quinta-feira, maio 28, 2009

A caixinha das ideias

Nos últimos tempos considero a realidade que me rodeia bastante absurda.
É uma óptima ocasião para regressar às sanduíches de pepino.
"Algernon - Parece-me, tia Augusta, que não poderei ter o prazer de jantar consigo esta noite, como estava combinado.
Lady Bracknell - (de sobrolho carregado) - Isso não, Algernon. Causar-me-ia um grande transtorno. O teu tio teria de jantar no quarto. Felizmente já está acostumado.
Algernon - É uma grande maçada, e escusado será dizer que estou aborrecidíssimo, mas a verdade é que recebi um telegrama daquele meu amigo, o Bunbury, coitado, que está outra vez muito doente. (Troca um olhar com Jack). Dizem-me que é melhor eu ir.
Lady Bracknell - Que esquisito! Esse Sr. Bunbury deve ter uma saúde muito precária.
Algernon - Sim, o meu pobre amigo está mesmo inutilizado.
Lady Bracknell - Pois então deixa-me dizer-te, Algernon, que penso ser já altura de esse Sr. Bunbury decidir se vive ou se morre. É um absurdo estar a prolongar a questão. Nem eu concordo com a simpatia que modernamente se tem pelos inválidos. Acho-a mórbida. Sejam elas quais forem, não devemos encorajar as doenças dos outros. A saúde é o principal dever de cada um. Estou constantemente a dizer isto ao teu tio, mas ele, coitado, nem me ouve... está cada vez pior. Ficar-te-ia muito agradecida se pedisses da minha parte a Mr. Bunbury para te dar folga no sábado, pois conto contigo para te encarregares da música. É a última recepção que dou nesta época e quero qualquer coisa que anime a conversa, particularmente nesta altura em que todos já disseram o que tinham a dizer, e que, na maioria dos casos, era bem pouco.
Algernon - Vou falar ao Bunbury, tia Augusta, se ele se ainda encontrar consciente, e parece-me poder assegurar-lhe que ele estará bom no sábado. É certo que o problema da música não vai ser nada fácil de resolver. Bem vê, se se toca música boa, ninguém ouve; se a música é má, ninguém conversa. Mas podemos consultar o programa que já elaborei, se a tia quiser ter a maçada de ir comigo àquela sala por uns momentos.
Lady Bracknell - Pois sim, Algernon, obrigada. Foste muito previdente. (Levanta-se e vai atrás de Algernon). Estou certa de que o programa ficará excelente, depois de umas certas correcções. Não quero canções francesas. Isso é impossível. São consideradas inconvenientes e, de duas uma, ou as pessoas se escandalizam, o que é pires, ou se riem, o que é pior ainda. No entanto, a língua alemã parece-me muito respeitável, e estou convencida que o é. (...)"
WILDE, Oscar (1980). A Importância de Ser Amável. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 24-25.

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