sexta-feira, novembro 02, 2012

Espelho meu, espelho meu

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quarta-feira, junho 17, 2009

Pelos Caminhos de Portugal



As cegonhas reinam na paisagem, os seus ninhos oram são demonstrativos de uma relação homem-natureza amigável, ora não.
Largar a auto-estrada e reconhecer este Portugal, uma experiência inesquecível.

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segunda-feira, abril 13, 2009

São Brás de Alportel e as Novas (Velhas) Religiões

Coreto, Estói

Homenagem a um poeta popular, São Brás de Alportel

Palácio de Estói

Enfeites nas ruas, São Brás de Alportel

Igreja Matriz, São Brás de Alportel




Cartaz na Igreja matriz, São Brás de Alportel


Pousada, São Brás de Alportel

São Brás de Alportel é o retrato de certas idiossincrasias.
O novo e o velho convivem, teimosamente, alheios à sociedade do conhecimento e a outras crenças mascaradas de benesses sociais.
A religião tenta recuperar, teimosamente, uma sociedade descrente.
Os novos infiéis insistem na sua recuperabilidade e assistem às festas religiosas, tendo em conta uma certa herança, uma certa tradição, um certo pensamento metafórico "quando eu cá cheguei isto já cá estava", um certo olhar no cantor popular da ocasião.
Os novos infiéis são espectadores atentos de outras religiões.
No canto mais escondido da praceta um outro português assiste à procissão, abanando a cabeça, pensando pela milésima vez no estado do país e naquela gentinha ignorante. Tal português formou-se numa outra igreja, igualmente dada a fidelidades, cujo pilar é o conhecimento, um conhecedor aprofundado de outras tradições, outra língua, outra cultura, um expatriado vivendo na sua própria pátria; uma amalgama especial, habilmente formatada numa nova igreja, apologista de uma passividade conhecida, sonhando com um emprego estatal, pouco dado a ouvir ou quiçá questionar o conhecimento popular, um conhecimento repleto de outro lixo tradicional, ultrapassado, avesso ao progresso e à ciência; tal português ainda acredita, piamente, na validade eterna do conhecimento científico, numa imprensa livre e nos conteúdos fixos noutras eras, mas a continuar a validar o encher/despejar da escola.
Do alto das novas igrejas, os novos bispos falam séria e acertadamente, os seus servos abanam a cabeça repleta de conhecimento inútil com pouco espaço para pensar criticamente, concordando acerrimamente no estado calamitoso de um certo país, na ignorância generalizada, enfim num país que lhes é alheio.
Às digníssimas crónicas dos novos bispos, estrategicamente colocadas nos jornais nacionais e internacionais, alguns atribuem uma classificação algo duvidosa, uma certa tragédia algo cómica.

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sábado, abril 11, 2009

Pelos caminhos de Portugal

Centro Histórico, Faro


Um artefacto histórico
Centro Histórico, Faro


Cerro da Vila, Vilamoura

Imagens habilmente negociadas com uma máquina fotográfica Canon, um artefacto algo genioso.

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quarta-feira, dezembro 31, 2008

eu fui a miranda ver os pauliteiros...

Buonas nuites mos dê dius...

No último fim-de-semana do ano, tivemos direito ao primeiro festival de Inverno em Terras de Miranda: Geada 2008. Dizia assim a organização:
A 1ª edição do GEADA terá como objectivos principais: festejar e divulgar a cultura, a língua e as tradições de Inverno das Terras de Miranda [...] Pretende-se [...] que todos os visitantes e participantes levem algo mais que uma recordação, mas antes uma experiência, que sintam a motivação de fazerem parte integrante de uma cultura tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante, tentando percebê-la por dentro e não só a estudando.
E assim foi!...

Chegada a Miranda com gelo (não derretido!) na estrada - caminho difícil, hora tardia, muito tempo no carro e muita vontade de dançar...

«Estamos todos no Cartolinha, mesmo ao lado da Sé e da fogueira. É só seguir o som das gaitas.»

A porta do bar abre-se a muito custo, tal é a enchente de gente no pequeno espaço. No piso de baixo tocam as gaitas e os bombos. De volta dos músicos, todos cantam, todos aplaudem, todos criam o seu espaço próprio de movimentação. No piso de cima, recebem-se os participantes, conversa-se ao redor dos copos na mesa, salta-se e baila-se o que permite o espaço e o soalho... que ameaça ceder sobre quem baila em baixo. Os músicos vão-se revezando, vão trocando de instrumento e a alegria e a animação duram noite dentro.

