sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Convidados assíduos

O Salazar e o Rei eram convidados assíduos e frequentes de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a podermos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o Sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.

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2 Comments:

Blogger patio said...

não concordando com a transmissão do poder por laços familiares esta República que vai comemorar 100 anos não tem razões para comemorar,começando pelo seu inicio.às vezes sinto-me baralhado será que valeu a pena matar aquelas pessoas?,ie, o que ganhámos com isso?já que matar alguém é um acto selvagem, ainda por cima o nosso chefe de estado.Dá que pensar não dá?

pedro oliveira
http://vilaforte.blog.com

sexta-feira, fevereiro 01, 2008 4:04:00 da tarde  
Blogger leonor said...

Nunca vale a pena matar alguém, Pedro, mas nada me demove de que a república é mais democrática e eu sou pela democracia sempre. Para falta dela já me chega o Sócrates e a Maria de Lurdes Rodrigues.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008 6:46:00 da tarde  

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