segunda-feira, janeiro 07, 2008

Dos manuais escolares (2)

O programa, um autor e uma editora. Assim se faz um manual escolar. Esta visão simplista da elaboração de manuais não anda muito longe da realidade e serve apenas o intuito de clarificar os enormes espaços em branco que são deixados à mercê de cada um dos intervenientes: o autor quer publicar, o editor ganhar dinheiro com a publicação e no hiato entre os dois encontram-se milhares de alunos e de professores que posteriormente recebem os manuais e, por vezes, os acolhem como se da Bíblia se tratasse, sagrados e lapidares. Nada de mais errado. Cabe aos professores, apenas a eles, adoptar O manual entre os muitos ao seu dispor e também a eles cabe a tarefa intrínseca a todo o processo de ensino/aprendizagem de escolher, adaptar, seleccionar, decidir e rejeitar, se assim for o caso.
O recente estudo de Maria Regina Rocha prova que os manuais do 4º ano de Língua Portuguesa não estimulam a compreensão, contêm erros e atentados ao texto literário na febre de adaptação que atinge muitos dos autores dos ditos manuais. Nada de novo para quem está no ensino. Os manuais reproduzem-se que nem coelhos, há dezenas largas no mercado para cada uma das disciplinas e, quem lida com eles numa base diária, sabe que muitos têm incorrecções, erros, gralhas, não são estimulantes, criativos e rigorosos nas fontes bibliográficas, muito grave, portanto, ainda mais se tivermos em conta o advento da geração copy and paste, e ainda que uma grande parte, pelo seu desajuste e fragilidade, não têm sequer razão para ter passado da fase inicial de projecto. Imputar a culpa do insucesso escolar aos manuais parece-me excessivo e, certamente serei crucificada por isto, acusada de traição entre os pares e condenada à fogueira pelas editoras, provavelmente já o teria sido aqui, mas cabe-nos também a nós, professores, minorar os efeitos perniciosos dos manuais escolares, rejeitando liminarmente os que para nada servem e adaptando outros à realidade e necessidades educativas dos alunos para cumprir um objectivo único: ensinar.
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5 Comments:

Blogger cristina said...

Das editoras, percebo. Mas explica lá porque é que os professores haviam de te criticar... Não vais dizer que o professor defende o manual como lei suprema da sua aula, pois não?! Manuais sem erros e com actividades ricas são um excelente apoio, mas são apenas isso: um apoio! Há quem defenda outra posição?!

E já que aqui estou... ouvi hoje na rádio falar desse tal estudo que culpa os manuais pelo insucesso... Duas ideias me ocorram: ou estão a chamar estúpidos aos professores - que não saberão fazer uso correcto do manual - ou estão a admitir que os alunos (livre e espontaneamente) desatam todos a ler os manuais em casa (estilo livro de cabeceira)... Confesso que esta última me divertiu!

terça-feira, janeiro 08, 2008 1:17:00 da manhã  
Blogger Leonor Barros said...

Porque nem sempre são aceites críticas por parte dos professores.
Ainda em relação aos manuais, eu já disse que há professores que o fazem, eu própria já o utilizei, por vezes, mais do que gostaria, com parcimónia é certo e critério e também por uma questão de respeito aos pais, uma vez que o compraram e gastaram dinheiro com o dito, para felicidade das editoras. Obviamente, isto não implica utilizar textos inadequados ou tarefas mal elaboradas, há que seleccionar.
Chamar estúpidos aos professores não é novidade nenhuma, infelizmente.

terça-feira, janeiro 08, 2008 6:13:00 da tarde  
Blogger NancyB said...

Excelente, excelente. É óbvio q por parte do professor deverá haver essa postura.

quarta-feira, janeiro 09, 2008 8:44:00 da manhã  
Blogger cristina said...

Eu não acho que os professores não devam fazer uso dos manuais, nem sequer acho que o devam evitar! Têm é de o fazer com pés e cabeça, devidamente enquadradros, críticos e conscientes daquilo que estão a aplicar.

«Chamar estúpidos aos professores não é novidade nenhuma, infelizmente.» - mas achas que isso é uma hipótese real neste contexto?

Apesar de eu ter isso como interpretação possível, nem me parece que, desta vez, seja esse o objectivo. É mais uma questão de querer bradar alguma coisa de novo... e, com tanto entusiasmo, nem se dão ao trabalho de pensar realmente naquilo que estão a acusar. Tanto se acusam os professores, os pais, os alunos, as escolas, o meio, o Ministério... mas os manuais é uma novidade! Há, portanto, que anunciar a descoberta da pólvora e, de repente, deixa de ser importante que os manuais sejam aprovados pelo Ministério, sejam escolhidos pelas escolas e que sejam utilizados sob orientação dos professores...

quinta-feira, janeiro 10, 2008 7:57:00 da tarde  
Blogger leonor said...

Obrigada, Nancy


Cristina, chamar estúpidos aos professores é sempre uma hipótese nos dias que correm...
Para a opinião pública, a culpa dos manuais é uma novidade, de facto.

sexta-feira, janeiro 11, 2008 5:52:00 da tarde  

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