quarta-feira, setembro 30, 2009

O espectro de Hamlet



1 - Reflexão inicial
O espectro de Hamlet continuará a surgir de quando em vez e a tentar explicar-nos o seguinte: a emoção é a alavanca da razão, apela para a criatividade humana através da dúvida e regenera a razão. Sofrer de falta de dúvida é o pior que pode acontecer ao ser humano civilizado (Freire), mas como a emoção é tendencialmente potenciadora de dúvidas torna-se, simultaneamente, a principal inimiga da Razão sempre desejosa de certezas e verdades imutáveis. A razão é o grande legado da modernidade, ao homem civilizado solicita-se a racionalização das suas dúvidas emocionais.
Shakespeare é um grande adepto do argumento: o que faz mover o homem é a emoção e não a razão, algo que todos os pensadores da modernidade tentaram refutar, alguns edificando sistemas criativos, mas que o dramaturgo inglês consideraria um nadinha esotéricos (Descartes, Kant, Hegel, Rousseau, Stuart Mill, Marx).

2 - Os fantasmas de Cavaco
As achas para a fogueira continuam. Ontem o PR deu um exemplo formidável de como uma emoção racionalizada (deslealdade) poderá provocar danos colaterais nas instituições de referência do Estado.
Cavaco nunca perdoará a Sócrates a aprovação do estatuto dos Açores o que para ele é racionalizado como deslealdade institucional.
Cavaco nunca perdoará a Sócrates outras deslealdades institucionais (Antunes, por exemplo, contraditório das suas afirmações).
Cavaco interpreta tais deslealdades como afrontas à sua autoridade, algo de intolerável.

3 - A autoridade da razão e os seus fantasmas
A razão autoritária tende a auto-flagelar-se, pois, por vezes, poderá aprisionar-se em pormenores mesquinhos em demanda da sua razoabilidade lógica, logo da sua autoridade.
Ontem Cavaco Silva tentou aprisionar-nos nos seus pormenores mesquinhos (confrontação da sua autoridade) e contribuiu para um desassossego geral muito particular.
Será que Cavaco Silva não estará devidamente preparado para gerir as conflitualidades e tensões inerentes à democracia?
Será que as suas irascibilidades farão parte de uma estratégia? Que estratégia?
Será que o PR pretende dizer-nos para vigiarmos o governo e as suas alianças futuras?
Ou será que o PR pretendeu tranquilizar-nos dizendo: estejam descansados meus filhos, vocês ainda não estão suficientemente preparados para perceberem o mundo, mas eu estarei cá para vos salvar.

Sinceramente tenho dúvidas (emocionais), mas considero que algures por aqui estarão os motivos (racionalizados) para as próximas lutas intestinas pelo poder. As próximas semanas serão particularmente emocionais, criativas e um nadinha racionais.
Afinal o velho bardo conhecia-nos de trás para a frente, da frente para trás e também para os lados.

Nota: Fiquei com uma certeza um nadinha mesquinha: afinal grande parte das notícias “fabulásticas” dos jornais são factos, mas cuidadosamente construídos.

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