quinta-feira, julho 02, 2009

Autoridade e emancipação

O pensamento único conduz a uma visão democraticamente pouco saudável. Entendo por pensamento único a imposição de um determinado modelo de uma forma autoritária, cuja implementação conduz a necessidades de controlo burocrático e/ou policiamento social o que se traduz na construção de uma sociedade altamente regulada e asfixiante, com a perda de ganhos em termos de liberdade (seja ela de expressão, comportamento,...). Normalmente os defensores de um certo pensamento tentam impô-lo como forma de comportamento geral, o que se traduz numa perda evidente de liberdade e necessidade de adopção de comportamentos semelhantes, sob pena de "exclusão" daquele mundo, seja ele laboral, social, familiar, etc.
Há alguns meses que escrevo aqui sobre a vigilância necessária à comunicação social. A comunicação social portuguesa (abundam exemplos lá fora muito interessantes) transformou-se, nos últimos anos, numa arena de combate de teorias económicas e de um "evangélico" pensamento neutro. Os seus defensores surgem como meros moços de contabilidade e que apenas nos estão a ajudar a fazer contas de mercearia, sabemos, porém, que para além de tentarem ensinar-nos a fazer contas, os ditos defensores (das boas contas) apenas pretendem impor-nos um determinado modelo social, político sob a máscara exemplar de boas e más aprendizagens económicas. Penso que a economia neutra seria, aliás, um excelente mote para uma peça dramática de Shakespeare.
O problema do pensamento único reside no facto de pensar que a sua solução é a única possível, outra solução é a ruína e a devastação, daí que se ergam fantasmas apocalípticos e que olham para todas as outras formas de pensamento de forma sobranceira e arrogante, porém a sua principal "virtude" é a razão da sua decadência.
Se olharmos para a história da humanidade há múltiplos exemplos de uma forma de actuação cíclica do pensamento único: imposição de um modelo de sociedade (político, económico, cultural, social), desenvolvimento do modelo, controlo policial, militarizado ou burocrático, excessos e decadência do modelo, emancipação, novo conflito entre modelos, regresso ao início.
Estamos assim perante dois modelos antagónicos em permanente contronto: o autoritário (único) e o emancipatório.
O modelo emancipatório é, ao contrário do que dizem os defensores do modelo autoritário, a alavanca de mudança da sociedade, pois é a emancipação do controlo que alavanca a mudança. Contudo, como a liberdade e pluralidade de pensamento e de opções são bandeiras inquestionáveis, o modelo perde eficácia em longas negociações. Esta sua perda de eficácia tem como consequência a implementação de modelos autoritários e de burocracias de controlo. A única forma do modelo emancipatório continuar vigilante é a aliança estratégica como um modelo autoritário socialmente mais justo (esta afirmação é muito questionável).
Assim, a luta continua!

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segunda-feira, junho 29, 2009

A Inevitabilidade das Revoluções

"As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias."

Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'
Fonte: http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200903151700

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