domingo, julho 20, 2008

O pecado mora ao lado

Nas leituras de fim-de-semana apeteceu-me fazer um exercício algo simplista, comparar duas primeiras páginas de dois semanários: Expresso e Sol e tentar perceber que tipo de mensagem ideológica perpassavam.

Primeira página do Expresso:

“A vida de António Estrela autor do tiroteio de Loures” – tema: violência, insegurança.

“O que a bolsa perdeu dava para dois aeroportos e dois TGV… e ainda sobrava” – inocentemente surge antes deste título a palavra Crise (cinzento claro) – tema: crise económica.

“Plano tecnológico exportado para a Venezuela” – apologia do governo a competir no mercado global, como uma empresa. Tema: globalização

“Deputados visitam central nuclear” – tema: energia. Globalização: competição, investimento.

“Cavaco promulga acordo ortográfico” – tema: Portugal. Língua normalizada como oportunidade de negócio.

“Passos Coelho diz-se ‘excluído’ do PSD” – tema: político liberal.

“Fim do voto por correspondência” – tema: emigrantes.

“CDS foi o mais produtivo na AR” – tema: política liberal.

“Vieira de Carvalho critica ministro” – tema: oposição ao governo.

Primeira página do SOL:

“Manuela Ferreira Leite – Aeroporto de Alcochete é irreversível” - tema: investimento. MFL direita com consciência social.

“Mário Lino força Fernando Pinto a ceder na TAP” – tema: política laboral. ML esquerda e consciência social.

“Portugal arresta bens de Jean-Pierre Bemba” – tema: justiça e direitos humanos.

“Carta a El-Rei Dom Manuel sobre o Achamento so Brasil” – colecção de clássicos portugueses contados às crianças. Tema: cultura portuguesa.

“Rui Moreira fala da sucessão de Pinto da Costa” – tema: norte versus sul

“Santana desafia Portas a esclarecer falsidade” – tema: confronto político

“O que é a terapia quântica” – tema: ambiente?

“Líder da ONU escreve sobre salvação do Planeta” – tema: ambiente.

1.ª hipótese de trabalho: será que o Expresso se pretende assumir como representante do liberalismo económico e o SOL representante da direita mais conservadora e com consciência social?

Quais são os políticos que simbolizam estas correntes?

- no PSD Pedro Passos Coelho, e, obviamente, Paulo Portas (ambos na primeira página do Expresso na coluna da esquerda, letras pequenas, assumidamente?).

- no PSD MFL simboliza a direita conservadora com consciência social (assumidamente pois aparece em destaque em fotografia de perfil – o perfil dissimula a idade de MFL?)

2.ª hipótese de trabalho: a cisão entre José António Saraiva e Francisco Pinto Balsemão terá sido uma cisão de linha ideológica do semanário Expresso?

3.ª hipótese de trabalho: quais são os valores veiculados pelo Expresso e pelo Sol?

Expresso – notícias ao serviço da economia globalizada? Indivíduos, consumidores e não cidadãos?

Sol – notícias ao serviço do confronto político, dos valores éticos e de Portugal? Consciência social, ética, o questionar de posições rígidas?

Agora, se não se importam vou ali dar um mergulho que a teoria da conspiração está prestes a tornar-me numa cidadã “deslumbrada com o poder mediático do GR” (ver “Ter razão não basta” de Fernando Madrinha, p. 9, Expresso) ou de como o “Novo Expresso” pretende veicular a ideologia democrática “Para ter razão basta calar o bico”?

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domingo, março 30, 2008

O pecado mora ao lado

José Pacheco Pereira é, neste sábado, alvo de crítica em dois semanários: Expresso e O Sol. De forma diferente. Miguel Sousa Tavares tem como argumento de fundo do seu artigo semanal: JPP pretende re-escrever a história; enquanto Baptista-Bastos defende que a qualidade de escrita de JPP é má, enfim, muito "embrulhada".
Longe de mim servir de advogada de defesa de JPP ou de ataque de BB, esclareço desde já que não simpatizo especialmente nem com um, nem com outro.
Mas considero que deverá existir uma determinada dignidade na forma como falamos dos outros publicamente.
Uma espécie de elevação racional, longe de algumas emoções mesquinhas.
Se o artigo de MST no Expresso poderá ser considerado, a este nível, digno, pois tenta rebater argumentos racionalmente; já o de Baptista-Bastos é um ataque pouco digno de um escritor que pretende avaliar tecnicamente alguém que escreve, mas cuja capacidade de avaliação está repleta de preconceitos ideológicos, veja-se a forma imparcial como BB fala de Cunhal.
Poderão perguntar: e a forma como MST argumenta também não é ideologicamente discutível?

