quinta-feira, setembro 13, 2007

saudades do Filipe...

No sentido de... digamos, de me "cultivar politicamente", sempre li atentamente a opinião do Filipe, pois, sem qualquer pretensiosismo, ele falava de uma mudança pessoal de estádios, referindo claramente uma posição inicial - primária e natural - que eu sempre achei inevitável... Isto porque eu não acho natural nascer-se de direita! Numa inocente, ingénua ou mesmo ignorante teoria, tenho para mim que, em condições normais - seja lá o que isso for! -, todos somos inicial e naturalmente de esquerda... A força das circunstâncias - seja também o que isso for! - é que nos traz novas ideologias...

Mas dizia eu que tenho saudades do Filipe...

«Na adolescência, não tinha dúvidas: não só a Esquerda era a melhor solução possível, como a existência de uma coisa chamada Direita me era inexplicável. Não era a Esquerda pela igualdade, pela liberdade, pelo fim da pobreza, pelo fim das desigualdades sociais? E não eram esses objectivos os mais nobres dos objectivos? [...] o meu mundo era claro como a água. De um lado, os bons: a Esquerda. Do outro, os maus: a Direita. O único senão deste esquema eram os regimes comunistas [...] Via-os como uma degenerescência dos ideais da Esquerda, mas, por qualquer razão obscura, não os ligava às ideias em si, mas aos homens que as levaram à prática. [...] E acabava por refugiar-me no subconsiente: se determinada ideia era boa, é porque era de Esquerda. Douta ignorância! Até que encontrei a minha estrada de Damasco. Não propriamente a que me converteu, mas a que me educou. A que me ensinou que Esquerda e Direita eram só diferentes, sem que o Senhor Deus se tivesse alguma vez pronunciado sobre a validade absoluta de ambas.»
Filipe Alves Moreira, Dez/2005
Esquerda / Direita: um depoimento pessoal

«a maior parte das pessoas, pura e simplesmente, está-se nas tintas para saber se tal ou tal política é mais de Lenine, Burke, Reagan ou nórdica. Havendo sol no Verão e chuva no Inverno, 60 e muito % da população mundial passa bem sem discussões intelectuias sobre o neo-liberalismo ou o socialismo democrático. E, vejamos: o comunismo ruiu, as teocracias ruiram (vão ruindo...), o capitalismo, provavelmente, vai ruir. Quem nos pode garantir o que quer que seja? Em muito que pese aos velhos profetas de Esquerda, ou aos novos profetas de Direita, a humanidade patenteia uma imprevisibilidade desconcertante, de mistura com uma acentuada propensão para a mudança.»
Filipe Alves Moreira, Dez/2005
Opções



Integrando eu, infelizmente, os tais 60 e muito % da população e estando ainda a atravessar uma adolescência política tardia, continuo a perguntar-me quando é que as "ideias correctas" deixaram de ser comunistas... ou ainda quando é que as ideias comunistas deixaram de ser "ideias correctas"...

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variações acerca do comunismo

Deve ter sido interessante a vida num regime comunista.
No Chinês, principalmente.
O regime comunista chinês levou Marx tão a sério, ao ponto de a "igualdade" chegar ao traje e, curiosidade das curiosidades, ao boné, resta-me saber se a "igualdade" também chegou aos sapatos.
Imagino uma conversa no hall da sede do partido:
- Viva camarada! Vamos lá suar pela causa comum. E, hoje, quantos camaradas prevê socializar?
- Camarada, hoje, 'tou um nadinha deprimida.
- Deprimida? Uma camarada nunca se deprime, aliás um caramada que se deprime precisa de ler o "Corão" mais umas quantas vezes. A camarada quer que lhe façamos o favor de a internar?
- Sim, camarada, estou com uma depressão estilista.
- Camarada, desagrada-lhe algo na sua farda popular?
- Sim, camarada, a minha é mais popular que a sua, gostaria de algo mais estilizado.
Depois de se ter resolvido a questão, curou-se a camarada com a depressão estilista. A camarada superior promoveu-a a camarada um nadinha superior, mas uma nadinha inferior, a si.

Contudo, para além da genialidade da farpela igualitária, os camaradas chineses tem um ligeiro problema, gostam de se matar.
E, apesar de, aparentemente, já não andarem vestidos da mesma forma - a camarada com a depressão estilista já manda no partido, mas sem ninguém saber - continuam a ter o péssimo hábito de ser honrados.

É certo que o advento do capitalismo recauchutou algumas ideias comunistas.
Agora o camarada do partido não se deixa corromper pelo capitalismo, trata sim de tornar a nação o quinquagésimo Império. O camarada Mao deve pular de contente. Nunca, como agora, se viu tanto Chinês, nunca, como agora, se ouviu tanto potencializar a China.

O capitalista chegou à China e tratou de se adaptar.
O comunismo chegou perto do capitalista e também se adaptou.
Se McCarthy tivesse tido oportunidade de observar o casamento pacífico entre dois temperamentos, aparentemente incompatíveis, também se teria convencido e adaptado.
Tinham-se poupado comissões, ralações e carreiras de cineastas.

