quinta-feira, março 17, 2011

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega de seres petróleo,
ração composta ou matéria reciclavel.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam os homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.


Wisława Szymborska in "Alguns gostam de poesia", Ed. Cavalo de Ferro, 2004, p.211-212

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sábado, março 21, 2009

Poemas apolíticos

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega de seres petróleo,
ração composta ou matéria reciclavel.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam os homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.


Wisława Szymborska in "Alguns gostam de poesia", Ed. Cavalo de Ferro, 2004, p.211-212

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Poemas bomba















O terrorista – ele observa

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são treze e dezasseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar,
outros para sair.

O terrorista atravessa a rua.
A distância salvaguarda-o do perigo
e pode observa tudo como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo – ela entra.
Um homem de óculos escuros – ele sai.
Jovens de jeans – eles conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
O mais baixo – está com sorte, sobe para uma scooter,
mas o mais alto – ele entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma rapariga com uma fita verde no cabelo.
De repente, fica oculta por um autocarro.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Terá sido estúpida a ponto de entrar, ou não?
Logo se vê, quando retirarem os corpos.

Treze e dezanove.
Parece que mais ninguém quer entrar.
Em contrapartida sai um careca obeso.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e quando faltam dez segundos para as treze e vinte -
ele volta a entrar por se ter esquecido de umas reles luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como demora a passar.
Está na hora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba – ela explode.

Wisława Szymborska


in «Wielka liezba»

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quarta-feira, abril 11, 2007

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega de seres petróleo,
ração composta ou matéria reciclavel.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam os homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.


Wisława Szymborska in "Alguns gostam de poesia", Ed. Cavalo de Ferro, 2004, p.211-212

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