segunda-feira, abril 23, 2007

O Mostrengo (Fernando Pessoa)

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, "Mensagem"

"Aprendemos" Fernando Pessoa no Secundário. É um nome incontornável quando falamos da nossa poesia. Não achei que eu o fosse trazer aqui à Festa, por saber que, garantidamente, alguém o faria, e por não me considerar suficientemente conhecedora da sua obra para o ter como convidado. No entanto, pensando eu em poemas que me dizem alguma coisa, de alguma forma, lembrei-me do «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME e roda nas trevas do fim do mundo, MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME, de El-Rei D. João Segundo»... E, apesar de Pessoa já ter passado por cá com mais autoridade, partilho convosco um texto do poeta, não tanto pelo conteúdo em si, mas pela leitura declamativa que dele apetece fazer...

Sabia este poema de cor e lembro-me, perfeitamente de o declamar, feita parva, alto e em bom som, em frente aos espelhos cá da casa, armada em artista. Acho que é um poema que se presta a isso... Desde logo a "voz" do mostrengo sai-me qualquer coisa mais grave e forte e a do homem do leme tremendo soa, de facto, pequenina e sumida. Mas o auge da minha "declamação artística" vinha com a última estrofe, que pede naturalmente um crescendo em volume e em velocidade. E, depois de uma pequena pausa, sai um sentido «E MAIS QUE O MOSTRENGO QUE MINHA ALMA TEME», seguido de um menos forte e mais rápido «e roda nas trevas do fim do mundo» como preparação para o clímax absoluto, o auge dos auges da profundidade de sentimento que transparece na força da voz, «MANDA A VONTADE, QUE ME ATA AO LEME», que fecha com um conclusivo e, então, já seguro «de El-Rei D. João Segundo».

É um poema para se ler em voz alta!

Quanto ao conteúdo, propriamente dito, ainda que não seja isso que aqui me traga, não posso deixar de fazer uma pequena referência à vontade, à força, ao enfrentar de uma pequenez generalizada... Eu sei que o leme pode não ser seguro e que o mostrengo pode ser assustador... Sei também que estas metáforas podem ser demasiado idealistas, sei que a realidade é dura e tudo isso, mas – que raio! – podemos acreditar um bocadinho mais, sem nos estarmos sempre a queixar; podemo-nos, por momentos, orgulhar de alguma coisa sem estarmos sempre a dizer mal... Podemos, pois podemos?...

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domingo, abril 22, 2007

A Rainha de Kachmir (Serenata de Hilário)

O vestido de noivado
da rainha de Kachmir
era a diamantes bordado,
como luar num terrado!...
Parecia o Céu estrelado,
ou a visão de um faquir,
o vestido de noivado
da rainha de Kachmir.

Se é a Via Láctea, em suma,
não há olhar que destrince!...
Nenhuma vista, nenhuma
jurará se é neve ou pluma,
se é leite, ou astro, ou espuma,
nem o próprio olhar do Lince...
Se é a Via Láctea, em suma,
não há olhar que destrince!

Levava, nas mãos patrícias,
leque de rendas e sândalo...
Oh! que mãozinhas... delícias
para amimar com blandícias,
para beijar com carícias
,que adorariam um Vândalo...
Levava, nas mãos patrícias,
leque de rendas e sândalo.

Cor da lua, os sapatinhos
eram mais subtis que o leque!...
Seu manto, púrpura e arminhos,
não rojava nos caminhos,
pois sua cauda, aos saltinhos,
levava-a um núbio muleque.
Cor da lua, os sapatinhos
eram mais subtis que o leque!

Eis que, no meio da boda,
entrou um moço estrangeiro...
Calou-se a alegria doida
da grande assembleia, em roda!
E a brilhante sala toda
fitou o jovem romeiro.
Eis que, no meio da boda,
entrou um moço estrangeiro...

Pegou no copo, com graça,
e brindou, em língua estranha...
E a rainha, a vista baça,
como a um punhal que a trespassa,
encheu de prantos a taça,
e o seu lenço de Bretanha...
Chorou baixinho, ao ouvir, com graça,
esse brinde, em língua estranha!

Encheu de pranto o vestido,
encheu de pranto os anéis...
E, sem soltar um gemido,
chorou, num pranto sumido,
o seu passado perdido,
os seus amores tão fiéis!...
Encheu de pranto o vestido,
encheu de pranto os anéis.

Quem era o moço viajante
Que fez turbar a rainha?...
Era o seu primeiro amante,
tão leal e tão constante,
que, do seu reino distante,
brindar ao Passado vinha...
Tal era o moço viajante,
que fez turbar a rainha.

Saudades de amor quebrado
fazem lágrimas cair!
Por um brinde ao amor passado,
ficou de pranto alagado
o vestido de noivado
da rainha de Kachmir.
Saudades de amor quebrado
fazem lágrimas cair!...

Gomes Leal
(1848-1921)
Poema retirado daqui

"A Rainha de Kachmir" encontra-se, por exemplo, no "Primeiro Livro de Poesia" organizado por Sophia de Mello Breyner Andresen.
Este poema de Gomes Leal é, da colectânea referida, um dos meus preferidos.
Para além da viagem ao mundo encantado das Rainhas e dos Reis é, igualmente, uma viagem a um tema bem português: a saudade, para além de outro com raízes pátrias bem profundas: os amores proibidos.

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