando Pessoa. Não dedico ao poeta dos heterónimos a atenção do Carlos, uma vez que há alguns poemas que gosto muito e outros que nem por isso. Contudo, Pessoa é inegavelmente um dos grandes nomes da poesia em língua portuguesa.
Em tempos cuja palavra pátria reaparece em pensamentos regressivos; em tempos em que a Europa é um continente mergulhado em ambiguidades; em tempos em que a crença no futuro sobrevém esculpida em fenómenos populistas; este poema de Pessoa faz todo o sentido.

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quinta-feira, abril 19, 2007

senhor da asma















Imagem: Stephen Alcorn, Marcel Proust, v.2


deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se apercebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão

mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível – aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e sedução

mas nada é perfeito – nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido

e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

ando há uma semana arrumando livros – comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma

por hoje é tudo


Al Berto in “HORTO DE INCÊNDIO", Assírio & Alvim, 2000, p.32-33

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A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen

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Libera Me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem.

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Carlos Queirós
(1907-1949)
Andrade, Eugénio de, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Porto, Campo das Letras, 2000, p.436


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quarta-feira, abril 18, 2007

Quatro Quartetos

«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que não foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
(...)»
T.S. Elliot - Quatro Quartetos
T. S. Elliot nasceu a 26 de Setembro de 1888, no Missouri, EUA. Ainda jovem, estabelece-se na Europa (Paris, alguns anos, e Londres). Em 1917, seis anos depois de concluir o doutoramento em Filosofia, em Harvard, publica a auspiciosa estreia «Prufrock e Outras Observações». Em 1922, sai o seu poema mais conhecido: The Waste Land (A Terra Devastada). O reconhecimento do génio, se ainda restassem dúvidas, acontece com o livro «Quatro Quartetos», publicado em 1943. Em 1948, vence o Prémio Nobel da Literatura. Morre em Londres aos 76 anos.

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GREEN GOD

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.


Eugénio de Andrade in “AS MÃOS E OS FRUTOS", Ed. Quasi, 2006, p.34

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