terça-feira, dezembro 02, 2008

A ilusão colectiva

Jacob Weisberg apoia a sua obra “A tragédia Bush” num modelo de análise teoricamente pouco ortodoxo, mas estimulante: Shakespeare, Henrique IV, parte I e II (o príncipe Henrique, filho de Henrique IV, é um jovem problemático, conflituoso, preguiçoso e com relações complicadas com arruaceiros, ladrões, mentirosos compulsivos e alcoólicos (Falstaff). Henrique IV elogia frequentemente o filho do seu maior rival, lamentando a fraqueza de carácter do seu filho).

A obra de Weisberg examina:
- a árvore genealógica do 43.º presidente dos EUA e assinala duas personalidades distintas: os Bush e os Walker. Os prudentes, amistosos e aristocráticos Bush e os novos-ricos, agressivos e arruaceiros Walker. Traça as contradições entre as duas facções familiares.
- o percurso político de Bush Sénior e a ansiedade e impaciência de Bush Júnior em ultrapassar o excesso de prudência e diplomacia do pai. A ausência de Bush Sénior do seio familiar e a sua aversão ao conflito.
- a conversão de Bush Júnior aos evangélicos e a sua utilização política da religião.
- a trajectória política do responsável pela ascensão de Bush Júnior: Karl Rove, o arquitecto (ou o génio do mal?). As ambições republicanas de Rove para além de Bush.
- a trajectória política do responsável pela política externa de Bush: Dick Cheney (a manipulação maquiavélica da personalidade de Bush) e as ambições políticas de Cheney para além de Bush (reforço do poder executivo e secreto do Presidente).
- o “monstro amável”, a sua “esposa” política - um caso de anulação de pensamento/preparação política - Condi Rice e as cinco doutrinas de política externa de Bush.
- os precursores históricos de Bush ou a autoridade de aliados históricos circunstanciais.
- a tragédia (não interiorizada por Bush) de um homem que se recusou/recusa a pensar, apenas porque reflectir invoca a dúvida e a reconsideração, algo de extraordinariamente negativo para a apologia da autoconfiança (ou falta dela?) autista, apoiada numa forte necessidade de afirmação através da acção. Contudo, a verdadeira dimensão da tragédia Bush surge em 2006 num choro compulsivo em público.

Weisberg invoca o crítico literário inglês do sec. XIX, William Hazlitt, explicando assim a dimensão da catástrofe:

“Ele era negligente, dissoluto e ambicioso; - preguiçoso, ou maldoso. Em privado, parecia não ter a mínima ideia das normais decências da vida, que sujeitava a uma espécie de soberana licenciosidade; nos assuntos públicos, parecia não ter a mínima ideia de qualquer regra do bem ou do mal, apenas da força bruta, com uma ligeira camada de hipocrisia religiosa e aconselhamento do arcebispo. Os seus princípios não se alteravam em função da sua situação e deveres (…). Henrique, como não sabia governar o seu próprio reino, decidiu fazer guerra aos vizinhos. Como o seu próprio direito ao trono era duvidoso, reivindicou o trono de França. Como não sabia exercer o poder, que acabara de lhe cair nas mãos, com qualquer fim útil, procurou de imediato (um recurso de soberania barato e óbvio) fazer todo o mal de que era capaz.”
WEISBERG, Jacob (2008). A Tragédia Bush. Lisboa: Bizâncio, p. 291.

A obra de Jacob Weisberg esclarece as razões (ou ilusão colectiva?) da política externa/interna de Bush Júnior, contudo a abordagem exclusivamente política ignora outro tipo de abordagens complementares e importantes para uma compreensão mais completa da era Bush.

Weisberg constrói o carácter de Bush através dos seguintes vectores: “renascimento” evangélico, resolução do alcoolismo, afirmação pessoal, autoconfiança autista, visão religiosa da realidade: o bem e o mal contra a negação da subtileza, reflexão e dúvida. A tragédia de George W. Bush, do povo americano e da humanidade em geral assenta numa explicação aparentemente simples: a liderança dos EUA, durante 8 anos, foi assegurada por um homem mal preparado, com um complexo de inferioridade mal resolvido e com uma análise narcisista da história e da realidade (que tanto Cheney como Rove manipularam de uma forma patética). O que nos faz levantar sérias dúvidas em relação ao estado actual da política e dos homens que a constituem (alguns exemplos na Europa são assustadores).

O livro lê-se de um trago e o seu modelo de análise não deixa de ser consistente. A sua principal fragilidade reside na sua abordagem exclusivamente política, ignorar todos os outros interesses instalados à volta do poder e que contribuem para uma explicação mais aprofundada e analítica dos factos, constrange o estudo e levanta sérias dúvidas quanto à simplicidade de tal abordagem.

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sexta-feira, outubro 10, 2008

As nossas melhores ideias são dos outros

"'Não viverei fora de mim,
Não verei com olhos alheios;
Meu bem é o bem, meu mal é o mal.
Quero ser livre - não posso ser
Enquanto aceitar o padrão dos outros.
Atrevo-me a traçar a minha estrada.
Aquilo que me agrada será Bom,
Aquilo que não quero - indiferente,
Aquilo que odeio é o Mal. É isso;
Doravante, se Deus quiser, rejeito
O jugo da opinião de outros. Serei
Leve qual pássaro & vivo com Deus.
Encontro-o no fundo do coração,
E ali discuto sempre a sua Voz.
E livros, padres, mundos não estimo.
Quem diz que o coração é guia cego? Não é.
Meu coração jamais me fez pecar;
Pergunto de onde vem o seu saber.
Nas trevas, nas mais doces tentações,
Ou em meio ao perigo, nenhuma vez,
Aquele Anjo meigo errou em seu oráculo.
A curta agulha aponta sempre o norte;
O passarinho lembra do seu canto,
E esse Vidente sábio nunca erra.
Nunca lhe ensinei o que ele me ensina;
Sempre que o sigo, ajo como devo.
De onde veio esse Espírito Onisciente?
Veio de Deus. É a própria Divindade.'

Não é métrica, mas um argumento gerador de métrica o que confere validade a um poema, segundo Emerson. O fragmento anterior contém o sotaque autêntico da religião norte-americana. Sendo a voz de Emerson, o poema me fascina, mas fico angustiado, quando imagino os versos sendo declamados por meus contemporâneos pentecostais, batistas e mórmons. Como emersoniano devoto, reconheço que, ao formar a mente dos Estados Unidos, Emerson criou uma salada azeda para acompanhar o prato de carne. Falava de si mesmo como um experimentador, sem um passado às costas. A Velha Europa foi por ele rejeitada, em favor do Adão norte-americano. Apesar de os Bush serem semi-analfabetos, sua visão de que os Estados Unidos devem impor noções de ordem ao universo apresenta um elo implícito ao emersonianismo.
(...)
Nenhum outro crítico destacou, de modo tão produtivo, a utilidade da literatura para a vida. Centenas de aforismos emersonianos repercutem em mim, mas nenhum o faz mais do que este, encaixado no primeiro parágrafo de 'Autoconfiança':

'Em toda obra de gênio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados: voltam para nós com uma certa majestade alienada.'"

BLOOM, Harold (2004). Onde Encontrar a Sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva, p. 229-230.

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