sexta-feira, dezembro 30, 2005

Passeando pelos media

Pacheco Pereira, na Sábado desta semana:

«Os chineses já fazem correr rios de tinta, mas ainda vão fazer correr mares de tinta. (...) É assim quando se perde, e perder poder é o que acontece hoje na Europa todos os dias. (...) O poder dos chineses está à vista na mais remota aldeia de Portugal (...). Agora são as iluminações e enfeites de Natal, depois serão os electrodomésticos, os automóveis, os aviões, os satélites, as viagens espaciais. Nós ficamos com o nosso glorioso "modelo social"».

Não há dúvida, o regime chinês é um caso de sucesso ideológico. Os liberais louvam-no pelo crescimento económico e a competitividade; os comunistas não se atrevem a beliscar os camaradas do Partido Comunista Chinês. Já agora: o nosso modelo social pode ser mau e é seguramente reformulável. Mas eu prefiro-o a um regime de partido único, censura e prisões políticas, mesmo que isto faça com que a economia suba a 10 ou 15% por ano. Mas o problema deve ser meu...
- Ainda de Pacheco Pereira, é fundamental o seu artigo desta semana, no Público (transcrito no Abrupto), sobre Bento XVI, o Papa que está a devolver à Igreja a fundamental dimensão ideológica e intelectual.
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5 Comments:

Blogger Sílvia said...

Um país onde os trabalhadores são pouco mais que escravos, não pode ser um bom exemplo para ninguém. E se o é para Pacheco Pereira, vou ficar muito desiludida. Será que ele defende que em Portugal se retirem todos os direitos aos trabalhadores para que os produtos portugueses sejam mais competitivos ( ou seja, mais baratos)lá fora?

sábado, dezembro 31, 2005 12:52:00 da manhã  
Blogger André Carvalho said...

Filipe,

Concordo em absoluto com a tua opinião, por isso o problema não é só teu.

Eu só conheço este excerto do texto do JPP que nos deste a conhecer, mas parece-me que o JPP está a meter nos pratos da balança o nosso "glorioso" modelo social.

De facto ele tem razão... sem o saber. O nosso "glorioso" modelo social continua a pagar fortunas de pensões e reformas a quem não as merece e nem precisa delas. Este é que é o problema. Só que continua a pagar à geração dos pachecos pereiras, cavacos, guterres e soares. Nós vamos receber misérias embora tenhamos descontado toda a vida e muito mais tempo do que eles. Eu por exemplo, da forma que tenho vivido a minha vida, desconfio muito que não chegue ao 65 anos para receber uma reformas. A única forma de acabar com isto é regras iguais para todos. Se alteram para a frente, têm de alterar para trás, não podem ser as gerações futuras a pagar as crises enquanto eles continuam na "maior". Isso dos direitos adquiridos é uma treta que só funciona a favor deles. Quanto a mim já mexeram mais do que suficiente nos direitos dos trabalhadores, agora falta é mexer nos "direitos adquiridos" deles.[sobre este assunto fico-me por aqui para não entrar neste final de ano a pensar o quão mal este actual governo está a governar, mais as OTAs e os TGVs e do povo português parecer estar cego]

Não acho mesmo nada bem, por exemplo, que o PM num periodo destes ande a tirar férias de luxo. Antes ia para a neve em Espanha, agora já anda na Suíça. Antes ia para o Algarve no Verão, agora já vai para resorts em Africa. É um péssimo exemplo, pois ainda por cima continua com os jobs for the boys (coisa que tinha prometido nas eleições que iria acabar... como tinha prometido uma montanha de coisas que fez precisamente o contrário)

Voltando ao teu post...
sobre os chineses e a globalização, não me parece que a coisa seja assim tão simles. Com o surgimento de uma classe média na china, outros problemas político/sociais se irão começar a levantar a nível interno. Não há milagres! Nem sequer se pode falar só da China, pois a China também sofre a concorrência de outros países como a India ou a Coreia. O mercado tende a regular as coisas, e o que escapa a essa regulação os Estados fazem por alterar.

Uma coisa é certa, os Chineses podem fazer luzinhas de Natal e outras coisas mais, mas não fazem vinho do Porto, queijo da Serra e de Azeitão, alheiras de Mirandela, etc. Nem os chineses nem ninguém tem capacidade de fazer tudo, e tudo melhor que os outros.

Quanto ao Papa... não me interessa muito [mesmo nada] e do que conheço, não gosto.

sábado, dezembro 31, 2005 10:02:00 da manhã  
Blogger sabine said...

Filipe: Concordo contigo. O modelo chinês não é xemplo para ninguém (a não ser para aqueles empresários que pensam que vale tudo para tirar o máximo aos empregados e lhe dar o minímo.
O modelo europeu está em crise e a Europa tem a mania de imitar os vencedores (EUA, Japão à alguns anos atrás e China agora) mas seria péssimo importar o modelo chinês.

sábado, dezembro 31, 2005 11:12:00 da manhã  
Blogger Filipe Alves Moreira said...

Sílvia:
não vou ao ponto de dizer que Pacheco Pereira defende o tipo de regime chinês. Contudo, com tantos elogios vindos de tanta gente à sua competitividade, pasmo. Então aquilo é ou não é uma ditadura feroz que, como tal e antes de mais, deve ser criticada?

André:
Essa questão do fosso geracional parece-me cada vez mais certeira. É ver o que se passa, por exemplo, em certos sectores da função pública. Tome-se o exemplo do ensino: o sistema fez com que gerações de professores formados até há cerca de 10, 15 anos, tivessem entrada e carreira. Os outros, os novos, ficam de fora ou peregrinam pelo Pais. Mas os novos têm menos valor que os outros? Nem mais, nem menos. O que não há, é um sistema de mobilidade que premeie quem faça e evite as fossilizações.

sábado, dezembro 31, 2005 2:14:00 da tarde  
Blogger Filipe Alves Moreira said...

Quanto aos direitos adquiridos, na forma como têm sido equacionados, são, como Silva Lopes magistralmente disse, uma coisa altamente reaccionária. Sobretudo, repita-se, para as novas gerações.

Adenda: Pacheco Pereira na íntegra:

«Os chineses já fazem correr rios de tinta, mas ainda vão fazer correr mares de tinta. Penso até que será talvez a coisa sobre a qual mais se vai escrever nos tempos próximos, porque amarelos estamos a ficar todos. É assim quando se perde, e perder poder é o que acontece hoje na Europa todos os dias. A nossa velha e poderosa cultura, com que nos elogiamos todos os dias, não nos defendeu no Século XX da barbárie, e parece agora não nos defender da competição, a forma de poder típica do mundo globalizado. Para já. O poder dos chineses está à vista na mais remota aldeia de Portugal. Passa-se de noite e é só casas com luzes a brilhar no escuro, agora que as iluminações de Natal se tornaram baratas e acessíveies em qualquer loja chinesa. Nas cidades, os Pais Natal, feitos nalguma obscura aldeia do Schezucan, trepam pelos prédios acima gritando: "97% do mercado é meu". Agora são as iluminações e enfeites de Natal, depois serão os electrodomésticos, os automóveis, os aviões, os satélites, as viagens espaciais. Nós ficamos com o nosso glorioso "modelo social"»

sábado, dezembro 31, 2005 3:10:00 da tarde  

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