quarta-feira, abril 14, 2010

Porque a memória não paga imposto (ainda)

Faz hoje um ano. José Silos Franco, mestre oleiro, homem do povo, deixou a cultura nacional mais pobre com a sua morte.
Há um ano atrás o Carlos Malmoro lembrava-o neste blogue recordando as suas memórias de infância e a magia de uma visita à Aldeia Típica do Sobreiro.
José Franco dizia muitas vezes que pelo dom e fortuna, que atribuía a Deus, se considerava “o homem mais feliz do Mundo”. Embora pecador e descrente assumido nessas matérias, gosto da memória e das pessoas. Gosto de recordar os encontros com José Franco. Gosto do gosto que ele tinha em conversar com quem o visitava. Gosto de o recordar sentado na sua adega a tocar acordeão depois de um almoço. Gosto de o ver num 10 de Junho, em Viseu, a receber de Jorge Sampaio, presidente da República, mais uma condecoração. Gosto do prazer que ele tinha na sua vida, frenética e criativa até onde conseguiu. José Franco tinha, de facto, um dom, o de sonhar à frente do seu tempo e tornar esses sonhos realidade usando duas ferramentas simples, as suas mãos. Se hoje há um espaço onde a cultura saloia da primeira metade do século XX esteja protegida é na sua casa, na sua obra e na genialidade que transformou um sonho numa montra do que já fomos. A Aldeia Típica do Sobreiro permanece ainda hoje como um livro aberto que cada leitor pode folhear e saborear sem ter de pagar. À imagem do seu criador.

Etiquetas:

Partilhar

quinta-feira, abril 17, 2008

Canal Memória

Nos anos oitenta assisti, serenamente, à morte de um dos maiores sportinguistas que eu conheci.
Lembro-me de assistir a provocações intermináveis entre ele e um benfiquista, também falecido na década de 80.
O fanatismo de um e de outro era tão agressivo que, sem nunca se terem agredido fisicamente, experimentaram longos períodos de arrelia e acabrunhamento.
Eram duas velhas raposas matreiras e arranjavam sempre uma desculpa inefável para regressarem à sua actividade preferida: provocação mútua.
Como as querelas tinham sempre como pano de fundo o resultado desportivo do benfica ou do sporting, as segundas-feiras e/ou quintas-feiras eram sempre bastante animadas.
Anos a fio os ouvi: resmungando, vociferando, agredindo-se verbalmente e ameaçando nunca mais falar com um pérfido indivíduo, um fulano que não sabe ver o óbvio, a cegueira, compra ou mal das vísceras, de um certo árbitro.
Jamais ousei rir perante tais diálogos, umas vezes mais criativos que outros, mas sorri demasiadas vezes.
Hoje, se fossem vivos, estaria um extremamente contente e outro a espumar de raiva.
Dedico-lhes esta mensagem, não sem uma ligeira dúvida, se por algum motivo existe vida para além da morte, talvez eles estejam, neste preciso momento, a rirem-se à gargalhada, mas de mim.


Etiquetas: , ,

Partilhar

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Carta aberta ao Pai Natal (Reloaded)

Imagem via: Little Bow Peep

Querido Pai Natal,

Já não lhe escrevo faz muito tempo mas espero que ainda se lembre de mim. Eu sou aquele André que em Dezembro de 1975 lhe pediu pelo Natal uma matraca e uma bandeira do MRPP. É. Sou eu mesmo! Mas espero que desta vez não se engane, porque em 75 deixou-me na chaminé uma bandeira do CDS e uma moca de Rio Maior. Também foi divertido mas acabou por me criar alguns problemas de integração no infantário da Voz do Operário. Mas como águas passadas não movem moinhos, estou-lhe agora a escrever para que interceda directamente junto do Menino Jesus porque já não sei mais a quem recorrer. O que agora me aflige e me faz dirigir-lhe esta carta é o caso das minhas queridíssimas tias continuarem a presentear-me todos os anos por esta época festiva com carradas da bela da peúga branca da Feira do Relógio™, e até o senhor Padre Freire já foge de mim depois da Missa do Galo. O ano passado ainda o consegui apanhar quando ele ia a sair de fininho pela porta lateral da Igreja, lá pela zona dos velórios. Foi mesmo ali que o senhor Padre me comunicou que era a última vez que aceitava os meus donativos para os pobrezinhos no Natal. Segundo ele, já não há pobrezinhos em Lisboa a necessitar de peúgas brancas – e também já não há espaço livre na Secção Peúgas Brancas do armazém da Diocese. Aproveito para o informar que foi o próprio senhor Padre Freire que me deu esta ideia de escrever ao Pai Natal, e até me disse que lhe podia dizer que vinha da parte dele. É que no ano passado quanto estava a abrir as minhas prendas não consegui conter a emoção e desatei num pranto quando constatei que mais uma vez tinha para cima de três dezenas de packs com as mais diversas variedades da bela da peúga branca – e todas 100% poliéster. As minhas tias também ficaram muito emocionadas e agarramo-nos todos a chorar. O que me preocupa é que quando as minhas tias me telefonaram este ano para acertar os últimos preparativos da consoada não houve nenhuma que não tenha recordado com saudade aquele momento de emoção colectiva que vivemos no Natal passado. Temo, portanto, que este ano as minhas tias sejam ainda mais generosas do que nos últimos natais. Mas a minha maior preocupação é que o senhor padre Freire me excomungue de vez da Santa Igreja quando me vir chegar mais uma vez à Missa do Galo carregado de sacos e mais sacos de peúgas brancas.

Peço-lhe encarecidamente que transmita ao Menino Jesus que se ele fizer o obséquio de acabar com este meu sofrimento prometo nunca mais gozar com os jeitinhos amaricados do “nosso” Primeiro-ministro. Diga-lhe mesmo que eu não me importo que me ofereçam daquelas caixinhas pirosas de madeira que se vendem nas lojas chinesas – pelo menos não há- -de faltar lenha para o inverno.

Bem… por agora é tudo. Espero que o buraco do ozono não esteja a afectar muito a neve no pólo norte e que o senhor Pai Natal e as Donas Renas de se encontrem todos bem de saúde.

Desde já lhe agradeço toda a sua melhor atenção para este meu melindroso problema.

Atenciosamente,
André

Etiquetas: ,

Partilhar