quinta-feira, fevereiro 14, 2008

as mulheres que nós amamos...

Em dia de namorados, deixo-vos o precesso de escrita da carta do velho Pires à sua amada Felismina, no tempo em que as cartas eram escritas e entregues em mão... Para quem não está situado, estou, mais uma vez, a falar dos Amigos do Gaspar... Segue, então, o diálogo e a música incluídos na faixa do CD.

Minha querida Felismina:

Bem sabes como sofre o coração deste pobre e velho marinheiro por não conhecer a correspondência do teu amor.

O amor, Felismina, o amor quando nos toca é como se tocasse um sino, um hino, [sei lá] o trino de um alegre passarinho. Felismina, eu quero voar para o teu ninho [esta está boa: «voar para o teu ninho»!] e fazer o pino [«fazer o pino»?! pronto, faço o pino! Felismina, as coisas a que o amor nos sujeita; por ti, fazia o pino...] Já não sei, que desatino. Mas que hei-de eu fazer? Felismina, o amor é um furação desgovernando a minha embarcação.

Felismina, abranda a tua tempestade e manda-me uma brisazinha para atiçar as brasas em que vive o meu coração.

Pires

- E pronto! Agora vocemecê leva-me esta cartinha ali à loja da Felismina e diga-lhe que vai de meu mando, está bem?...

- Olhe Sr. Pires, eu levo, mas não me meta em trabalhos, está bem?...

- O'm'essa, homem! Claro que não! Então aquela Felismina é uma mulher de categoria, de categoria! Percebeu?

- Ai isso acredito, mas deixe-me que lhe diga uma coisa: as mulheres que nós amamos são sempre mulheres de categoria.

- Está certo! Está certo! Ah, Felismina, Felismina, mulher da minha alma...

Ai, o amor quando nos toca
é como se tocasse um sino,
um hino, um trino
de um alegre passarinho

Vou voar para o teu ninho
vou tentar fazer o pino
vou ser bailarino
argentino, desatino

Mas que hei-de eu fazer?
O amor é um furacão
desgovernando
a minha embarcação

Sérgio Godinho (musicado por Jorge Constante Pereira),
"A Paixão do Velho Pires, o Marinheiro" (1988)

Etiquetas: , ,

Partilhar

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Coisas de época II

Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargónio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peónia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramarílis. Floranémona. Florazálea. Clematite minha. Catléia defínio estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclámen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegónia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Carlos Drummond de Andrade, A Paixão Medida, Declaração de Amor, 1980

P.S. Experimentem tentar decorar isto...

Etiquetas:

Partilhar

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Coisas de época

Perguntas sempre: "Quando estás longe tens saudades de mim?" Respondo-te sinceramente:
- Não. Não creias que a distancia separe, o que separa é o esquecimento.
Tem-se saudade dos que já não vivem, dos que já não se vêem. E, como queres que a saudade me atormente se estás sempre em meu coração?
Saudade, não, porque vives commigo, porque a toda a hora sinto que palpitas em mim, dentro de minh'alma.
A saudade, amor, é o fogo fátuo das venturas mortas, pairando sobre o coração.


Coelho Netto, Romanceiro, Porto, Lello & Irmão, 1906

Etiquetas:

Partilhar