sexta-feira, março 19, 2010

Na morte do gato Hamlet

Morreu hoje, não se sabe ao certo a sua idade.
Morreu com contusões nos pulmões, uma das patas dianteiras e outras partes do corpo.
Talvez consequência de uma briga entre ele e outro qualquer felino ou outro animal de uma outra espécie.
O gato chamou-se Hamlet por na altura ser esta a personagem literária que mais fascinava a minha mãe.
- Discordo! A personagem literária que mais me fascina é o Iago.
- Na altura não era isso que dizias.
- A sério? Bem, talvez não tenhas razão.
- Mamãe, 'cê me dá um pouco de mingau?
[miau, miau, miau, miau]
O gato Hamlet pediu licença para o adoptarmos, bem assim como a uma das suas múltiplas esposas. O Hamlet era um felino polígamo, autoritário e guerreiro. Jamais deixaria que lhe ocupassem o território, uma vez dele, para sempre dele. Por isso impunha fidelidade à mulher que trouxe cá para casa, a gata Puka, uma gata muito ciosa da sua liberdade, independência e autonomia. No primeiro ano de residência em Vale do Gato, raramente permitia a nossa afectividade e em tempos de cio fugia do seu macho e procurava outros machos, ocasionais. A sua fidelidade era territorial, no sentido em que sempre regressava ao lar adoptado.
- Querida, não sei se não estarás a embelezar demasiado as coisas!
- Mamãe, seu Hamlet 'tá rijo, seus olhos tão vidrados. Mamãe, seu Hamlet parece rocha escarpada. Mamãe, seu Hamlet não brinca não, brinca não. Mamãe, socorre seu Hamlet vá, vem vamo no veterinário, vem vamo no qualquer lugar. Mamãe, MaaaaMããããeeeee!
Não sei se o veterinário lhe teria feito alguma coisa. A mãe defende sempre uma primeira tentativa de cura natural. Precisamos de dar um certo tempo ao corpo para se recompor. A minha mãe detesta instituições e a frieza tecnicista dos profissionais.
- Claro que detesto, têm uma solução técnica para a morte, não compreendem é que a sua solução técnica não cabe no ser humano.
- Que horror! Minha senhora vá-se curar! É uma irresponsável. Como pode dizer isso a uma rapariguinha? As profissões ligadas à área da saúde são fundamentais, ah, você é daquelas que defendem menos Estado, não é? Você é uma neoliberalista é o que é. Que seria de nós sem as instituições estatais, éramos abandonados aos bichos!
Hoje o meu irmão Pedro e o meu avô vão enterrar o gato Hamlet, o nosso macho. Como a minha mãe defende que nós não morremos apenas nos espalhamos pela natureza, parece que qualquer dia uma partícula de Hamlet alimentará o bichinho que adubará a terra que dará de comer à laranjeira e alimentará a laranja que será comida por mim.
- Maaaamããããeeeee, Inesinha tá dizendo que nós somo canibal!

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