Sofá vazio
Na véspera, ele disse que iria ele ver o meu pai. A minha mãe anuiu e eu concordei. Quando regressou, vinha tenso e pálido, com o rosto cerrado e disse baixinho, quase inaudível, julgo mesmo que nós as duas, baixitas e expectantes, lhe pedimos que repetisse o que dissera. Soltou então, como um sopro, como eu julgo ter partido o meu querido pai, Faleceu e repetiu Já faleceu. Abraçámo-nos os três e chorámos ali mesmo, no átrio do hospital, baixinho, abraçados sempre como se um fôssemos. E depois, vieram os amigos, a igreja e as flores, e depois, deixámos-te, meu querido pai, naquele sítio onde ainda só uma vez fui, e depois vieram dias e noites e mais dias. Dias há em que penso ainda que irei encontrar-te de sorriso aberto, sentado no teu sofá de eleição, esperando-nos ansioso, pela hora do almoço, refilando com uma notícia da televisão ou presenteando-me com uma peça de fruta, escolhida com o teu carinho único, Toma, escolhi para ti. A casa tornou-se enorme sem ti e o sofá continua vazio.
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