domingo, janeiro 27, 2008

Dez post´s sobre Economia (v)

Atrair investimento para Portugal parece ser uma vaca sagrada que todos os governos se comprometem a respeitar e a incentivar o mais que possam. Acontece que nem todos os investimentos são bons. Certas empresas dão menos retorno ao país do que os subsídios, apoios a infraestruturas e isenções fiscais que recebem enquanto estão cá.
Penso que o acima descrito já é suficientemente conhecido dos governantes, mas continuo-me a admirar que sempre que existe uma visita de Estado a um país paupérrimo e completamente fora dos nossos padrões de desenvolvimento e sociais se prometa a captação de investimento. O caso da China é paradigmático: embora seja um país emergente, que retorno espera Portugal de um investimento chinês, sabendo que lá um salário médio é de três cêntimos/hora e que os gestores que cometam fraude são enforcados?
Outra falácia é a discriminição positiva na fiscalidade, vulgo, menos impostos, para empresas que apostem no interior. Tenho para mim que se um investimento é decidido com base em menos cinco por cento de impostos sobre os lucros é um mau investimento. Porquê? Porque todo e qualquer investimento tem em vista gerar retornos muito mais substanciais e porque os custos de transporte das mercadorias até ao litoral, onde ficam situados os grandes polos de consumo ou as grandes plataformas de distribuição (cais, aeroportos) encarecem mais o produto do que esses cinco por cento de bónus fiscal. Um exemplo daquilo que digo: as empresas estabelecidas em Viana do Castelo pagam menos cinco por cento de IRC do que no resto do país (efeitos do «negócio do queijo limiano»). Para além disso, as empresas que se estabeleçam em Ponte de Lima não pagam derrama. No ano passado, o Ikea esteve para se instalar no concelho. O município até se propôs a ceder o terreno, a ajudar na formação aos futuros colaboradores e Daniel Campelo chegou mesmo a gabar-se em jornais nacionais do feito. Acontece que a fábrica do Ikea vai estabelecer-se em Paços de Ferreira. Porque viu que transmitir know-how a centenas de trabalhadores ficaria sempre mais caro do que utilizar o já existente, mesmo pagando mais um pouco mais de imposto.
Para finalizar, o investimento que nos interessa é o investimento ocidental: são investimentos como a Auto-Europa, que representa grande parte do nossas exportações e contribui de forma decisória para o nosso PIB enriquecendo o país, são investimentos como a Siemens, que entrou no mercado há alguns meses atrás para contratar dois mil engenheiros de uma assentada, reduzindo um pouco o problema dos licenciados sem emprego. Exemplos que se poderiam explorar: Portugal tem a mais antiga aliança do mundo com Inglaterra e há pouquíssimos investimentos britânicos em solo luso; Portugal tem tido sempre óptimas relações com os EUA, cede-lhe a Base das Lajes, e, no entanto, é residual o investimento da maior economia do mundo em Portugal. Mas o mais importante de tudo é que o país e as empresas portuguesas têm de começar a investir em si mesmos. Porque, se não forem as empresas nacionais a darem o exemplo e andarem sempre com a litania do «isto está mau/péssimo», que confiança terá um investidor estrangeiro para colocar um cêntimo que seja em Portugal?

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