É a língua, estúpido!
Bernardo Soares, num passo do seu magistral Livro do Desassossego, disse que não percebia como é que os ocultistas sabiam as causas últimas do universo, e desconheciam a Língua Portuguesa. Há cavaquistas parecidos. Sabem como resolver os problemas do País. o que não sabem é escrever em Português: Haverão razões sérias para tamanho alvoroço?
Não. Nada que uma gramática não resolva.
Não. Nada que uma gramática não resolva.
Adenda a 29/12/2005: o "post" foi alterado. Este fica desactualizado.

11 Comments:
"Haverão" não é a terceira pessoa do plural do futuro do indicativo do verbo haver?
Já agora podias explicar porque é que está mal escrito? Muito obrigado.
Caro anónimo: o verbo "haver", quando, como é o caso, tem o significado de "existir", não tem propriamente um sujeito gramatical, pelo que se conjuga, sempre, na 3ª pessoa do Singular. "Houve muitos reis que promulgaram leis semelhantes", "há muitos políticos bem-intencionados", "haverá razões para tamanho alvoroço", etc.
Acho que o problema não é só a língua. Então não é que fui ao «Pulo do Lobo» chamar-lhes discretamente a atenção para o erro e para o gajo [que nem sei quem é] não ficar mal visto e os gajos publicam-me o e-mail mesmo depois de eu frisar que aquilo não era nenhum comentário. Mas que grandes tótós. Ainda por cima publicaram o meu comentário a dizer: «isto não é um comentário!» Isto só visto. ;)
Terna e eternamente agradecido pelos alertas.
Mal abro o bico, um batalhão de leitores - invariavelmente mais cultivados do que eu - puxam do manual e corrigem a sabedoria do cafre. Fazem bem.
Ainda assim, tomei a liberdade de digitalizar duas páginas.
Estão disponíveis aqui: http://pwp.netcabo.pt/tR9/gramar1.jpg e http://pwp.netcabo.pt/tR9/gramar2.jpg
É certo que a 3ª pessoa do singular o verbo haver é empregue na forma impessoal (houve, havia, haverá), etc.) A conjugação no plural, ainda que não usual, não viola nenhuma cartilha gramatical.
Para mais esclarecimentos, não deixe de comprar dois livrinhos - «Sobre formas de tratamento na língua portuguesa» e «Nova Gramática do Português Contemporâneo», ambos do Prof. Lindley Cintra - que respondem cabalmente à questão que parece levantar no comentário (a impessoalidade da 3ª pessoa no verbo haver), coarctando a conjugação do verbo «haver» à 3ª pessoa do singular. Por que razão o verbo haver, tomado em sentido existencial, como actualmente se lhe atribui, é considerado impessoal? Se me conseguir explicar isto, eu prometo corrigir o texto e expiar o meu pecado.
Cumprimentos,
Tiago G.
Deixa lá isso Tiago... comigo acontece-me o mesmo... com bastante frequência. ;)
Quanto à resposta, deixo-a ao Filipe, que é o purista cá da casa.
Já passei a bola Filipe... :)
Caro Tiago Geraldo:
Deixe-me começar por dizer-lhe que este "post" não deve ser visto como algo de diferente do que, na realidade, é: uma ligeira provocação de que também se fazem as campanhas eleitorais e a blogosfera. Quanto à questão em si, o problema, como, de resto, o Tiago aponta, não é com a conjugação do verbo, mas com o facto de, neste caso, tendo ele o significado de "existir", ser impessoal e, por isso, mandar a gramática que se conjugue apenas no singular. Porquê? Porque, neste caso, o verbo não tem sujeito, pelo que não vai concordar em número com o que não existe. Veja o que sobre isto diz o Prof. Lindley Cintra, na segunda obra que cita (e que eu fui obrigado, por formação, a conhecer e comprar), na página 535.O que pode ser difícil de explicar é por que é que, para o verbo "existir", a regra não é a mesma, pois o significado é o-o (se é que existem sinónimos perfeitos, o que é discutível...). Talvez por ser difícil perceber a diferença é que há cada vez mais pessoas a dizer "houveram muitas coisas que...", e frases afins. Agora, que a regra diz que,tendo o sentido de "existir", o verbo "haver" só se conjuga no singular, diz, e em qualquer gramática razoável o comprovará. De qualquer forma, repito, não faça disto um "casus belli", até porque, como se vê pela mesma obra e página do Prof. Cintra acima citadas, mesmo grandes figuras como Camilo Castelo Branco ou Machado de Assis incorreram em erro. Camilo (isto não nota o prof. Cintra, mas noto eu), com a particularidade cómica de, num folheto intitulado "Os críticos do Cancioneiro Alegre", ter zurzido num escritor brasileiro que tinha usado mal o verbo "haver", quando, no próprio "Cancioneiro Alegre", o próprio Camilo tinha infrigido a regra...
Cumprimentos
P.S: Espero que o bom senso,que, a acreditarmos em Descartes, é a coisa do mundo melhor partilhada, chegue para que toda a gente perceba que o título deste "post" é um jogo com a frase feita "é a economia, estúpido!", e não qualquer alusão pessoal...
E ainda queriam acabar com os exames de Português...
Pois pois Filipe... conta-me estórias. ;)
Nem de propósito. Machado de Assis é um dos meus autores favoritos.
Mesmo assim, e aproveitando para agradecer o esclarecimento, não me convenci a mudar o post.
Com os melhores cumprimentos,
É, Filipe, parece que uma boa gramática não chega para resolver... Agora só me lembro daquelas coisas como "errar é humano, mas repetir o erro é estupidez" ou "o pior cego é aquele que não quer ver"... mas não sei como dizer isto sem ferir susceptibilidades... Força, Filipe, estamos contigo! Fizeste o que podias...
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