quinta-feira, julho 12, 2007

Aschenbach dixit

E ali estava ela de novo diante dos seus olhos, a acolhê-lo ao desembarque, aquela praça de maravilha indiscutível e única, aquela brilhante combinação de obras arquitectónicas fantásticas que a república oferecia ao olhar rendido do navegante que se aproximava: o esplendor dedicado do Palácio e Ponte dos Suspiros, as colunas do leão e do santo à beira da água, o flanco em relevo do fabuloso templo, a perspectiva do portal e do gigantesco relógio.

Observando tudo isto, pensava para consigo que entrar em Veneza por terra, pela estação de caminho de ferro, é como entrar num palácio pela porta de trás e que jamais lguém se devia abeirar da mais inacreditável das cidades de outo modo que não fosse este, por barco, por mar alto.

Os jardins públicos ficaram para trás, a Piazetta surgiu ainda uma vez na sua graça soberana e desapareceu, depois desenhou-se a fileira grandiosa de palácios e, quando a esteira de água inflectiu o seu curso, irrompeu em delineado sumptuoso o arco do mármore de Rialto.

Haverá alguém que não tenha de reprimir um assomo de frémito, um secreto alvoroço, ao pôr o pé numa gôndola veneziana pela prmeira vez ou após uma longa ausência?

Isto era Veneza, a bela aduladora e suspeita - a cidade metade lenda, metade engodo para estrangeiros, em cuja atmosfera estagnada a arte florescia outrora, esplendorosa, e que inspirava aos músicos melodias embaladoras e lascivas. Ao aventureiro era como se o olhar bebesse de uma tal volúpia, como se o seu ouvido fosse envolvido por tais melodias.*

*in Morte em Veneza de Thomas Mann
fotos: minhas

A propósito de Veneza e de Morte em Veneza.
Obrigada, NancyB, pela inspiração para este post.

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5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Uma outra dimensão,invernal, mas muito poética,é a que nos dá Joseph Brodsky,em "Marca D'Água".


(fotografias fantásticas.)

quinta-feira, julho 12, 2007 7:03:00 p.m.  
Blogger LeonorBarros said...

A Veneza retratada na Morte em Veneza é minada pela epidemia, o odor é uma constante no livro que oscila entre a beleza e a decadência, acho que em paralelo à beleza de Tadzio e à decadência de Aschenbach. As minhas fotografias foram tiradas em Fevereiro mas com muito sol, como se vê, e portanto dão outro colorido ao texto.
Não conheço o livro de que fala, mas vou procurá-lo numa próxima.
Obrigada

quinta-feira, julho 12, 2007 7:48:00 p.m.  
Blogger VeraC said...

De nada my dear.

sábado, julho 14, 2007 8:45:00 a.m.  
Blogger ana v. said...

Veneza é uma emoção única, da qual talvez o auge seja a entrada na catedral de S. Marcos à hora exacta em que o sol, já poente, faz brilhar o ouro dos mosaicos bizantinos. Aconselho a todos que esperem por esta hora para entrar (pelo menos da primeira vez) na catedral, se quiserem passar por esta experiência mística. Não há rendilhado gótico que lhe chegue aos calcanhares...

Que saudades de Veneza!
Obrigada por estas imagens e este texto, que me lembraram a urgência de lá voltar.

Ana

segunda-feira, julho 16, 2007 12:59:00 a.m.  
Blogger LeonorBarros said...

Veneza, mesmo sem eleição, é uma das maravilhas do mundo :-)

segunda-feira, julho 16, 2007 9:31:00 a.m.  

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