quarta-feira, junho 24, 2009

A crónica da (ir)realidade

Alguém que se demarque numa qualquer área do pensamento (e não só) provoca a irremediável fama e a (des)necessária produção em série, incompatível com uma certa coerência/qualidade. Ao mesmo tempo que provoca, infelizmente, alguma saturação e previsibilidade no público leitor. As crónicas de Vasco Pulido Valente jogam com um certo cepticismo em relação ao ser humano em geral, o que é algo, ironicamente, de bastante religioso. Contudo, o seu cepticismo deverá ser articulado com o egoísmo e missão messiânica do intelectual. O intelectual é quem deverá iluminar os homens em geral, estando, de preferência, afastado deles. Assim, vê-se na contingência de falar sobre quem não acredita (homens/sociedade em geral) para se salvar, o que provoca a sua irremediável perda. O isolamento e o afastamento dos homens (conhece a realidade através dos meios de comunicação de massas) obriga-o a escrever sobre (ir)realidades. A (ir)realidade é, por isso, uma fábrica de criação de outras realidades, campo onde se movem actualmente os vários actores que opinam sobre a sociedade em geral, desde VPV, a Marcelo Rebelo de Sousa, a Miguel Sousa Tavares e a Pacheco Pereira, entre outros.
Todos, sem excepção, criaram uma rede de apoiantes e leitores que com eles convivem alegremente na construção de (ir)realidades e de factos políticos. Algum deles se aperceberá que os seus comentários poderão contribuir para a criação de ideias eficazes que ideologicamente poderão estar bastante longe dos seus propósitos e finalidades? (outra ironia). Os cronistas, são, afinal, seres humanos limitados a uma área do conhecimento e o culto da sua "autoridade" sob a análise da sociedade em geral deverá ser lida à luz das suas áreas de conhecimento e dos seus jogos de interesses (conflituais) com o poder mediático. Quando a influência dos media na sociedade se quebrar, para isso basta diminuírem drasticamente os efeitos da propaganda e do consumo, logo o paradigma económico criará outros profissionais tão necessários, quanto eles, para a implementação dos ideais económicos do momento. Os novos profissionais serão igualmente qualificados, mas igualmente descartáveis. Os cronistas e os intelectuais regressarão então à academia (e outras/outros), lugar(es) onde começarão a criar novas teorias sociais, económicas, políticas e culturais sobre pessoas que desconhecem. Bem, afinal entre a teoria e a prática há sempre certas dualidades, ambivalências e contradições.

Nota final: o meu comentário não faz a apologia de uma visão redutora da Universidade como defendem os neoliberais, que pretendem adaptá-la exclusivamente às necessidades da economia. O homem não se move apenas na esfera do trabalho, para além desta realidade outros interesses e outros sentidos preenchem a sua existência.

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