A "polémica" matança é motivo de reunião dos participantes - apesar da cidade, das paisagens e do enquadramento histórico - natural serem também aliciantes alternativos. As alheiras e os chouriços abrem as grandes refeições conjuntas que restabelecem energias.
Os workshops de pauliteiros, de gaita e de percussões, aliados à palestra sobre o mirandês completam o leque de tradições mirandesas ao dispor do participante.

Os concertos da noite, em espaço amplo, perdem alguma cumplicidade e espontaneidade da véspera, mas ganham dimensão e possibilidade de resposta mais enérgica do público. O pingacho, a saia da carolina e o passeado [danças tradicionais mirandesas], também munheiras, rumbas e passodoble, a par dos saltos, da agitação e da alegria que simplesmente se solta ao som da música sem dança predefinida.

Uma deslocação às aldeias vizinhas possibilita o enquadramento "natural" de mais algumas tradições. A Velha e o Carocho de Constantim não estavam no programa, mas foram uma alteração de última hora muito bem-vinda.

E a festa termina em beleza, de volta dos enchidos e do caldo quente... derretendo o gelo... sempre com uma gaita a tocar!


... Que dius mos dê buonas nuites!

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quarta-feira, setembro 12, 2007

... e venceu o Iberfolk!

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A aldeia de Sortelha ganhou nova vida neste fim-de-semana. Na entrada da muralha, o palco ocupa quase metade da praça. A um canto um bar improvisado por detrás de uns fardos de palha. Em redor do telefone público, uma banca transforma-se numa cozinha. Os cafés e os artesãos recebem os visitantes de braços abertos. Por trás da escola primária nascem dois chuveiros com vista para o vale... Pelas imediações, a Malcata e o Côa oferecem percursos naturais com observações acompanhadas de fauna e flora locais. À noite, a junta recebe projecções de vídeo e, mesmo ao lado, o castelo é cenário de sessões de contos. Os átrios são espaço de workshops que, em colaboração com os grupos que actuam à noite, introduzem passos e combinações que se dançarão em frente ao palco. Nos concertos da noite a população sai à rua e observa bem disposta a animação. «Os jovens revelaram-se respeitadores, educados, e muito empenhados nas iniciativas, ficando toda a gente satisfeita com a sua presença na aldeia» - diz o Presidente da Junta.

Noite dentro, já com cheiro a despedida e a fazer lembrar dilemas de agenda, uma flauta trauteia por breves momentos a Carvalhesa e uma guitarra galega faz soar Zeca nas vozes presentes...

Sortelha – uma terrinha (carinhosamente) a caminho do fim do mundo. Pouca gente. Espírito familiar. Casas de pedra. Paisagens verdes. Música e dança... e dança e muita dança...




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quarta-feira, julho 18, 2007

Venham mais vinte

É certo que o Pedro acabou com chave de ouro, mas foi uma pena terem chegado ao fim. Para quando mais vinte?

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sábado, junho 30, 2007

Todos os caminhos

Alentejo - Portugal
Fotografia:
Pedro Gilberto

Findo Junho, mês em que procurámos percorrer alguns dos caminhos de Portugal, fica sempre aquela sensação de pesar por não nos termos referido à beleza daquele local em particular. Da minha parte, é quase um acto de sacrilégio terminar este mês sem me ter referido às lindíssimas vilas de Sintra, Óbidos ou Reguengos de Monsaraz [que o Carlos Malmoro teve a bem-aventurada ideia de referenciar no seu périplo]. Também lamento a falta de referência adequada às ilhas açorianas, particularmente à de São Miguel e à beleza natural da Lagoa das Sete Cidades. E por falar em lagoas, embora numa dimensão bastante mais reduzida, também me faltou uma alusão condigna à magia que emana da Lagoa Azul, no eixo Sintra-Cascais.

Podemos até não ter muito orgulho do nosso país [falo por mim] mas, apesar de tudo e até ver, se há algo de que nos podemos ainda envaidecer é da beleza única de alguns dos seus lugares.

