Nós os vencidos do catolicismo que não sabemos já donde a luz mana haurimos o perdido misticismo nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé não é que no mais fundo não creiamos mas não lutamos já firmes e a pé nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora depois de ouvir como a samaritana que em espírito e verdade é que se adora Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos e no homem que dizem que criaste se temos o que temos o jogamos «Meu deus meu deus porque me abandonaste?
RUY BELO (1933-1978) Todos os Poemas (II volume) in Poemário, Assírio e Alvim, dia 27/02/2008
Por simples coincidência este é o poema de dia 27/02 do Poemário da Assírio e Alvim. A minha leitura da referida obra é pouco ortodoxa, passo à frente sempre que um poema me diz pouco e leio outro de outro dia, estou dias sem ler, dias há que leio uns tantos de seguida, portanto uma leitura... heterodoxa?
Já lá vão cerca de dois meses de leitura de poesia e este é, até agora, o poema que mais me tocou, juntamente com Canção de O'Neill (3/01) e Juntei-me um dia à flor da mocidade de Assis Pacheco (25/01).
A minha interpretação do poema do RUY BELO, diga-se de passagem que RB é um dos meus poetas preferidos do séc. XX, juntamente com O'NEILL:
Os sem fé buscam a necessidade do transcendente na cultura, aqui representada pela música. A busca do transcendente pertence a uma esfera privada. A busca da transcendência na cultura porque já não se acredita na vida celeste e sim na terrena. A angústia do homem perante a perda da fé e o abandono a que ficou votado? Onde é que o homem poderá encontrar a verdade? Terá o homem consciência de que é necessário encontrar uma verdade, qualquer que ela seja? Terá o homem consciência de que esse encontro/desencontro com a verdade pertence à sua esfera privada, daí a sua responsabilidade, estritamente pessoal, numa vida com/sem sentido? Será o homem sem fé, e com a consciência da necessidade da busca de transcendência, um vencido do catolicismo?
Há neste poema uma coincidência interessante, Carmina Burana é das únicas obras de música erudita que eu consigo ouvir e, para ser correcta, apenas algumas passagens.