sábado, abril 26, 2008

Marketing

Foi nos anos oitenta, como por aqui já se disse, que a música, e podemos mesmo dizer a arte em geral, começou a viver muito da imagem. Mas não foi só o meio artístico que começou a olhar para a imagem como uma necessidade. Se é certo que os videoclips eram obrigatórios, as capas dos livros e dos discos eram cada vez mais pensadas para serem apresentadas como obras de arte, também os políticos perceberam que para além da ideologia fazia falta uma imagem e um conceito que passasse bem nos media (a eleição de um actor de Hollywood para presidente dos EUA é um bom exemplo). Ou seja, o marketing entrou nas mais diversas áreas da vida pública.
Não se pense, porém, que associar marketing a livros, discos, candidaturas ou eventos desportivos é um mal em si mesmo. Para os puristas que vêem no marketing uma deturpação da verdade que eles e só eles conhecem talvez seja. Mas é bom não esquecer que até os críticos da economia de mercado rendem-se a ele - um conceito do marketing puro e duro (a diferenciação do produto) está presente em todas as obras saramaguianas: a capa é sempre amarela e o título vai buscar a inspiração aos diversos tipos de documentos escritos (manual, ensaio, memorial, história, etc). Na política, penso que Portugal teria perdido um bom primeiro-ministro como Cavaco, se este não tivesse uma boa máquina de marketing por trás. Digo isto porque considero que enquanto pessoa, Cavaco Silva é reservado demais para o tipo de político que os cidadãos da altura exigiam. E, em meu entender, isso ter-lhe-ia sido fatal.
Em suma, a utilização do marketing para melhorar e apresentar como mais apelativa uma ideia ou produto é sempre vantajosa para estes. O que realmente é preocupante é quando o marketing tenta obviar a má qualidade do produto ou ocultar a inexistência da ideia. Mas isso nem o melhor marketing do mundo o consegue.

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sábado, maio 26, 2007

As verdades do marketing

N, director de marketing, tem conhecimento que a revista X, está prestes a publicar um dos seus importantíssimos artigos anuais:
as 20 melhores empresas para se trabalhar em Portugal.
N, um homem que defende a máxima: o que é verdade hoje, não é verdade amanhã, resolve fazer uma busca na Internet e chega à conclusão que é aconselhável um perfil um nadinha idêntico à empresa Y, top 20, do ramo, na Conchichina. Nada de copy/paste da tal empresa Y, da Conchichina, afinal o perfil da sua empresa é um perfil revolucionário.
Para já, a sua empresa, de lucros nada exorbitantes - diria até mesmo, pouquíssimos perante a escala mundial do ramo - tem a virtude de não explorar os seus colaboradores - trabalhadores ou funcionários são termos fora de moda - pois dá-lhes a possibilidade de gozarem, por ano, 28 dias de férias - bem, quando falamos em 28 dias de férias, são 28 dias úteis, não seja cínico, Caríssimo Leitor - e para além dos 28 dias de férias - úteis, não esqueça - possibilita-lhes uma vida de família normal, bem como a possibilidade do fortificante "imersão de trabalho em família", ou ainda o extravagante subsídio de incentivo à Natalidade de indivíduos nada individualizados, ou até a obrigação de desinibições individuais no ambiente de trabalho: 5 minutos de "esbofeteamento", ou a inevitável obrigação - esta arrumará com os concorrentes - de todos os colaboradores praticarem Ioga.
Depois das ideias individualizadas passou a pasta ao embeiçador da coisa, o individualista mor: E, webdesigner, e toca de enviar a Newsletter para a revista X.
O título era deveras eclesiástico: X, a empresa que abre as portas ao descanso.
N sentiu-se um homem feliz, e pelas 21h30, partiu, de consciência limpa, para mais um fim-de-semana em indivíduo.
Terça-feira de manhã, acordou bem-disposto, disse a si mesmo: hoje, apesar de tudo, vou ser feliz! e, depois dos individualismos resolvidos, sai de casa com a sensação que o mundo é um lugar compensador.
E, em cima da mesa de escritório, lá está ela, a revista X, e um título tão inesperado: as 20 melhores empresas para se trabalhar em Portugal.
Sim, a sua empresa, era uma das individualizadas e o engenho era todo seu.
TOC, TOC, TOC
- Entre - disse um tanto enfadado.
B entrou, sentou-se e exclamou:
- Escuta lá, onde é que estavas com a cabeça? Tu sabes quantos emails já recebi hoje?
A directora de Recursos Humanos, hoje, particularmente, parecia-lhe uma indivídua ligeiramente individualizada.
- Que queres dizer com isso?
- Para a próxima, quando nos colocares em rankings, avisa, p'ra eu tirar férias. Sabes quantos indivíduos perguntaram se já tinha aprendido a última posição de Ioga? E quantos perguntaram se podiam tirar férias o resto do ano? E imaginas quantas se tinham direito ao subsídio da Natalidade em caso de trigémeos?
Mas, naquele dia, nada o faria perder as estribeiras, naquele dia o mundo era um indivíduo perfeito.
- querida, fecha o email e diz à Margarida que durante esta semana vais estar em formação, vais ver que toda a gente se acalma. E agora desculpa, mas tenho uma reunião importante com o Lucas, parece qu'o homem precisa de um produtor para uma nova trilogia: o Indivíduo das Estrelas.

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