Com o ambiente que se vivia em Lisboa naquele período pós-revolucionário, ainda hoje tenho alguma dificuldade em encontrar uma explicação verosímil para o facto de não ter sido arrastado pela avalanche trotskista-maóista-marxista-estalinista-leninista que varria o país de lés-a-lés. Como já meditei bastante sobre o assunto, a melhor explicação que encontrei para a minha miraculosa bem-aventurança baseia-se naquela soberba aptidão que as crianças têm para reconhecer um aldrabão à distância. Deverá ter sido graças a esta prodigiosa capacidade infantil que nunca fui enrolado pelas falinhas mansas do camarada Mário Soares, assim como também nunca caí naquela estória de que o Álvaro Cunhal tinha vindo da ú érre ésse ésse.
Já nesse tempo não era preciso ser-se muito inteligente para se depreender através da fisionomia do secretário-geral do pê cê pê que ele só podia ter vindo directamente da Roménia, mais precisamente, da Transilvânia, e era, com toda a certeza, um parente bastante próximo do Conde Drácula. Mas o pior aconteceu quanto contei esta descoberta ao meu colega de carteira que nunca perdia os desenhos animados checos do Vasco Granja. Chamou-me logo de fascista. Depois de lhe ter partido uma régua na cabeça, não perdeu tempo a denunciar-me à camarada professora.
Sabendo de antemão que a camarada professora era comunista, temi seriamente pela minha segurança, e já imaginava o COPCON a entrar por ali dentro e a levarem-me para ser interrogado pelo camarada Otelo. Só descansei depois da camarada professora me ter chamado e procurado convencer que se os comunistas fossem de facto vampiros, nunca defenderiam um sol a brilhar para todos nós.
Para não complicar ainda mais as coisas fiz um ar bastante arrependido, igual àquele que via os pides fazer na televisão, mesmo tendo a consciência que aquilo do “sol brilhará para todos nós” não passava de mais um inteligente estratagema dos comunistas para esconder o facto de andarem mesmo a sugar o sangue das criancinhas. Felizmente que não tinha contado toda a verdade ao meu colega delator, caso contrário teria sido o meu fim. Pois nem sequer a camarada professora conseguiria arranjar uma boa desculpa para o facto do camarada Álvaro Cunhal, tal e qual um bom vampiro, dormir sempre em local incerto, e desconhecido do mais comum dos mortais.
Apesar de até àquele dia sempre que alguém me perguntava o meu partido eu nem sequer hesitar – levantava o braço esquerdo e de punho cerrado gritava, “éme érre pê pê” –, a verdade é que foi a partir daí que me apercebi que morava dentro de mim um ainda desconhecido gene direitista que, para meu próprio bem, teria de aprender a dominar.
[continua…]