Males que vêm por bem
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O abutre é um animal desacreditado, mas se o olharmos de uma forma neutra, verificamos que, tal como qualquer espécie da cadeia alimentar, o bicho apenas precisa de se alimentar.
O desagrado humano em relação àquele animal é tão só porque se alimenta de carne em putrefacção, o que poderá entrar em conflito com certos rituais humanos: como o direito à não profanação de um cadáver. É, aliás, esta crença mítica, que impede muitos seres humanos de doarem os órgãos dos familiares falecidos precocemente, por exemplo.
Lamento profundamente a ignomínia a que votamos o pobre do abutre, pois afinal a causa da sua inglória reside em razões que o ultrapassam.
A injustiça do raciocínio anterior é, igualmente, a fórmula que poderemos usar quando lemos notícias como: “A revolução mais esperada”, a próxima revolução começa em Maio, Educação e Emprego, Saúde e Qualificação de Vida, Comunidades e Participação Cívica, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 29 e 30 de Maio de 2008, um Congresso Internacional, subjugado ao tema Inovação Social.
Afinal as empresas apenas estão a entrar em áreas às quais o estado mínimo pretende estar apenas como parceiro ou regulador do “mercado”, daí que as ONG’s comecem a substituir o estado em papéis que lhe eram tradicionais: o bem-estar social, e transformar o tal bem-estar social num mercado regulado e onde é atribuído o papel primordial à sociedade civil.
O único problema ético é o facto da pobreza e da miséria social serem transformadas numa oportunidade de negócio, por muito que as ONG’s venham invocar o incontornável “associação sem fins lucrativos”.
De repente, os males da sociedade serem transformados em alvos do mercado, do negócio e do investimento soa-me a sordidez, mas se calhar é apenas uma espécie de crença mítica que me impede de olhar para a questão com neutralidade, afinal, tal como o abutre, a razão de ser do mercado é a oportunidade do negócio e isso é algo que também o ultrapassa.
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Em relação ao debate mensal no Parlamento e relativamente ao discurso do primeiro-ministro (PM) na AR, e já que a maioria da oposição permanece um pouco confusa quanto à questão de fundo e perdeu uma excelente oportunidade para forçar o PM a esclarecer a sua ideia de “Educação”, gostaria de lançar aqui algumas questões e notas acerca da temática*:
- as tão afamadas actividades extra curriculares cuja bandeira o governo ergue com alguma euforia caem, nalguns casos, num erro estratégico, é surrealista observarmos professores do 1.º ciclo, formados para ensinarem as crianças a ler e a contar, verem-se na contingência de terem de fazer de conta que ensinam música, ginástica, etc; quando, por outro lado, são contratados profissionais para o efeito, os pais teriam de não trabalhar ou então de pagar o transporte a privados, pois as actividades são atiradas para horários muito longe do da escola. Conheço várias escolas de um determinado concelho de Coimbra cuja actividade escolar não ocorre até às 17h30, não é por isso verdade que no primeiro ciclo as crianças estejam todas na escola até a essa hora. E pergunta inofensiva: haverá razão para estarem? Ou pretende-se que a escola agora também acautele a formação extra-escolar das crianças? e a comunidade? e a autarquia? Mais escola será sinónimo de mais educação? (ver António Nóvoa, com posições muito interessantes acerca deste assunto)
- melhoria das condições de trabalho dos professores? Enquanto encarregado de educação não é isso que eu ouço. Pelo contrário, os professores queixam-se de excesso de tarefas burocráticas, papel para aqui e para acolá, justificação para aqui e para acolá. Na última reunião com um director de turma deste país, os pais ouviram várias queixas do professor referentes a este aspecto. Pretenderá o PM dizer-nos que a melhoria reside na entrega de computadores às escolas e cursos de formação na área (?) e consequentemente potenciará uma boa performance com as novas tecnologias, já que muita papelada, desde que sejam criadas templates no Office, por exemplo, poderá ser rapidamente preenchida? Eu sinceramente gostaria que a melhoria das condições de trabalho contemplasse uma ou outra variante, mas um tanto diferente.
