sábado, março 21, 2009

Poemas penhorados

a minha fábrica faliu

Agora a fábrica faliu,
e fiz eu um curso de informática
intensivo,
perdi o sol das manhãs, o ar, o rosto do entardecer,
frequentei o inglês do Wall Street Institute
intensivo,
e a fábrica faliu
enquanto um casamento se escoa pela cama abaixo
com um filho de três anos no infantário,
quarenta e sete funcionários despedidos,
sem funcionar,
além dos ordenados em atraso,

e eu com a alma em atraso
na corrida sem pernas de tanto caminhar
pelas ruas desta cidade que me enganou no salário,
o sal amargando-me os lábios,
apesar dos conhecimentos de informática,
dos jardins secretos do conhecimento
e de tantas horas a olhar a luz fria dum ecrã profundo,
o corpo arrefecendo no olhar colado aos números cabalísticos,
como sinais dos astros acesos nas noites de verão,
a fábrica faliu,

e eu que sonhei ter um carro de alto cilindrar o mundo
em vez deste utilitário em segunda-mão,
eu que sonhei ser respeitado pelas minhas ambições
até a casinha de campo no Minho litoral,
a fábrica faliu.

Estava tão bem a pagar o lento andar
neste suburbano que me come o tempo
de viver a prazo,
ainda se fosse num sítio decente
onde moram os gajos que eu conheço de vista há tantos anos
e que não trabalham no escritório das fábricas
que foram à bancarrota de quem mente, BMW!
Assim fiquei de costas voltadas para o mar, para a urgência,
porque a minha fábrica faliu.

António Ferra, “a minha fábrica faliu”, in A Palavra Passe, Campo das Letras, 2006, pág.33/34

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quinta-feira, março 12, 2009

Poemas que explodem
















urgente

As bombas matam porque sofrem de uma espécie de doença incurável
que as faz ganhar saúde quando as largam no ar
uma vez expostas à lei da gravidade
e por ela arrastadas para o mundo humano
as bombas precisam de explodir tal como uma criança precisa de urinar
até fazerem um lugar onde fiquem
que se não mova que seja
como um direito a isso
ao pé do deus que lhes deu comida

Mário Cesariny; "urgente", in Pena Capital, Assírio & Alvim, 2004, pág 146

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segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Poemas que ardem
















Quarto

Os posters, colados com fita-cola
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

José Luis Peixoto; "Quarto", in Gaveta de Papéis, Edições quasi, 2008, pág 37

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