sexta-feira, agosto 03, 2007

Abaixo de cão

(Podes correr comigo pela praia fora, aqui ninguém nos vê, somos só nós e o mar,
saltas a meu lado como se fosses um pedaço de areia e vento,
uma estátua movente,
cão de água, anda daí comigo por esta noite dentro)


Manuel Alegre, Cão Como Nós, Lisboa, Dom Quixote.

Nesta época atoleimada há coisas que não consigo entender. Não entendo, por exemplo, por que é que o português é um ser tão gregário que não suporta uma clareira de areia à sua frente e procura a intimidade das conversas dos parceiros do lado na praia, não entendo como é que ainda há gente que não usa protector solar numa época em que os perigos das radiações solares são sobejamente conhecidos– e, sim, sou uma amante sem recuperação possível dos corpos bronzeados beijados pelo astro-rei- e pior do que tudo isto, não entendo que raio de gente abandona os seus animais de estimação para ir de férias e os descarta como se descartam fraldas de bebé sujas.
Aqui mesmo à porta de casa fui testemunha de um acto tresmalhado desses quando me deparei que o gato dos vizinhos que entretanto se fez meu, não me largava a porta e, ao procurar o paradeiro dos donos, verifiquei que o pobre animal ficara na rua sem alimento, enquanto os ditos se encontravam a banhos, indiferentes e tranquilos, presumo. Obviamente o bichano não passou fome, mas não teve bom fim alguns anos depois, apesar do carinho que lhe dediquei, e também por isso não consegui nunca mais olhar para os que se diziam ser seus donos com bons olhos. Por todos esses que têm animais e os deixam na rua ao abandono não tenho senão desprezo, um desprezo profundo que me leva a equacionar que raio de gente é esta, que não tendo sido tocada pelo carinho e amizade dos companheiros de quatro patas não sente o suficiente para os cuidar, estimar e respeitar e que perante as férias considera como possibilidade o abandono dos bichanos e fiéis amigos, brinquedos descartáveis como barbies descabeladas ou kens sem braços. Gente que não se deixa enlear pelo carinho não é gente.
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9 Comments:

Blogger mariana said...

concordo. eis porque não quero ter um cão ou um gato. já o porquinho da índia era um sarilho no verão, imagino uma dessas coisinhas maiores!

sexta-feira, agosto 03, 2007 11:08:00 da tarde  
Blogger Pedro Correia said...

Exactamente. Não posso estar mais de acordo.

sábado, agosto 04, 2007 4:17:00 da tarde  
Blogger ana vidal said...

"Gente que não se deixa enlear pelo carinho não é gente"

Grande frase, Leonor, com a qual concordo absolutamente.
É dramático e desumano o abandono dos animais domésticos (até porque os "donos" nunca pensam que, ao adoptá-los, estão a mudar-lhes os hábitos e a retirar-lhes para sempre os trunfos dos vadios para a sobrevivência, o que deveria ser ainda mais uma responsabilidade), mas a desumanização e o egoísmo já foram tão longe que também os velhos (os pais e avós, sim!!!) são deixados sozinhos em tempo de férias. E alguns nem se podem mexer, descer escadas, vestir e comer sozinhos, etc, por isso é quase um assassínio premeditado. Vi outro dia um documentário sobre isto e fiquei arrepiada. E passava-se em Portugal, este país de "brandos costumes". Revoltante.

domingo, agosto 05, 2007 12:32:00 da tarde  
Blogger r.porter said...

Caro amigo,
Existem pessoas que nem delas sabem tomar conta, quanto mais.
Um animal dá muito trabalho e quando chega a época de férias, todos os que têm animais que podem de alguma maneira estragar-lhes as férias, nem pensam duas vezes.
Porém deviam existir mais hotéis para animais, a preços mais acessiveis e devia de haver consciência dos donos, se têm cão e ninguém que olhe por ele, fazem férias em locais onde o animal também possa ir.
Tenho a certeza que os animais também precisam de férias.
Abraço

domingo, agosto 05, 2007 10:03:00 da tarde  
Blogger mariana said...

r.porter, inscrevo-me no 1º grupo. ainda assim tenho o bom senso de não ter um cão.

segunda-feira, agosto 06, 2007 11:39:00 da tarde  
Blogger cristina said...

Lembram-se disto:

http://uz.edupt.com/uzfiles/contra_abandono_funeral.mpg

...

Quanto às outras faltas de entendimento... E um chapéu?! Porque é que ninguém usa um chapéu, quando sabe de antemão que vai estar o dia todo ao sol?!

terça-feira, agosto 07, 2007 12:26:00 da manhã  
Blogger Carlos Malmoro said...

Como tu muito bem dizes, talvez o expoente máximo da «incivilização» dos portugueses seja este.

terça-feira, agosto 07, 2007 12:32:00 da manhã  
Blogger cristina said...

A propósito, lembrava-se um dia destes, citando Gandhi na tv, que:

«A GRANDEZA DE UMA NAÇÃO PODE SER JULGADA PELO MODO QUE SEUS ANIMAIS SÃO TRATADOS»

Sem queres estar, de modo algum, a desdenhar a causa, confesso que tal pretensão me soa demasiado demagógica...

terça-feira, agosto 07, 2007 12:45:00 da manhã  
Blogger Leonor Barros said...

Obrigada a todos pelos comentários.

sexta-feira, agosto 10, 2007 7:40:00 da tarde  

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