Intimidades
A leitura é um acto íntimo. Pode ler-se um jornal ou um livro num comboio ou num avião, pode ler-se uma mensagem para quatrocentos participantes de um congresso e pode ler-se uma passagem inteira de um livro numa aula que a leitura, a verdadeira leitura, aquela que fazemos para nos sintonizar com o texto, descodificá-lo é sempre um acto íntimo. E solitário, acrescento. Apenas conseguimos ler «em conjunto» quando, e desculpem-me a expressão muy Nicholas Sparks, dois são um.
Convém frisar, no entanto, que existem formas de representar o texto (teatro, música, declamação, …) que tiram à leitura o cunho predominantemente privado. Por mais paradoxal que possa parecer, isto acontece porque reconhecemos a quem o interpreta a capacidade de o tornar privado. Um actor prepara um texto, representa-o para dezenas de pessoas, mas consegue, pelo menos para grande parte, tocar em cada um dos assistentes. De forma diferente e pessoal.
Posto isto, passemos ao âmago da questão. Tenho lido entrevistas de escritores que afirmam solenemente que gostam mais de ler do que de escrever. Para além disso, os conselhos que costumam dar aos novos escritores é para que leiam muito. De preferência livros deles. Confio que todos eles têm milhares de páginas lidas, analisadas, comentadas. Contudo, desconfio que nenhum deles, perdão, que alguns deles ainda não explicaram a quem promove o lançamento dos seus trabalhos que a leitura de um texto é um acto íntimo, com as excepções aclaradas no parágrafo dois deste arrazoado. As leituras nos lançamentos dos livros. É isso que me traz aqui hoje.
Há cerca de dois meses, fui novamente a um lançamento de um romance. Primeiro, o convidado para a apresentação da novela diz as impressões que a leitura do livro lhe proporcionou. Nestas, estão geralmente incluídas as palavras “ruptura”, “excelência” ou “matiz”. Depois a assistência, por regra meia dúzia de gatos-pingados, no lote dos quais com muito gosto me incluo, faz umas perguntinhas ao autor. O autor cumpre: balbucia umas coisas, tenta responder a perguntas sobre o compadrio na edição e na crítica literárias em Portugal (em lançamento que se preze, são questões sagradas) ou imagina uma forma de disfarçar o olhar atónito quando lhe perguntam se a matriarca do livro, uma senhora de oitenta anos, não é um alter-ego ou, quiçá, um heterónimo dele. Ele, um rapaz de trinta e sete (esta foi verdadeira).
E no final, acontece aquilo que nunca deveria acontecer: o autor lê uma parte do livro. Então, toda a curiosidade que possa ter sido despertada até aqui, é docemente adormecida quando o autor ainda vai a meio do capítulo que se propôs a ler. Em minha opinião, aquilo é – não poupemos nas palavras – uma enorme maçada e um infinito tédio para todos: autor, convidados, assistência. Mas será que ninguém entende, no meio editorial, o enfado que esta parte de um lançamento representa? Além do mais, se um escritor não conseguir ler de uma forma entusiasmante para cada uma das sensibilidades presentes na assistência, o que é uma tarefa hercúlea, sublinhe-se, pode ocultar a qualidade que o texto possa ter.
Convém frisar, no entanto, que existem formas de representar o texto (teatro, música, declamação, …) que tiram à leitura o cunho predominantemente privado. Por mais paradoxal que possa parecer, isto acontece porque reconhecemos a quem o interpreta a capacidade de o tornar privado. Um actor prepara um texto, representa-o para dezenas de pessoas, mas consegue, pelo menos para grande parte, tocar em cada um dos assistentes. De forma diferente e pessoal.
Posto isto, passemos ao âmago da questão. Tenho lido entrevistas de escritores que afirmam solenemente que gostam mais de ler do que de escrever. Para além disso, os conselhos que costumam dar aos novos escritores é para que leiam muito. De preferência livros deles. Confio que todos eles têm milhares de páginas lidas, analisadas, comentadas. Contudo, desconfio que nenhum deles, perdão, que alguns deles ainda não explicaram a quem promove o lançamento dos seus trabalhos que a leitura de um texto é um acto íntimo, com as excepções aclaradas no parágrafo dois deste arrazoado. As leituras nos lançamentos dos livros. É isso que me traz aqui hoje.
Há cerca de dois meses, fui novamente a um lançamento de um romance. Primeiro, o convidado para a apresentação da novela diz as impressões que a leitura do livro lhe proporcionou. Nestas, estão geralmente incluídas as palavras “ruptura”, “excelência” ou “matiz”. Depois a assistência, por regra meia dúzia de gatos-pingados, no lote dos quais com muito gosto me incluo, faz umas perguntinhas ao autor. O autor cumpre: balbucia umas coisas, tenta responder a perguntas sobre o compadrio na edição e na crítica literárias em Portugal (em lançamento que se preze, são questões sagradas) ou imagina uma forma de disfarçar o olhar atónito quando lhe perguntam se a matriarca do livro, uma senhora de oitenta anos, não é um alter-ego ou, quiçá, um heterónimo dele. Ele, um rapaz de trinta e sete (esta foi verdadeira).
E no final, acontece aquilo que nunca deveria acontecer: o autor lê uma parte do livro. Então, toda a curiosidade que possa ter sido despertada até aqui, é docemente adormecida quando o autor ainda vai a meio do capítulo que se propôs a ler. Em minha opinião, aquilo é – não poupemos nas palavras – uma enorme maçada e um infinito tédio para todos: autor, convidados, assistência. Mas será que ninguém entende, no meio editorial, o enfado que esta parte de um lançamento representa? Além do mais, se um escritor não conseguir ler de uma forma entusiasmante para cada uma das sensibilidades presentes na assistência, o que é uma tarefa hercúlea, sublinhe-se, pode ocultar a qualidade que o texto possa ter.
A sério, não é assim tão difícil: um escritor escreve livros, os leitores lêem livros. E tanto a escrita como a leitura são actos íntimos. Consequentemente, agradece-se que libertem os lançamentos das sessões de leitura.
Etiquetas: Apostar na qualificação dos Portugueses, Coisas que correm mal, Ler

4 Comments:
Parabéns pela reflexão! Gosto particularmente de um escritor escreve livros, os leitores lêem livros.. Os encontros com escritores são muitas vezes um bocejo e, pior, uma grande desilusão. Os escritores que escrevam e os leitores que leiam.
Beijos e bom feriado
E mai' nada.
Beijocas
Eu só concordo em parte. Gosto imenso de ouvir ler em voz alta, tal como tb gosto de o fazer. Concordo só qdo o escritor é um mau leitor.
Nancy,acho que tocaste num ponto essencial: gostar de ouvir/não gostar de ouvir ler em voz alta. O meu post teria ficado mais completo se me tivesse lembrado desse «pormaior» ;)
Beijocas
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