sexta-feira, novembro 20, 2009

Se ao menos ainda fosse possível acreditar na ciência...

Na sua crónica de hoje do jornal SOL José António Saraiva tece longas considerações sobre provincianismos e urbanidades, em desfavor dos primeiros e em pura exaltação étnica dos segundos.
Segundo o director do SOL, no PS venceu o provincianismo e a megalomania; e a sedução pela metrópole fez-se sentir através de certas práticas indesejáveis (imputadas ao provincianismo): inveja, compadrio, amiguismo e assalto a todas as estruturas do poder e do Estado.
Será que o Estado alguma vez foi uma entidade acima de qualquer suspeita? Não terá a sua construção formal sido sujeita a um objectivo visível e a um oculto? Sendo o visível a regulação dos interesses entre os indivíduos e o oculto nem todos terem a possibilidade de defender os seus interesses?
O Estado liberal não deixa de ser uma invenção genial, uma espécie de "Vaticano" nacional e nos seus meandros sempre se construíram legitimidades e imperativos nacionais. Não podemos, no entanto, deixar de ser generosos, alguns interesses foram sendo construídos tensionalmente a favor das classes com menos acesso ao poder.
Contudo, quanto à verdadeira função do Estado, aguardemos pela história para que se faça justiça à verdade, ou para percebermos de como os embustes foram, ao longo dos tempos, apresentados com a aparência política de defesa dos interesses de todos. Não é preciso tecer aqui grandes considerações acerca deste assunto, basta estudarmos um pouco da história ocidental do século XIX e XX.
O que estamos a assistir na comunicação social portuguesa é a uma velha luta entre facções que sempre estiveram mais ou menos presentes, as elites (urbana e a provinciana) sempre pretenderam defender a sua gente, com as mesmas armas, mas com aparências ligeiramente diferentes; tal como qualquer grupo se pretende defender dos seus mais directos concorrentes.
Os alinhamentos concertados e estratégicos sempre se construíram através de uma teia entre interesses políticos, económicos, provincianos, aristocracia, amigos dos provincianos, nos quais o deslumbramento pelo poder é muito mais do que um fenómeno exclusivo de uma facção política. Afirmar isto seria, provavelmente, sofrer de esquizofrenia da parcialidade e pretender reescrever a história recente de Portugal, aliás a "face oculta" dos mega processos da justiça são as lutas intestinas pelo poder. A sobrevivência nos meandros do poder requer uma grande capacidade de movimentação entre o visível e o oculto, simultaneamente, a aparente "má moeda" vai sendo substituída pela “boa moeda”. A justiça sempre compactuou com este estado das coisas e não é agora que o irá deixar de fazer, as histórias surreais que rodeiam os processos judiciais são máscaras hediondas de injustiça.
Parece-me que o problema oculto da actualidade não é o enriquecimento à custa dos contribuintes, algo de bastante respeitável, o problema reside não só no facto de os “provincianos” não serem hábeis na arte de fazer de conta que não são ricos, mas também no esquecimento de que a usurpação, a morte e a devastação sempre conviveram artisticamente com a árvore genealógica de qualquer família aristocrata.
Se JAS nos pretende explicar, seguindo aliás de uma forma bastante eficaz o modelo científico, que a sua teoria assenta em factos e os mesmos permitem construir uma teoria verdadeira, vamos fazer de conta que não conhecemos a famosa história do cientista que apresentou um artigo-embuste numa qualquer revista de ciência. Não é que o cientista em questão ficou indignado com a tal revista, pois o corpo editorial da mesma tinha sido incapaz de detectar a fraude? Depois desta história como é que poderemos acreditar que na ampla variedade da actividade humana não existem elites travestidas de provincianos e provincianos travestidos de elites? Sim, o grande problema da humanidade já não é não poder confiar nem nas elites, nem nos provincianos, o grande problema da humanidade é já não poder confiar na ciência...

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