segunda-feira, maio 09, 2011

Passo Coelho pede uma maioria clara

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quinta-feira, março 29, 2007

Filhos do cê dê ésse [Parte 2]

Com o ambiente que se vivia em Lisboa naquele período pós-revolucionário, ainda hoje tenho alguma dificuldade em encontrar uma explicação verosímil para o facto de não ter sido arrastado pela avalanche trotskista-maóista-marxista-estalinista-leninista que varria o país de lés-a-lés. Como já meditei bastante sobre o assunto, a melhor explicação que encontrei para a minha miraculosa bem-aventurança baseia-se naquela soberba aptidão que as crianças têm para reconhecer um aldrabão à distância. Deverá ter sido graças a esta prodigiosa capacidade infantil que nunca fui enrolado pelas falinhas mansas do camarada Mário Soares, assim como também nunca caí naquela estória de que o Álvaro Cunhal tinha vindo da ú érre ésse ésse.

Já nesse tempo não era preciso ser-se muito inteligente para se depreender através da fisionomia do secretário-geral do pê cê pê que ele só podia ter vindo directamente da Roménia, mais precisamente, da Transilvânia, e era, com toda a certeza, um parente bastante próximo do Conde Drácula. Mas o pior aconteceu quanto contei esta descoberta ao meu colega de carteira que nunca perdia os desenhos animados checos do Vasco Granja. Chamou-me logo de fascista. Depois de lhe ter partido uma régua na cabeça, não perdeu tempo a denunciar-me à camarada professora.

Sabendo de antemão que a camarada professora era comunista, temi seriamente pela minha segurança, e já imaginava o COPCON a entrar por ali dentro e a levarem-me para ser interrogado pelo camarada Otelo. Só descansei depois da camarada professora me ter chamado e procurado convencer que se os comunistas fossem de facto vampiros, nunca defenderiam um sol a brilhar para todos nós.

Para não complicar ainda mais as coisas fiz um ar bastante arrependido, igual àquele que via os pides fazer na televisão, mesmo tendo a consciência que aquilo do “sol brilhará para todos nós” não passava de mais um inteligente estratagema dos comunistas para esconder o facto de andarem mesmo a sugar o sangue das criancinhas. Felizmente que não tinha contado toda a verdade ao meu colega delator, caso contrário teria sido o meu fim. Pois nem sequer a camarada professora conseguiria arranjar uma boa desculpa para o facto do camarada Álvaro Cunhal, tal e qual um bom vampiro, dormir sempre em local incerto, e desconhecido do mais comum dos mortais.

Apesar de até àquele dia sempre que alguém me perguntava o meu partido eu nem sequer hesitar – levantava o braço esquerdo e de punho cerrado gritava, “éme érre pê pê” –, a verdade é que foi a partir daí que me apercebi que morava dentro de mim um ainda desconhecido gene direitista que, para meu próprio bem, teria de aprender a dominar.

[continua…]

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sexta-feira, março 23, 2007

Filhos do cê dê ésse [Parte 1]

Fui um daqueles afortunados que teve a oportunidade única de poder aprender a ler as primeiras palavras nas instrutivas paredes de uma Lisboa pós-revolucionária. Ainda me lembro [como se fosse hoje] da imensa satisfação que senti quando consegui ler a primeira frase completa. Nesse inolvidável dia, ia a sair da escola pela mão da minha progenitora, e consegui ler em voz alta a seguinte inscrição pintada numa parede exterior da Basílica da Estrela: “O Povo libertou Arnaldo Matos e libertará todos os antifascistas presos”. Recordo que o meu pai pareceu algo surpreendido, mas a minha mãe ficou tão feliz que nos dias que se seguiram sempre que me iam buscar à escola, à saída, virava-me para a Basílica e não me cansava de repetir aquela ladainha. Alguns dias mais tarde, ao sair da escola, ia naquela parte do “ e libertará”, quando senti uma valente carolada. Compreendi de imediato que o meu progenitor considerava que já estava na hora de eu começar a aprender a ler outro tipo de preposições.

Dizem as más-línguas que naquela época não se aprendia nada nas escolas. Maior falsidade não pode existir. Posso garantir que quando saí da escola primária [para além do Avante] já sabia de cor todas as letras e músicas do Zeca, Ermelinda, Adriano, Sérgio, Branco, e companhia limitada. E sou uma testemunha viva que o sistema de ensino era tão exigente e revolucionário, que também aprendíamos precocemente a entoar todos os pregões revolucionários; a traduzir todas as siglas das inumeráveis forças políticas, sociais, sindicais, militares e paramilitares; e a associar a complexa iconologia existente na época às respectivas [des]organizações.

E estão redondamente enganados todos aqueles que ainda pensam que a exigência educacional que incorria sobre as crianças pós-revolucionárias se cingia exclusivamente a áreas como a literatura, música ou a pintura. Também nos foi facultada uma formação de excelência na área das ciências exactas. Por exemplo, éramos compelidos a dominar a ciência matemática precocemente, pois tudo o que se passava à nossa volta era decidido após uma breve votação de braço no ar. E mais! Com a inflação galopante que se fazia sentir, se queríamos continuar a lanchar todos os dias as deliciosas bolas de berlim com creme, quentinhas, que se vendiam na cantina da escola, acompanhadas de um refrescante e super-nutritivo Pirolito, tínhamos de conhecer bem os processos inflacionários para poder negociar com os nossos pais todos os tostões das nossas semanadas.

[continua…]

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