sábado, julho 19, 2008

"There is a crack in everything / That's how the light gets in"*

Musicalmente falando, hoje talvez seja um dos dias mais importantes da minha vida. Vou assitir ao concerto de Leonard Cohen. O cantor canadiano desloca-se a Portugal para um concerto único a ter lugar no Passeio Marítimo de Algés.

Se procuram em Cohen uma voz certa, límpida, com técnicas vocais de sobe e desce nas escalas ou um utilizador exímio de graves e agudos, esqueçam-no de vez. Nada em Cohen é agudo. Tudo é grave. A voz de Leonard Cohen não tem nada de musical. Tem apenas toda a alma do mundo lá dentro.

Se procuram na música de Leonard Cohen ritmos exuberantes, guitarras com tecnicismos dos brinca-na-areia ou um músico que se limita a fazer bem um estilo, esqueçam-no. A música de Cohen não se compadece com tais perfeições. A música dele é imperfeita. Como a vida.

As letras de Cohen não são letras. São poemas dos mais perfeitos alguma vez feitos. Falam de amor, de morte, de política, de depressão, de alegria, da crença, de ser. Mais do que falar, os poemas de Cohen são tudo isso. E tudo isso é apenas a vida no que de mais profundo tem para oferecer ao ser humano.

Bem-vindo, Mr Cohen. Obrigado por esta última oportunidade. E, logo à noite, vamos deixar a sua Sabedoria entrar nas nossas almas. Uma vez mais.
*Anthem - Leonard Cohen



PS: Parece que por aqui quiseram fazer uma "guerra" ou um "derby"entre o que era melhor: Lou Reed ou Cohen. Como se não fossem os dois gigantes. Como se fossem Sporting e Benfica. Até contaram quantoas entradas no Google tinha cada um. Vejam-nos AQUI na cerimónia de entrada do cantor canadiano para o Rock and Roll Hall of Fame. Cohen a dizer que é fã de Reed desde sempre e Reed a dizer que é uma sorte estar vivo ao mesmo tempo que Cohen. Por vezes somos mesmo muito pequenos.

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terça-feira, maio 08, 2007

A maximização da coisa

Maria de Belém é das mulheres políticas portuguesas a que mais saboreio ouvir falar.
Maria de Belém é, além de tudo, foneticamente aprazível.
As palavras ecoam nos seus lábios como roseiras bravas e o perfume que exalam é inebriante.
Hoje o tema da sua pequena crónica na Antena 1 foi sobre a tomada da bastilha, salve seja, desculpem, a Câmara de Lisboa.
Às tantas Maria de Belém diz qualquer coisa como "a maximização da interpretação da lei", blá, blá, blá, blá...
Estando eu num exercício de gestação de algum pensamento genial, quando, a jornalista, ouvindo os meus entendimentos, pergunta:
O que pretende dizer com "maximização da interpretação da lei"?
E lá explica Maria de Belém, qualquer coisa interpretada como:
não sei se sabe mas, em Portugal, qualquer pessoa pode colocar qualquer pessoa em situação de arguido, para tal basta escrever uma carta anónima, ora se não existirem critérios mais razoáveis para a interpretação da lei, isto é se:
constituído como "arguido" = culpado (maximização da interpretação),
sem sequer entrar em linha de conta a presunção da inocência, um dia destes poderemos encontrar-nos numa situação de ingovernabilidade.
Todos nós que temos amigos, todos nós que já ouvimos falar sobre o caso tal e tal, todos nós amigos do oficial de justiça que ouviu o sr fulano de tal a dizer qual, todos nós espantadíssimos com cambalhotas argumentativas e todos nós ainda mais atónitos com as considerações, geniais e inovadoras, dos actores políticos.

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quinta-feira, março 15, 2007

Por favor, não leia este texto

Imaginem que este texto não existe. Imaginem que este vídeo não existe. Imaginem um espaço em branco e, mesmo que impossível, um absoluto silêncio. Imaginem, ainda, um homem de idade que já tudo disse o que sobre o amor havia para se dizer. Imaginem que este homem além de o dizer, também o cantava. Descansem a imaginação, por favor.

Voltem a imaginar esse homem que tudo sabe sobre o amor. Imaginem que o concerto da minha vida será aquele que nunca irá acontecer – o homem que tudo sabe sobre o amor já não dá espectáculos. Imaginem que esse homem escreve letras que são poesias e também escreve poemas que por vezes são letras. Imaginem que esse homem teve como crítica ao seu primeiro livro seu «Depois de o ler, tive de fazer uma lavagem cerebral». Imaginem que esse homem continuou por mais 50 anos a escrever livros e canções. Imaginem que essa Obra foi candidata ao Prémio Nobel da Literatura pelo seu país. Parem de imaginar para construírem uma imagem do que foi pedido.

Imaginem uma voz. Uma voz simples e complexa, rouca e terna, quente para o amor e implacável com o mundo. Imaginem uma voz que é capaz de nos esclarecer o significado de uma palavra só por dizê-la, e imaginem ainda que, pronunciando a mesmíssima palavra, é capaz de nos dizer exactamente o seu contrário. Imaginem uma voz com as cordas vocais no coração. Imaginem que este texto não existe, imaginem que este vídeo não existe, mas não deixem nunca de saber que «A Voz» existe. E imaginem o absoluto silêncio para a escutarem: Senhoras e Senhores, Mr. Leonard Cohen

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