segunda-feira, abril 09, 2007

Florbela Espanca

Abrir os olhos, procurar a luz,
De coração erguido no alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!

Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem não nos ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!

Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!

Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?


Florbela Espanca, "He hum não querer mais que bem querer" VIII,
de "Charneca em Flor" (1930)


"Sonetos" de Florbela Espanca, numa daquelas edições de livros de bolso de grandes obras, foi talvez, não há muitos anos, o primeiro livro de poemas que li. Foi-me oferecido, aliás, acho que não tenho qualquer livro de poesia comprado por mim... Li-o do início ao fim um bocado por respeito a quem mo ofereceu. Não que me custasse, mas porque não estava habituada... precisava de um móbil...

Não percebo muito de literatura mas sabia o suficiente para conhecer a infelicidade dramática da vida da poetisa e o facto de isso se reflectir na sua obra. As tragédias e o desprezo pela vida, os amores e desamores - temas que à partida não me cativam... Talvez por isso, este soneto me tivesse atraído, não todo, mas os dois tercetos. Eu sei que numa fase final da sua vida houve um apaziguamento, também visível na obra, mas é, de um modo geral uma renúncia (mais ou menos serena), uma resignação... Este soneto começa mal, num contexto que cheira ainda ao culto de todo o negativismo que ensombrava a poetisa, mas os tercetos dão-lhe uma reviravolta que me prendeu a atenção. A mensagem não só não é negativa, como é mesmo positiva; não é de contemplamento nem resignação, é de acção e reacção. Ignorei o início do soneto e guardei comigo estes últimos versos mentalmente durante muito tempo... Merecem, por isso, que aqui sejam partilhados.

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1 Comments:

Blogger amok_she said...

«(...)Eu sei que numa fase final da sua vida houve um apaziguamento, também visível na obra, mas é, de um modo geral uma renúncia (mais ou menos serena), uma resignação»

Achas, mesmo, que houve esse apaziguamento e q o mesmo se reflectiu na sua poesia? Não me parece...e tb nc li a FE como resignada, ou como desistente... mesmo se, para muitos, o suicídio possa parecer desistência...

segunda-feira, abril 09, 2007 11:43:00 p.m.  

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