domingo, março 21, 2010

Dia Mundial da Poesia, António Ferra


DIGITALIZAÇÕES

O digitalizador tinha formato digital,
digitalizava cerejas, mapas e flores
dispostas no centro do écran,
digitalizava desejos escondidos
na caixa negra tridimensional

digitalizava cenouras com pixeis,
nabos com cabeça de scanner,
e porque a fome é uma imagem sem programa
que perdura além da morte virtual
configurava sardinhas de papel
mais as batatas que não cabiam no seu prato.

Com desenhos digitais cheios de megas
Queria comer tudo com o rato.

António Ferra
Livro de Reclamações
Fabula Urbis, p. 42

Etiquetas: ,

Partilhar

sábado, janeiro 30, 2010

Agenda: António Ferra - livro de reclamações
















da contracapa::

Tanto verso, às vezes curto, a euro e meio
tanta sílaba dividida pelos cêntimos!
Vendem os poetas versos livres
ou as métricas saídas do paleio
onde se finge a dor que não se sente

(a poesia é caríssima)



António Ferra vai lançar no próximo dia 6 de Fevereiro pelas 17h30 o seu novo livro de poesia: «livro de reclamações». Depois do surpreendente «a palavra passe», este é um daqueles eventos que não posso perder.

Etiquetas: , , ,

Partilhar

sábado, março 21, 2009

Poemas penhorados

a minha fábrica faliu

Agora a fábrica faliu,
e fiz eu um curso de informática
intensivo,
perdi o sol das manhãs, o ar, o rosto do entardecer,
frequentei o inglês do Wall Street Institute
intensivo,
e a fábrica faliu
enquanto um casamento se escoa pela cama abaixo
com um filho de três anos no infantário,
quarenta e sete funcionários despedidos,
sem funcionar,
além dos ordenados em atraso,

e eu com a alma em atraso
na corrida sem pernas de tanto caminhar
pelas ruas desta cidade que me enganou no salário,
o sal amargando-me os lábios,
apesar dos conhecimentos de informática,
dos jardins secretos do conhecimento
e de tantas horas a olhar a luz fria dum ecrã profundo,
o corpo arrefecendo no olhar colado aos números cabalísticos,
como sinais dos astros acesos nas noites de verão,
a fábrica faliu,

e eu que sonhei ter um carro de alto cilindrar o mundo
em vez deste utilitário em segunda-mão,
eu que sonhei ser respeitado pelas minhas ambições
até a casinha de campo no Minho litoral,
a fábrica faliu.

Estava tão bem a pagar o lento andar
neste suburbano que me come o tempo
de viver a prazo,
ainda se fosse num sítio decente
onde moram os gajos que eu conheço de vista há tantos anos
e que não trabalham no escritório das fábricas
que foram à bancarrota de quem mente, BMW!
Assim fiquei de costas voltadas para o mar, para a urgência,
porque a minha fábrica faliu.

António Ferra, “a minha fábrica faliu”, in A Palavra Passe, Campo das Letras, 2006, pág.33/34

Etiquetas: , , , ,

Partilhar