sexta-feira, julho 25, 2008

Fotos geniais [1]


Picasso, Cannes, 1965 - Arnold Newman

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quinta-feira, dezembro 14, 2006

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [4]

Em «Guernica», as figuras apresentam-se todas num único plano, segundo uma perspectiva planimétrica, e num clássico esquema tríptico: faixa direita, faixa central, faixa esquerda. Do lado direito, está um homem de braços levantados. No centro, o cavalo e as luzes. Do lado esquerdo, o touro e uma mãe com a sua criança no colo.

[clique na imagem para observar os pormenores]

Pablo Picasso,"Guernica", óleo sobre tela, 349,3 x 776,6 cm
Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, Madrid

As personagens impõem ao espectador uma direcção na leitura da obra, da direita para a esquerda – quando a leitura [no mundo ocidental] se faz no sentido inverso. Este movimento lateral das figuras em direcção ao touro é contra natura, um obstáculo à leitura da obra. O mais natural é o observador ler a obra da esquerda para a direita. Esta direcção pode ter sido induzida na obra, por o artista ter tido em conta o espaço onde o mural iria estar exposto, junto de uma espécie de rotunda, onde os visitantes iriam ter a tendência para se movimentarem no sentido inverso ao dos ponteiros de um relógio.

A composição é unificada pela correspondência simétrica dos flancos, touro e homem de braços levantados, e pelo triângulo com vértice na lamparina. O vértice do triângulo encontra-se situado ligeiramente à esquerda do centro da tela, o que conjuntamente com a lâmpada acentua o movimento lateral das figuras para a esquerda.

A parte superior da tela está mais livre que a parte inferior, o que permite uma visualização mais clara da expressões das cabeças das figuras. A parte inferior da tela tem bastantes formas que se confundem umas com as outras, sendo a parte inferior esquerda mais densa, acentuado o caos.

[continua...]

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [1]
estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [2]
estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [3]

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terça-feira, dezembro 12, 2006

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [3]

Era previsível que a Exposição Internacional de Paris de 1937 iria arrastar milhares de visitantes ao Pavilhão da República Espanhola, e que estes não poderiam ser encarados como os habituais visitantes de museus. Desde logo, o Pavilhão não era um museu, e era esperado um público bastante diversificado. Estes elementos foram considerados por Picasso quando da criação do mural, e deve ser levado em conta na análise da obra.

«Guernica» foi criada com o intuito de ser contemplada, em simultâneo, por um vasto número de pessoas – daí a sua dimensão colossal, a redução das gamas de cores ao branco e preto, e as intencionais similitudes com um grande cartaz. A obra pretendia produzir efeito sobre as pessoas [muitas pessoas].

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«Guernica» a 11 de Maio de 1937

Com «Guernica» Picasso pretendia denunciar ao mundo a morte trágica de inocentes em resultado da guerra e da crueldade humana. Esta obra é um apelo do artista à acção dos homens - um alerta contra a passividade perante os problemas da humanidade.

No quadro, o espaço adquire características ambíguas de interior/exterior. Como se o artista cubista se movesse por entre exteriores e interiores, e voasse sobre os telhados, observando o nefasto acontecimento de todos os ângulos possíveis e imaginários.

[continua...]

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [1]
estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [2]

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segunda-feira, dezembro 11, 2006

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [2]

Segunda-feira, 26 de Abril de 1937. Em plena guerra civil espanhola, a Legião Condor da Luftwaffe (Força Aérea Alemã), ao serviço do General Franco, sobrevoa Guernica de forma a reconhecer os melhores alvos. Era dia de feira na cidade santa basca, e os sinos da Igreja de Santa Maria alertaram a população para um ataque iminente. O bombardeamento começou às l6:40 horas e continuou, ininterruptamente, durante três horas.

“Aviões de combate em voo rasante apareceram sobre o horizonte, vindo em ondas, despejando toneladas de bombas e projécteis incendiários. Os esquadrões alemães eram protegidos pelos aviões de combate italianos no ataque, o primeiro coordenado em comum pelas forças de Hitler e Mussolini. Então vieram os aviões de combate da Luftwaffe que metralharam tudo o que se movia. Guernica foi arrasada num dia; milhares de pessoas morreram ou ficaram feridas pelas bombas, granadas e chamas. Ninguém pôde avaliar o número exacto das vítimas, porque a população da cidade aumentara por ser dia de feira.”
Herbert Mitgang, New York Times, 24/07/2000: “Em Guernica, determinação para perdoar, mas nunca esquecer”