- quanto às taxas extraordinárias do não abandono escolar, é bom que a sociedade leia os sinais que demonstram a falácia desta tese. Actualmente os alunos que recorrem aos Centros de Novas Oportunidades, por exemplo, sabem que aquela é a melhor forma de realizarem durante um ano ou menos o que dantes realizariam em três (equivalência ao 9.º ano, por exemplo), está à disposição dos senhores jornalistas e deputados - que andam os primeiros algo distraídos com o exercício de auto-elogio do governo e os segundos "fertilíssimos" em criar a sua própria agenda política; no debate de ontem a excepção recaiu no PSD, o PCP, para mal de nós, abordou a temática com a cassete habitual, desprezando os professores e formadores que estão no mercado e que rapidamente contrariariam a tese de “SUCESSO” do PM, pena que o PCP tenha sido superficial e irrelevante -. Conheço variadíssimos casos, é só dirigirem-se a um CNO e entrevistarem os profissionais de RVCC (Reconhecimento, Validação de Competências Chave). Caso os senhores jornalistas ou políticos sejam bons ouvintes, poderão aperceber-se como o processo foi subvertido pelo actual governo, em nome das estatísticas e da adaptação profissional às necessidades do mercado. O método que pretendia reconhecer, validar e certificar a experiência relevante dos adultos, transformou-se, desde 2006, numa máquina de certificação. Caro PM, a isto não se chamará, certamente, governar para as estatísticas europeias?
- Santana Lopes, que poderia estar melhor preparado, para tal bastava ao PSD ter contactado vários CNO’s do país, tocou no cerne da questão: o facilitismo é o pano de fundo desta política de educação. A mim não me preocupam os alunos que poderão escudar-se no que é exigido a uns e não exigido a outros, preocupa-me sim a mentalidade de sucesso, demagogia e irrelevância pelo saber. O PM não está interessado em que os portugueses tenham mais instrução, está sim preocupado com a sua certificação. O PM não está preocupado com os portugueses, mas sim com o que as estatísticas demonstrarão aos líderes europeus. O PM escuda-se na mentalidade do “novo-riquismo” e da aparência e abre assim alas à direita mais conservadora de fazer a propaganda das escolas de elite e abrir caminho a mais ensino privado, pois se a escola pública é conotada com facilitismo. Dir-me-ão: mas o Director do novo modelo de gestão escolar combaterá esta ideia, sorrio, mas muito levemente, os caríssimos leitores já se aperceberam, certamente, da “palhaçada” em que se transformaram os concursos públicos? Pois… Este “fantástico” Director-professor que irá “endireitar” a gestão e autonomia das escolas dependerá exclusivamente da pessoa em causa, tal como qualquer autarca deste país ou governante. É importante que o “extraordinário” modelo de Director saiba responder objectivamente à seguinte questão: estou na escola para defender os interesses de quem? Espero que ele saiba que são os dos alunos e não os dos pais, dos professores, da autarquia ou dos empresários da região. E saiba clara e objectivamente que defender os interesses dos alunos não se coaduna com qualquer tipo de facilitismo, tendo em conta, obviamente, a diversidade dos alunos.
Sabemos bem que quem não se revê no modelo de escola, aproveitará a boleia do sistema. Poderá lamentá-lo um dia, é que as entrevistas de selecção, por exemplo, farão a triagem necessária. Por isso caro PM, menosprezar o mérito do governo não é desvalorizar o mérito dos professores, formadores, mediadores e finalmente os alunos, é que, felizmente para o país, alguns destes profissionais também sabem, e em muitos casos bem, perverter as prioridades do sistema (as estatísticas, por exemplo).
Caro PM, estou aqui só para tentar ajudá-lo a perceber o seguinte: a cassete do sucesso, estatísticas e números, não rimam com melhor Educação.
* - como não sou especialista no assunto, mas conheço algumas práticas que contrariam largamente a tese de sucesso do Primeiro-Ministro, gostaria que esta mensagem fosse lida com o seguinte pano de fundo: alguém que pretende ajudar a combater a tese da educação a reboque das estatísticas e em prole do facilitismo. Não é assim que ajudamos a tornar Portugal um país com uma sociedade civil mais esclarecida, combativa e crítica, muito pelo contrário.
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