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domingo, janeiro 06, 2008

O pecado mora ao lado

Aconselho vivamente a leitura da entrevista de Maria Eugénia, viúva de Agostinho Neto, à revista Única do Expresso. A entrevista, apesar de repleta de afirmações de quem viveu por dentro os acontecimentos e dos quais tem uma visão emocional e pouco factual, é historicamente muito pertinente.
Enquanto decorria a entrevista estava expectante quanto ao comentário de Maria Eugénia ao livro Purga em Angola, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. Francisco José Viegas, por exemplo, dedicou-lhe um "Escrita em Dia", um diálogo factual e desassombrado sobre aquele dia fatídico em Angola.
Maria Eugénia Neto, comentando o livro, diz apenas:
"Isso é mentira. Essa senhora é desonesta, é mentirosa(...)". "Isso é mentira" (acerca dos 30.000 mortos). "(...) não sei. Não estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar." "Não quero entrar nesses pormenores. Não estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades... Mas olhe que nunca ninguém perguntou: e se eles tivessem ganho? O que não teriam feito? Se, logo no início, mataram seis (os melhores e mais fiéis ao Presidente Neto) e os queimaram no Roque Santeiro, imagine o que não iriam fazer. Nós tínhamos sido todos limpos." p. 69
Acerca de Jonas Savimbi: "Acho que foi um criminoso terrível. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdão para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou então um era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estão sempre a repisar no mesmo assunto. Não falam nos crimes que cometeram na Guiné, em que se cortou o Ansumane Mané aos bocados... Angola está sempre na berlinda. E com um ódio, de não estar lá ou de não usufruir das riquezas. É uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora... Já no outro (A Luta pela Independência), tive uma discussão, porque não leu a realidade dos pais fundadores... Li o outro, deste nem quero saber!" p. 70
Acerca do concurso da RTP: "Mas fiquei muito contente com o resultado do Cunhal, que foi o símbolo da resistência contra o fascismo. E os comunistas, apesar de terem feito asneiras em Angola, e de serem grandes responsáveis pelas maluquices do Nito Alves.", "(...) apoiaram aquela miudagem. Mas o Cunhal fez com que este país mudasse." p. 70

Parece-me óbvio que não deveremos menosprezar a versão de Maria Eugénia, se pretendermos perceber o que se passou em Angola na altura da Independência e, nomeadamente, para a História de Portugal, pós 25 de Abril.

As questões:
- e se eles tivessem ganho? O que não teriam feito?
Parecem-me bastante pertinentes, apesar de não poderem ser interpretadas como definitivas. Podem apenas sugerir-nos reflexões no âmbito do processo de independência das ex-colónias e de como esse processo não fez justiça nem aos Angolanos, nem aos portugueses. Versões light do mundo, como as ideologias que estruturam os seus alicerces na bondade do Homem, conduzem a retóricas idealistas, pouco realistas e, por vezes, atrozes. Gostaríamos de questionar a ingenuidade ideológica de Maria Eugénia, perguntando-lhe: qual a diferença concreta, para as populações, entre a Angola do antes e do pós independência?

Ainda me ocorrem outro tipo de perguntas:
- Que tipo de responsabilidades poderão ser imputadas ao PCP, Mário Soares e todos os governantes portugueses responsáveis pela independência?
- Responsabilidades? mas na altura também Portugal vivia tempos muito conturbados.
- A riqueza de Angola é apenas um facto e pouco relevante?
- Reflectindo sobre diversos factos históricos, que tipo de leitura poderemos fazer da natureza do homem?

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sábado, dezembro 08, 2007

O pecado mora ao lado




Francisco José Viegas entrevistou, na passada quarta-feira no "Escrita em Dia", Miguel Real.
É uma entrevista interessante a todos os níveis.
Miguel Real* utiliza, no seu livro, Snu Abecassis como narradora da história.
No diálogo entre FJV e MR, Snu aparece como personagem consciente da mesquinhez de um certo Portugal, ela uma mulher alta, loura, bonita, que "rouba" o homem da nação à pacatez dos brandos costumes.
FJV leu, por duas vezes, extractos do livro de MR e a voz de Snu lá está como personagem endeusada e uma oportunidade perdida pelo país das elites mesquinhas, bolorentas e mal formadas.
Snu é a personificação de uma Europa que nos iluminará e fará brilhar enquanto povo pouco esclarecido, pouco educado, invejoso, mal preparado, culturalmente arruinado.
MR dá exemplos caricatos de "planos tecnológicos" ao longo da nossa história e de personagens que se auto-exilaram (Sá de Miranda, por exemplo) e desvaneceram às mãos dos incautos, mesquinhos, bolorentos, invejosos, mal preparados, mal educados, portugueses.
Nós perdemos a oportunidade Snu, nós perdemos todas as oportunidades, nós no eternamente e fadário desajustado.
Enquanto o programa decorre uma duvidazinha muito quixotesca surge no horizonte: uma Universidade revisitando cíclica e "fatalmente" velhas mitologias é capaz de formar cidadãos críticos, questionantes, em busca de um lugar no mundo?

