Como sou confesso e orgulhoso fã de cada palavra que Cohen escreve e canta, pensava que era uma subjectividade própria de admirador ter achado que o que viu, e essencialmente o que viveu, no sábado passado não tenha termo de comparação com nada do que até então assistiu. Para tirar tais dúvidas e também para não fazer um balanço em que me limitasse a debitar elogios ao senhor, convoquei os jornais para me ajudarem a ser mais objectivo.
Após este pequeno apanhado de notícias, sou levado a crer numa de três coisas: ou o senhor nos enganou a todos muito bem, ou as redacções dos jornais estão cheias de fãs incondicionais de Cohen, ou aquilo que se passou em Algés no Sábado foi mesmo muito especial. Não me restam dúvidas em qual acreditar.
"There is a crack in everything / That's how the light gets in"*
Musicalmente falando, hoje talvez seja um dos dias mais importantes da minha vida. Vou assitir ao concerto de Leonard Cohen. O cantor canadiano desloca-se a Portugal para um concerto único a ter lugar no Passeio Marítimo de Algés.
Se procuram em Cohen uma voz certa, límpida, com técnicas vocais de sobe e desce nas escalas ou um utilizador exímio de graves e agudos, esqueçam-no de vez. Nada em Cohen é agudo. Tudo é grave. A voz de Leonard Cohen não tem nada de musical. Tem apenas toda a alma do mundo lá dentro.
Se procuram na música de Leonard Cohen ritmos exuberantes, guitarras com tecnicismos dos brinca-na-areia ou um músico que se limita a fazer bem um estilo, esqueçam-no. A música de Cohen não se compadece com tais perfeições. A música dele é imperfeita. Como a vida.
As letras de Cohen não são letras. São poemas dos mais perfeitos alguma vez feitos. Falam de amor, de morte, de política, de depressão, de alegria, da crença, de ser. Mais do que falar, os poemas de Cohen são tudo isso. E tudo isso é apenas a vida no que de mais profundo tem para oferecer ao ser humano.
Bem-vindo, Mr Cohen. Obrigado por esta última oportunidade. E, logo à noite, vamos deixar a sua Sabedoria entrar nas nossas almas. Uma vez mais.
*Anthem - Leonard Cohen
PS: Parece que por aqui quiseram fazer uma "guerra" ou um "derby"entre o que era melhor: Lou Reed ou Cohen. Como se não fossem os dois gigantes. Como se fossem Sporting e Benfica. Até contaram quantoas entradas no Google tinha cada um. Vejam-nos AQUI na cerimónia de entrada do cantor canadiano para o Rock and Roll Hall of Fame. Cohen a dizer que é fã de Reed desde sempre e Reed a dizer que é uma sorte estar vivo ao mesmo tempo que Cohen. Por vezes somos mesmo muito pequenos.
Ora bem, parece que o homem vem mesmo a Portugal e a Espanha no Verão, pelo que, parece, ainda são só suposições, tenho a maior frustação musical da minha vida a poucos meses de ser resolvida - assistir a um concerto de Leonard Cohen. Agora, enquanto se deliciam com o video aí em baixo, eu gostava de deixar esta pergunta no ar: quem teve a infeliz ideia de promover um concerto do senhor Cohen ao ar livre?
«Há homens que deveriam ter montanhas para lhes eternizar os nomes.
As lápides não são suficientemente altas nem verdes, e os filhos vão para longe para se libertarem do punho que a mão dos seus pais sempre há-de parecer.
Tive um amigo: viveu e morreu em absoluto silêncio e com dignidade, não deixou livro, ou filho, ou amante que o chorasse.
Isto não é uma canção de lamento mas apenas um nomear desta montanha por onde caminho, fragrante, obscura, e delicadamente branca sob a palidez da névoa.
A esta montanha dou o seu nome.»
Leonard Cohen - Poemas e Canções vol I - Relógio d'Água
Leonard Cohen nasceu em Montreal, Canadá, em 1934. Em 1956 editou «Comparemos Mitologias», o seu primeiro livro [poesia]. O álbum de estreia intitulou-se «As canções de Leonard Cohen». A partir daí foi alternando a sua obra artística entre discos e livros. O reconhecimento a nível musical pode ser aferido como talvez sendo o músico que mais vezes é referido como influência dos novos artistas pop e cantautores. A nível literário, o reconhecimento veio há dois anos com o Canadá a indicá-lo como candidato nacional ao Prémio Nobel da Literatura. Conforme informa hoje o Diário Digital, este ano vai ser lançada uma campanha para repetir a candidatura.
Imaginem que este texto não existe. Imaginem que este vídeo não existe. Imaginem um espaço em branco e, mesmo que impossível, um absoluto silêncio. Imaginem, ainda, um homem de idade que já tudo disse o que sobre o amor havia para se dizer. Imaginem que este homem além de o dizer, também o cantava. Descansem a imaginação, por favor.
Voltem a imaginar esse homem que tudo sabe sobre o amor. Imaginem que o concerto da minha vida será aquele que nunca irá acontecer – o homem que tudo sabe sobre o amor já não dá espectáculos. Imaginem que esse homem escreve letras que são poesias e também escreve poemas que por vezes são letras. Imaginem que esse homem teve como crítica ao seu primeiro livro seu «Depois de o ler, tive de fazer uma lavagem cerebral». Imaginem que esse homem continuou por mais 50 anos a escrever livros e canções. Imaginem que essa Obra foi candidata ao Prémio Nobel da Literatura pelo seu país. Parem de imaginar para construírem uma imagem do que foi pedido.
Imaginem uma voz. Uma voz simples e complexa, rouca e terna, quente para o amor e implacável com o mundo. Imaginem uma voz que é capaz de nos esclarecer o significado de uma palavra só por dizê-la, e imaginem ainda que, pronunciando a mesmíssima palavra, é capaz de nos dizer exactamente o seu contrário. Imaginem uma voz com as cordas vocais no coração. Imaginem que este texto não existe, imaginem que este vídeo não existe, mas não deixem nunca de saber que «A Voz» existe. E imaginem o absoluto silêncio para a escutarem: Senhoras e Senhores, Mr. Leonard Cohen