terça-feira, abril 26, 2011

José Sócrates cita Pessoa para afastar pessimismo‎

Aproveitanto a deixa do PM, fica aqui outra citação interessante de Fernando Pessoa:

Dos sonhadores de ideais – socialistas, altruístas, humanitários de toda a espécie – tenho náusea física, do estômago. São os idealistas sem ideal. São os pensadores sem pensamento. Querem a superfície da vida por uma fatalidade de lixo, que bóia à tona de água e se julga belo, porque as conchas dispersas bóiam à tona de água também.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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sexta-feira, setembro 04, 2009

Desassossegos


Dos sonhadores de ideais – socialistas, altruístas, humanitários de toda a espécie – tenho náusea física, do estômago. São os idealistas sem ideal. São os pensadores sem pensamento. Querem a superfície da vida por uma fatalidade de lixo, que bóia à tona de água e se julga belo, porque as conchas dispersas bóiam à tona de água também.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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segunda-feira, janeiro 19, 2009

It's all over now: write Eddy is no more

Celebra-se hoje o bicentenário do nascimento de um dos meus escritores favoritos, e um dos mais influentes da História de toda a Literatura Universal, Edgar Allan Poe. Para recordar o seu génio excepcional, remeto-vos para um dos seus mais famosos poemas, The Raven, numa tradução de Fernando Pessoa, e para esta homenagem (musicada) a uma das suas obras-primas, a short story, The Murders in the Rue Morgue, que aproveito para dedicar aos meus companheiros de blogue que também partilham comigo deste gosto algo inusitado pelo som mais "duro".

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sábado, junho 28, 2008

Desassossegos

«O Governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quanto muito, e isso é outra coisa».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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sexta-feira, junho 13, 2008

Desassossegos

Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles. Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação me estorvou a sequência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pormenores e pormaiores

Quanto mais leio poesia do século XX, mais me certifico que no mundo não houve poeta melhor do que Pessoa. Para além da escrita, há algo nele com que me identifico. Já pensei que fosse o misticismo, o que é pouco provável por causa do meu ateísmo a religiões e misticismos; a atitude anglófila era possível, mas não acho que gostar de uma mesma cultura seja suficiente para gerar uma tão grande aproximação. E ainda cheguei admitir como hipótese o patriotismo, mas o quotidiano rapidamente me fez desistir da ideia. Até que um dia, sem esperar (estas coisas aparecem sempre quando estamos a escolher a marca de azeite que devemos comprar) encontrei aquilo que procurava: identifico-me com Pessoa porque ele era um tipo igual a nós. De manhã atendia uns telefonemas, à tarde fazia a escrita da empresa e, ao fim do dia, depois de passar pela taberna, escrevia. Pessoa não era mais do que um blogger. Isto é, um tipo igual a mim: de dia escritório, à noite escrita. Porém com duas pequenas diferenças: eu não passo pelo café ao fim do dia e Pessoa, à noite, escrevia coisas como esta:
«Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.»
ao passo que eu escrevo coisas como a que acabaram de ler. Enfim, pormenores.

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quarta-feira, junho 13, 2007

Trazes a rosa na mão

Chamam-te boa, e o sentido
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quanto muito, alcunha.


Fernando Pessoa, Trazes a rosa na mão, in Quadras Populares, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999, pág 43

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domingo, maio 06, 2007

Continuar a bater na mesma tecla

Quanto mais leio poesia do século XX, mais me certifico que no mundo não houve poeta melhor do que Pessoa. Para além da escrita, há algo nele com que me identifico. Já pensei que fosse o misticismo, o que é pouco provável por causa do meu ateísmo a religiões e misticismos; a atitude anglófila era possível, mas não acho que gostar de uma mesma cultura seja suficiente para gerar uma tão grande aproximação. E ainda cheguei admitir como hipótese o patriotismo, mas o quotidiano rapidamente me fez desistir da ideia. Até que um dia, sem esperar (estas coisas aparecem sempre quando estamos a escolher a marca de azeite que devemos comprar) encontrei aquilo que procurava: identifico-me com Pessoa porque ele era um tipo igual a nós. De manhã atendia uns telefonemas, à tarde fazia a escrita da empresa e, ao fim do dia, depois de passar pela taberna, escrevia. Pessoa não era mais do que um blogger. Isto é, um tipo igual a mim: de dia escritório, à noite escrita. Porém com duas pequenas diferenças: eu não passo pelo café ao fim do dia e Pessoa, à noite, escrevia coisas como esta:
«Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.»
ao passo que eu escrevo coisas como a que acabaram de ler. Enfim, pormenores.

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segunda-feira, abril 23, 2007

O Mostrengo (Fernando Pessoa)

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, "Mensagem"

"Aprendemos" Fernando Pessoa no Secundário. É um nome incontornável quando falamos da nossa poesia. Não achei que eu o fosse trazer aqui à Festa, por saber que, garantidamente, alguém o faria, e por não me considerar suficientemente conhecedora da sua obra para o ter como convidado. No entanto, pensando eu em poemas que me dizem alguma coisa, de alguma forma, lembrei-me do «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME e roda nas trevas do fim do mundo, MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME, de El-Rei D. João Segundo»... E, apesar de Pessoa já ter passado por cá com mais autoridade, partilho convosco um texto do poeta, não tanto pelo conteúdo em si, mas pela leitura declamativa que dele apetece fazer...