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* - professor universitário de filosofia.

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domingo, novembro 25, 2007

O pecado mora ao lado


Vale a pena ler, no Público de ontem, a crítica de Vasco Pulido Valente ao "Rio das Flores" de Miguel Sousa Tavares.
Dedicar quatro páginas de um jornal a uma crítica "literária" é a cereja em cima do bolo, pelo menos para quem aprecia o género. Parabéns ao "Público" pelo facto jornalístico.

Notas em relação a Vasco Pulido Valente:
- é intelectualmente arrogante e como qualquer intelectual arrogante pressupõe que a sua especialização profissional é de importância vital para a humanidade, quem não sabe tão intensamente sobre determinada época histórica é um "iletrado", consultar P2, página 9, coluna dois, segundo parágrafo, diz VPV: "Imagino que um iletrado (a maioria dos leitores) acredite piamente em Sousa Tavares". Suponho que um "iletrado" para VPV sejam todos os leitores de MST e não os seus (VPV).
- gostaria de perguntar a VPV se considera que não existem outras especializações interessantes, outras áreas culturais dignas de apreço, outros estilos de vida, outras experiências profissionais, outras trocas, outras qualquer coisa.
- os leitores de MST, não pretendem discutir história com quem quer que seja a partir da leitura de um romance histórico. É que têm plena consciência de que um romance histórico é apenas um romance e não uma biografia.
- esclarecimentos de VPV acerca da sua crítica: "Numa entrevista ao Expresso, MST, contou um caso, inteiramente imaginário, da minha suposta desonestidade (teria criticado o Equador sem o ler) (...) Como é natural desmenti. Isto bastou para que ele anunciasse por SMS à minha mulher e, a seguir, no Diário de Notícias que "ia dar cabo de mim". (...) Ficou pelo insulto e pela injúria; e pela ameaça implícita de que, se quisesse revelaria episódios da minha vida pessoal (cinco ou seis) para liquidar a minha figura pública. Nestas digressões MST não falou uma única vez de um livro meu ou do meu jornalismo.", Introdução ao artigo do Público, P2, p.6,
"quando aqui me refiro a Miguel Sousa Tavares deve ser claro que me refiro ao narrador", idem, p.7, coluna 1, parágrafo 1, ou
"uma última observação: discuti neste artigo um livro e um autor, não estou disposto a discutir a pessoa ou a pessoa de Sousa Tavares", idem, último parágrafo do artigo, p.9.
Não se está a discutir a pessoa? Serei uma ignorante em artifícios de linguagem?
- VPV deverá ter consciência do seguinte: os leitores do Público aceitam a sua crítica histórica, quanto à literária seguem em frente. Há sempre um "gosto" "não gosto" a gritar dentro de nós e esse grito é incomensuravelmente livre e não permeável aos "gritos" particulares de cada um.

Em relação a Miguel Sousa Tavares:
- MST é tão arrogante quanto VPV, tem um pequeno problema não possui a densidade de um especialista, daí as suas crónicas e os seus romances serem "eivados" de "preconceitos" ideológicos, generalidades e "irrealidades" (a sua crónica do Expresso da semana passada é disso um excelente exemplo).
- a falta de densidade das personagens de MST, com a qual eu concordo em relação ao "Equador", pois ainda não li "Rio das Flores", residirá na sua míngua de generosidade em relação ao que o rodeia? (Tolstói dixit: se queres tornar-te Universal começa por pintar a tua aldeia).
- a sua estratégia: "a melhor forma de defesa é o ataque" foi, decididamente, um tiro no pé.

Tanto VPV como MST recrearam em muita gente o não óbvio: ora bolas, até os "opinion makers" são permeáveis às fraquezas humanas.

De resto, os leitores de ambos são pouco generosos e irão comprar o romance de um, ora aí está uma óptima prenda de Natal e a biografia de outro, uma excelente prenda para o primo licenciado em história, mas ainda bastante iletrado.

E no fundo, no fundo, seremos todos muito felizes e para sempre.

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sábado, novembro 03, 2007

O pecado mora ao lado

É um dos filmes mais conhecidos de Marylin Monroe, realizado por Billy Wilder.

Não é o o meu filme favorito, prefiro sem dúvida Some Like it Hot, uma comédia hilariante e o tristíssimo e visionário The Misfits.

O que me atrai na tradução portuguesa do The Seven Year Itch é a sua ironia risonha, a que encontramos bem etiquetada nas prateleiras da realidade.

O pecado mora ao lado, título de crónica de fim de semana, assume a componente irónica do título português e pretende olhar a realidade apenas e só com um sorriso.

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