O filme peca, no entanto, por um argumento demasiado previsível.
O forasteiro chega à cidade, alguns mauzões irão fazer-lhe a vida negra, mas, depois de ultrapassar várias tempestades, conseguirá convencer a cidade. Afinal apenas pretende lucrar com a sua "bondade" e com a dos outros. A "bondade" dos outros é tanta que se digna a trabalhar para a sua "bondade" por uns míseros tostões e, se preciso for, até a "bondade" dos filhos se instala convencida da "bondade" do forasteiro. Durante anos a "bondade" do senhor criará riqueza e uma vida melhor para as "bondades" da região. Sugando todas as "bondades" possíveis e imaginárias, até as ambientais. E quando o país ao lado, depois de observar e invejar a prosperidade da "bondade" alheia - e de ter gostado de "snifar" os dejectos da "bondade" limítrofe - lhe acenar com os benefícios das suas "bondades", também verdadeiramente atraentes, o forasteiro não hesitará, ele veio ao mundo para satisfazer novas "bondades". Num ápice, torna-se, para uns, um usurpador de "bondades" alheias e, para outros, um benfeitor de "bondades" potenciais. No fim serão uns felizes e outros infelizes. Mas o herói continuará perseverante e perseguirá sempre o seu objectivo: satisfazer "bondades".

Vejamos bem a questão, o mundo precisa de capitalistas. E qualquer um de nós não lhe menosprezaria a profissão. A "bondade" precisa do capitalista para comprar os seus produtos, e, em troca, terá que lhe dar alguma coisa, a sua "bondade".

Os músicos rock, pop, ..., vendem o seu talento à indústria e, em troca, recebem alguns milhões, o que não é nada malfeitor.

Se entretanto se resolvem matar, experimentar tudo e encher as suas vidas demasiado preenchidas de alguma coisa, é porque não aprenderam nada de jeito e nunca pensaram suficientemente. Andaram na escola, mas não lhes valeu de nada. Apesar de, a maior parte deles, também não precisar da escola para nada, afinal nasceram com um talento e tratam de viver a sua vida à custa de.

Quem não tem talento nenhum, possivelmente andará na escola para aprender, e percebe que alguém que pretende "sugar" o tutano de um capitalista, terá de se lhe impor. E "produzir" uma relação puramente estratégica e economicista.

Trata de, aparentemente, lhe fazer a vontade, mas governando a sua vidinha. Trata de, aparentemente, ser uma estrela rock ligeiramente deprimida, ligeiramente fatal, e ligeiramente bizarra, mas com a balança sempre muito equilibrada. E, lei das leis, trata de juntar os trapinhos com alguém decente, e, de preferência, que não pertença ao meio e nem tenha muitas dúvidas existenciais. Uma espécie de lucidez brutal sobre a "bondade" alheia.

Para uma pessoa comum, como eu, sem talento que valha milhões, o desperdício de uma vida em troca de uma substância de faz de conta, dá um raio de uma imensa dor de corno.

Ele havia tanta coisa, pessoalmente gratificante e saudável, a fazer com tais milhões.

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quarta-feira, setembro 12, 2007

do capitalismo

Não tenho nada contra o capitalismo.
Aliás, era profissão que eu não menosprezaria.
Um capitalista viaja em carros interessantes, acima de tudo confortáveis; compra um camarote no São Carlos e oferece bilhetes a amigos desinteressados em negócios; viaja sempre em hotéis 5 estrelas; gasta algumas centenas de euros por dia em despesas de representação, a empresa precisa sempre de embaixadores notáveis; paga alguns euros por novos relatórios para implementação de um novo aeroporto e, acima de tudo, reconhece a legitimidade da "realidade".
Um capitalista, verdadeiro, olha para "a realidade" e magica fenómenos magistrais de ganhar milhões de euros com "a realidade" a quem paga apenas euros.

Ao longo da história da humanidade a instituição que inventou o capitalismo, antes de ele existir, foi a Igreja.
A Igreja é um capitalista que vende o seu produto "à realidade" mas com palavras enternecedoras:

ah e o sentido da vida!?

O sentido da vida, apoiado em palavras bentas, abriu sucursais, os actuais franchising, um pouco por todo o mundo, globalizando alguns valores, acoplados a parcos interesses económicos.

Não poderemos, nunca, acusar a Igreja de pretender lucrar com alguma coisa. Só anda nisto por amor à camisola e por pura caridade, como aliás alguns ex-capitalistas reformados, acabadinhos de chegar a uma ONG perto de si.

O capitalista está sempre com os olhos abertos "à realidade" e, perante nichos de mercado, não hesita.

Daí que tenha regurgitado todas as estrelas rebeldes do rock.

Por isso, ficarei sempre muito comovida com entrevistas a ex-administradores de empresas capitalistas em decadência, que um dia se instalaram, definitivamente, nos seus gabinetes com vista para o rio, cadeiras de pele e secretárias de madeira baratíssima, enchendo o ego, diariamente, com os milhões venturosos dos Elvis, Morrisons, Joplins, Cobains e futuros candidatos Whinehouses e Dohertys, semicerrando as pupilas (ouve o barulho quezilento da caixa registadora?) e magicando: qual será à próxima ex-estrela rock e, de preferência, defunta?

O grave problema de um capitalista é ser humano. Um dos pecados capitais, mais usuais, deste tipo de animal, invade-o e, por vezes, aliena-o da "realidade".

Durante o período de alienação, do capitalista instalado, há uma rapaziada "real", aspirantes a novas categorias sociais, graças à bendita e irreverente mobilidade social, que inventam formas de "a realidade" aceder a tal produto, gratuitamente.

E, lástima das lástimas, o administrador da editora, sediada algures no planeta terra, de repente no desemprego. E a editora a deixar de facturar milhões porque uns malvados capitalistas andam a ganhar dinheiro à custa dos direitos de autor.

Já viram como as editoras, de repente, se passaram a preocupar, imenso, com os direitos de autor?

Eu que sou uma capitalista em potência, mas com os olhos sempre fechados ao mercado, compreendo, como ninguém, a comiseração destes ex-administradores.

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