Sabia este poema de cor e lembro-me, perfeitamente de o declamar, feita parva, alto e em bom som, em frente aos espelhos cá da casa, armada em artista. Acho que é um poema que se presta a isso... Desde logo a "voz" do mostrengo sai-me qualquer coisa mais grave e forte e a do homem do leme tremendo soa, de facto, pequenina e sumida. Mas o auge da minha "declamação artística" vinha com a última estrofe, que pede naturalmente um crescendo em volume e em velocidade. E, depois de uma pequena pausa, sai um sentido «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME», seguido de um menos forte e mais rápido «e roda nas trevas do fim do mundo» como preparação para o clímax absoluto, o auge dos auges da profundidade de sentimento que transparece na força da voz, «MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME», que fecha com um conclusivo e, então, já seguro «de El-Rei D. João Segundo».

É um poema para se ler em voz alta!

Quanto ao conteúdo, propriamente dito, ainda que não seja isso que aqui me traga, não posso deixar de fazer uma pequena referência à vontade, à força, ao enfrentar de uma pequenez generalizada... Eu sei que o leme pode não ser seguro e que o mostrengo pode ser assustador... Sei também que estas metáforas podem ser demasiado idealistas, sei que a realidade é dura e tudo isso, mas – que raio! – podemos acreditar um bocadinho mais, sem nos estarmos sempre a queixar; podemo-nos, por momentos, orgulhar de alguma coisa sem estarmos sempre a dizer mal... Podemos, pois podemos?...

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sábado, abril 21, 2007

Desassossegos

«O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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Desassossegos

«O Governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quanto muito, e isso é outra coisa».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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domingo, abril 15, 2007

Desassossegos

«Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.»

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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quarta-feira, abril 04, 2007

Poema em linha recta





















Fotografia: Andrzej Dragan



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Álvaro de Campos

Poesia de Fernando Pessoa”, Editorial Presença, 2006, p. 193

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quinta-feira, março 08, 2007

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

«não é fácil a muita gente passar para lá do "ruído", da "violência" que caracterizam o rock dito pesado. Da mesma forma que, não é fácil perceber quão profundos são alguns dos temas abordados. Até porque aqui entramos no campo dos sentimentos limite, o que por si só repele muito boa gente. É o caso do Amor incondicional, ou mesmo do Desejo puro por exemplo. Uma coisa é certa, ou se gosta de Metal, ou se odeia. Não há meio-termo possível. Quem um dia se apaixonou pelo género, não mais consegue livrar-se dessa paixão. Agarra-se ao ser. Faz parte integrante de quem somos»

Excerto de um comentário que a Su (ex-pontapé na tónica) teve a amabilidade de deixar neste post. Apesar do comentário ter sido combinado, é sempre agradável saber que na blogosfera há "outros seres singulares como nós". Só por isso, dedico-lhe outra das minhas “baladas” preferidas:

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domingo, setembro 17, 2006

Desassossegos

«Se alguma coisa odeio, é um Reformador. Um Reformador é um homem que vê os males superficiais do mundo e se propõe curá-los agravando os fundamentais».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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quarta-feira, junho 28, 2006

DESASSOSSEGOS

«Pertenço a uma geração - ou antes a uma parte de geração - que perdeu todo o respeito pelo passado e toda a crença ou esperança no futuro. Vivemos por isso do presente com a gana e fome de quem não tem outra casa. E, como é nas nossas sensações, e sobretudo nos nossos sonhos, sensações inúteis apenas, que encontramos um presente, que não lembra nem o passado nem o futuro, sorrimos à nossa vida interior e desinteressamo-nos com uma sonolência altiva da realidade quantitativa das coisas».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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quarta-feira, novembro 30, 2005

Desassossegos




















«A experiência directa é o subterfúgio, ou o esconderijo, daqueles que são desprovidos de imaginação. Lendo os riscos que correu o caçador de tigres tenho quanto de riscos valeu a pena ter, salvo o do mesmo risco, que tanto não valeu a pena ter, que passou.»

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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quinta-feira, novembro 17, 2005

Desassossegos

«Quando nasceu a geração a que pertenço encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro , e ao mesmo tempo coração. [...] Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político. [...] Uma sociedade assim indisciplinada nos seus fundamentos culturais não podia, evidentemente, ser senão vítima, na política, dessa indisciplina; e assim foi que acordámos para um mundo ávido de novidades sociais, e com alegria ia à conquista de uma liberdade que não sabia o que era, de um progresso que nunca definira.»

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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sábado, novembro 05, 2005

Desassossegos

Que D.Sebastião venha pelo nevoeiro não desdiz a história. Toda a história vai e vem entre névoas, e as maiores batalhas de que se narram, as maiores pompas, os mais largos consentimentos não são mais que espectáculos na bruma, cortejos na distância do crepúsculo e do apagamento.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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sexta-feira, novembro 04, 2005

Desassossegos

Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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