sábado, março 21, 2009

Poemas bomba















O terrorista – ele observa

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são treze e dezasseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar,
outros para sair.

O terrorista atravessa a rua.
A distância salvaguarda-o do perigo
e pode observa tudo como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo – ela entra.
Um homem de óculos escuros – ele sai.
Jovens de jeans – eles conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
O mais baixo – está com sorte, sobe para uma scooter,
mas o mais alto – ele entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma rapariga com uma fita verde no cabelo.
De repente, fica oculta por um autocarro.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Terá sido estúpida a ponto de entrar, ou não?
Logo se vê, quando retirarem os corpos.

Treze e dezanove.
Parece que mais ninguém quer entrar.
Em contrapartida sai um careca obeso.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e quando faltam dez segundos para as treze e vinte -
ele volta a entrar por se ter esquecido de umas reles luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como demora a passar.
Está na hora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba – ela explode.

Wisława Szymborska


in «Wielka liezba»

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sábado, junho 28, 2008

Faroeste


Alguém se lembrou de dar seis tirinhos para ar nas imediações de um local de onde o "nosso" primeiro-ministro tinha acabado de sair. Consta que três dos tais tirinhos acertaram no pavilhão. A Governadora Civil de Faro, Isilda Gomes, acredita que se tratou de uma mera brincadeira de mau gosto. O Presidente da Câmara de Portimão, Manuel da Luz, desvalorizou o incidente, atribuindo-o a indivíduos que costumam disparar contra placas de sinalização. A polícia confirma o incidente mas não sabe quem foi. José Sócrates não se apercebeu de nada porque tinha saído há 20 minutos e já se encontrava a 20 kms do local [média de 60 Kms/Hora]. Tudo normal [excepto a velocidade média da viatura do primeiro-ministro].

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Desassossegos

«O Governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quanto muito, e isso é outra coisa».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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sexta-feira, junho 13, 2008

Desassossegos

Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles. Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação me estorvou a sequência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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