«Guernica, a mais antiga cidade das províncias bascas e centro da sua tradição cultural, foi ontem completamente destruída por um ataque aéreo dos rebeldes. O bombardeamento da cidade desprotegida, situada muito atrás da linha de combate, durou exactamente três quartos de hora. Durante esse tempo, uma forte esquadrilha de aparelhos de origem alemã – aviões de bombardeamento Junkers e Heinkel, assim como caças Heinkel – lançou ininterruptamente bombas, algumas com 500 quilogramas, sobre a cidade. Simultaneamente, aviões de caça em voo picado rasante atiravam com metralhadoras sobre a população que tinha fugido para os campos. Num curto espaço de tempo, toda a cidade estava em chamas.»
Times, Londres, 27 de Abril de 1937

A 28 de Abril de 1937 surgem publicadas as primeiras fotografias do ataque no jornal comunista L’Humanité. Picasso fica profundamente chocado com as imagens que são veiculadas pela imprensa, e a 1 de Maio de 1937, inicia no seu atelier em Paris os primeiros esboços do que viria a ser o seu quadro mais famoso: Guernica.

Nestes primeiros estudos Picasso inclui muitos temas e símbolos já familiares na sua obra: o cavalo, o touro, e a mulher que segura o candeeiro [com o perfil de Marie-Thérèse].






















Guernica (estudo), Paris, 7 de Maio de 1937; Lápis em madeira, 53,7x64,7 cm; Centro de Arte Reina Sófia, Madrid

Já se nota que o artista tem uma ideia bastante predefinida da obra, mas ainda está longe da obra-prima final, que terminaria em pouco mais de um mês, e após 45 estudos preliminares.

«O que pensa que é um artista? Um idiota, que só tem olhos quando pintor, só ouvidos quando músico, ou apenas uma lira para todos os estados de alma, quando poeta, ou só músculos quando lavrador? Pelo contrário! Ele é simultaneamente um ente político que vive constantemente com a consciência dos acontecimentos mundiais destruidores, ardentes ou alegres, e que se forma completamente segundo a imagem destes. Como seria possível não ter interesse pelos outros homens e afastar-se numa indiferença de marfim de uma vida que se nos apresenta tão rica? Não, a pintura não foi inventada para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo.»
Picasso

[continua...]

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [1]

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quinta-feira, dezembro 07, 2006

estórias por detrás da tela: «Guernica» revisitada [1]

João Cutileiro: «Picasso foi um escultor que "vendeu a alma" à pintura»

No início de 1937, quando em Espanha se vivia intensamente uma devastadora guerra civil, o Arquitecto Catalão Josep Luís Sert visita Picasso em Paris com o intuito de o desafiar a pintar um grande mural para o pavilhão republicano espanhol na Feira Internacional de Paris – com inauguração prevista para o mês de Maio desse mesmo ano.

Apesar do apoio de Picasso à causa republicana espanhola, o artista mostrou alguma relutância em aceitar o convite. Em primeiro lugar porque, até à data, nunca se tinha dedicado a um trabalho específico de propaganda política; e também, porque a dimensão do projecto era algo que não era concebível aos seus próprios olhos.

No passado, ocasionalmente, Picasso já tinha dado mostras na sua obra das suas opções políticas, e contribuía monetariamente na ajuda aos refugiados políticos espanhóis, mas sempre de forma reservada e confidencial – apesar do seu núcleo de amigos estar indubitavelmente conotado com a causa republicana (esquerda antifascista e anarquistas).

Ainda no início do ano de 1937, Picasso escreve o texto «Sonho e Mentira de Franco», onde se refere pela primeira vez, de forma explícita, à Guerra Civil Espanhola:

«Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos da flores, gritos das árvores e das pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, das camas, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam uns após outros, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos, que cozem na grande caldeira, e da chuva de pássaros que inundam o mar.»

Na mesma altura, Picasso compõe um trabalho gráfico satírico, tipo cartoon, com o intuito de ser reproduzido em formato postal. Estes postais são vendidos em conjunto com uma folha do texto «Sonho e Mentira de Franco», como forma de angariar fundos a favor da causa republicana. Tal como «Guernica», este postal satírico também de “lê” da direita para a esquerda.

[CLIQUE NA IMAGEM PARA OBSERVAR OS PORMENORES]

Não é difícil de vislumbrar neste postal imagens que nos remetem para «Guernica»: um cavalo tombado; uma mãe que chora a perda do filho: uma mulher de braços erguidos aos céus; o sofrimento; a crítica implícita a Franco; a "ausência" de cor...

[continua…]

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