segunda-feira, outubro 01, 2007

a Casa da Música

Uma das principais e polémicas obras da Porto2001 mora na Av. da Boavista, mesmo junto à Rotunda. Já não faço ideia do que lá estava há uns anos, mas agora é um espaço amplo e arejado – por vezes, demasiado! – onde parece ter caído um meteoro. E este objecto espacial é, então, a Casa da Música. Bloco de cinzento, bastante geometrizado, com faces, arestas e vértices de um sólido gigante muito irregular. Corredores, escadas e átrios assimétricos, janelas onduladas, portas e passagens inesperadas – amplitude e atrofio misturam-se estranhamente. O cimento, a transparência, a madeira, o dourado, o azulejo, o cinzento, o branco, o preto, o vermelho... A variedade e os contrastes visuais são mais que muitos... Não é uma mescla acumulada, mas sim uma diversificação organizada que prima por combinações inesperadas.
A Sala Suggia (Sala1), onde contrastam a sobriedade do cinza e a presunção do dourado, recebe os grandes espectáculos ou ainda apresentações mais pequenas mas que se adequam à acustica – xpto, especial de corrida e mais não sei o quê alegadamente fenomenal... – da sala.

A Sala2, num vermelho aconchegante, é consideravelmente mais pequena e permite concertos mais íntimos, com uma plateia adaptável com ou sem cadeiras.

A programação sofre picos de preenchimento, mas, quando existe, é variada: solistas, pequenos grupos e grandes orquestras, concertos clássicos, de jazz, populares ou tradicionais, workshops, palestras, actividades educativas e aberturas à Praça. Há bilhetes caros, mas há também algumas actividades gratuitas, alguns concertos acessíveis, descontos de idade e assinaturas vantajosas.


Nem tudo são rosas, mas a Casa veio para ficar e acho que se tem mostrado disponível para receber a cidade. Quanto ao acolhimento popular... tem tardado, mas acho que está a melhorar. A sombra da polémica está a desvanecer-se (?)...


fotos: Carlos Romão, excepto (4)-casadamusica

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segunda-feira, setembro 10, 2007

Outra questão pertinente

Leonor, aqui acabaste de proferir outra frase polémica.

Que frase?

"Não julgo os leitores pelos livros que leram."

Eu gosto desta frase.

Principalmente quando ponho a imaginação a trabalhar e me revejo num cargo como, por exemplo, recrutamento de pessoal.

Recrutador - Gosta de ler?
Jovem - Sim.
Recrutador - Qual o seu escritor preferido?
Jovem - Paulo Coelho
Recrutador - Paulo Coelho? Interessante... Qual foi a obra de Paulo Coelho que mais gostou?
Jovem coçando a cabeça, torcendo o nariz e cruzando os braços - Sinceramente, muito sinceramente, não me lembro.

Como "recrutadora" seleccionaria imediatamente aquele jovem, pois ele tem um futuro promissor no cargo para que concorreu: marketing e comunicação.

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sexta-feira, setembro 07, 2007

...há livros que não mudaram vidas...

Manuel A. Domingues lançou a corrente, desafiou alguns "bloguers", e lançou a primeira polémica da rentré.

Ler aqui, aqui e aqui e seguir a discussão entre Carla H. Quevedo e Francisco J. Viegas.

Esta discussão é demasiado atraente.

Nunca li Ulisses e desconfio sempre de quem diz que já o leu.

[Mas é uma espécie de desconfiança não emocional]

Já comecei Proust e recoloquei-o na prateleira, após o primeiro volume dos sete.

A desistência não tem absolutamente nada a ver com o facto de ter mudado a minha vida.

Quem lê Proust, com alguma disponibilidade, conclui, muito rapidamente, que o autor escreveu e pensou demasiado, e bem.

E estranha não estar à mercê da angústia da influência [conferir Harold Bloom, A angústia da influência] de qualquer escritor que se lhe seguiu.

Compreendo, por isso, alguns argumentos.

Contudo, também me parece legítimo que, certos escritores, não gostem de "certos" autores canónicos, pressuponho a sua séria dificuldade em calar a, literariamente incorrecta, voz interior [conferir Harold Bloom, Como Ler...].

Daí, também ser fácil de entender, a "posição" dos escritores envolvidos na temática.

Detestei "Morte em Veneza", como aliás qualquer livro de Thomas Mann, já tentei "A Montanha Mágica", não passei das primeiras 100 páginas e não reincidi.

A detestável voz interior grita sem parar.

A discussão em causa é, acima de tudo, revigorante, porque parte de um pressuposto irónico: afinal os livros mudam a vida das pessoas.

Qualquer pessoa comum, tendo ou não lido os clássicos, fazendo ou não tábua rasa de listas abençoadas pelas nossas Universidades, jura não sentir a mínima influência dos livros na sua vida.

Qualquer pessoa comum lê os seus clássicos.

Nós sabemos, contudo, o quanto um grande autor é o retrato refinado de uma época e também o quanto a sua forma de a descrever a reinventam e influenciam.

Não esqueço a identificação inexperiente perante "Aparição" de V. Ferreira.

Mas este processo de identificação/apropriação ocorre, nomeadamente, durante a adolescência.

A suposta "mudança" efectiva, afinal é a época mais activamente espalhafatosa da vida de qualquer ser humano.

Veja-se, por exemplo, as mudanças de vida de alguns famosos após a leitura de "Pela Estrada Fora".

[Artigo d'O Público, 2/3 semanas(?)]

Quando li os diversos artigos da polémica reflecti acerca da frase, mas ao contrário, e sinceramente não há nenhum livro que tenha mudado - mudar no sentido activo, real, externo - efectivamente a minha vida.

Mas há muitos livros que mudaram a minha forma de olhar o mundo e é essa a linha do horizonte, na discussão.

Há imensos livros que não mudam a nossa vida, no sentido em que lê-los não acrescenta nada ao que já sabemos, isto é, a forma como o autor escreve não traz nada de novo.

Por exemplo, um livro como "As Pessoas Felizes" de Agustina Bessa-Luís, o que é que acrescentou ao meu "conhecimento" literário:

- o tempo tratado de forma caótica - inovador;
- os "espectros" literários de um escritor, recreando personagens - Nel reinventando Ana Karenina;
- a cultura, as impressões, a capacidade de observação dos costumes, uma amálgama de informação histórica que, aparentemente, esbarram na impaciência do leitor e nalgum senso comum da crítica - um autor não deve impor a sua cultura, pode ser considerado pelos leitores petulante e/ou arrogante - contudo Agustina está demasiado interessada em explorar o romance como uma forma de ensaio, uma forma diálogo literário dentro da própria literatura, criando assim um estilo muito próprio e de imersão na realidade histórica e cultural de um povo e os seus costumes, criando, construindo e reconstruindo uma determinada época;
- o moralismo irónico - inovador.

Rui Zink disse numa entrevista a um periódico que um autor não deve falar na vidinha, pois isso demonstra falta de imaginação.

Este tipo de frase poderá ser lida com alguma concordância, contudo há quem não o possa levar a sério.

Qualquer personagem forte, de qualquer escritor, sofre do estigma de ter sido observada, pelos menos nos seus traços mais marcantes.

Tolstói, a este propósito, tem uma frase célebre:

«Se queres ser Universal começa por pintar a tua aldeia».

Um autor fala da vidinha dele, dos outros e da sociedade que o rodeia, daí que cada geração tenha um escritor de eleição, seja ele canónico ou não.

E também daí que possa influenciar e/ou mudar vidas ou não.

Basta pensar, por exemplo, na forma como "O Capital" mudou toda a perspectiva de "repensar" a sociedade, e os seus elementos, para percebermos, efectivamente, a pertinência da questão.

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