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quinta-feira, junho 28, 2007

Cidade Oculta

Maldigo a espaços a natureza noctívaga que me impele a não aproveitar a plenitude das manhãs luminosas. Era pois uma manhã de sol aquela em que inesperadamente me (re)encontrei na cidade que albergou e nutriu o amor do meu pai e de minha mãe, os viu crescer juntos e assistiu também numa manhã de sol à união indissolúvel que perdurou até a um dia de Setembro. Nesta manhã a luz beijava a cidade, o céu azul como cenário para a Sé, as ruelas estreitas e o granito, sempre presente, definitivo e resistente, frio e imenso. D. Duarte bem no meio da praça a que empresta o nome e as gentes acordando com a cidade, um bom dia aqui e ali tão genuíno com a luz matinal, o bulício miudinho com a lentidão de um corpo que se espreguiça com a alvorada do espírito, as portas das lojas abrindo como pestanas e gente daqui para ali com algo para entregar, pão, jornais, encomendas, e a luz entre as ruas estreitas daquela parte da urbe, as casas estreitas unidas como abraços, e eu e o meu pai redescobrindo a cidade, a sua cidade, e ele sussurrando-me vês, vês como é bonito o granito, vês, como é linda a Sé, olha aqui e eu, sem ele e com ele, a tudo ver, sim, Papá, que linda está a cidade, que bonito o granito sim, e olha Papá, olha ali e ele sempre a meu lado, rematando, eu bem te disse, filha. Afinal quem é que tinha razão? Deixando-me sem resposta, apenas com as palavras engasgadas na garganta eras tu, Papá e ambos continuámos pela cidade, eu e ele, eu revendo tudo e ele reafirmando como sempre as suas certezas e feliz como sempre em partilhar o que lhe era querido como sempre fez também. Sem ele agora. As cidades ocultas revelam a sua perfeição em diálogos inaudíveis.


Viseu
foto: minha

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quarta-feira, junho 27, 2007

O direito à preguiça

Quarteira é o meu refúgio de férias. Apesar do imenso mar de gente em Agosto, há em Quarteira, para mim, uma magia especial.
O calçadão, a feira nocturna de artesanato/livro, o delicioso parque infantil, as peixeiras da praça, o peixe fresco, a praça da fruta, caríssima, mas imodesta; a irreverência social de Vilamoura, dos brasileiros, dos luso-africanos, dos turistas, dos regionalismos; o cheiro intenso a mar, as tascas, os restaurantes, o marisco, a padaria, as esplanadas e os nadadores salvadores don juans.
A sujidade das ruas, as damas e os cãezinhos; os preços convidativos do supermercado, do peixe, da fruta; as ruas apinhadas de carros, pessoas, criaturas, figuras e mais transeuntes; e, fundamentalmente, a míngua, insuficiência, escassez e, quiçá, penúria, de areal.
A praia, para mim, é sinónimo de preguiça, indolência, vadiagem e sornice.
Se, por acaso, encontrarem uma preguiceira num qualquer areal, sou eu, e tenham, sobretudo, em atenção, que não são bem-vindos discursos louvando o empenho, a competência e os benefícios da interacção.
Quando um corpo se conforma a um areal, um intelecto vagueia rumo a um desconhecido, o sol inunda uns poros de relaxamento, não há nenhum motivo político ou social que impeçam um certo mirar de faz de conta, um cuidar apaziguador, um vigiar aceso, outro de benevolência, e, aqui e acolá, um contentamento à laia de serviço social; depois, e também, um vaguear ondeante pela impertinência intelectual de certas pernas, físicos ou importunidades matizadas; não sem um quê de consciencialização da irreverência teórica do estudo dos outros.
Enfim, acima de tudo, não peço desculpa, pois, eu e o meu direito à preguiça, são bens inegociáveis.

Nota: as fotos são da responsabilidade de uma senhora muito temperamental, chamada Sony Cyber-shot, é vulgar ouvi-la louvar as suas Carl Zeiss, os efectivos 4,1 mega pixeles, o 3x optical zoom.
Costumo segredar-lhe ao ouvido; uma espécie de chamada a terra, necessária a quem não sente que o sucesso lhe subiu à cabeça; caríssima a Nikon recente observa a realidade com uma outra reverência: 8/9 pixeles, ou qualquer coisa do género, já lhe perdi a conta.
A folgazona encolhe os ombros e murmura:
- e, por acaso, já reparaste na deselegância do seu estojo?
Caríssimos, quando se convive de perto, com maus feitios, temos de encolher os ombros e seguir em frente, é que, acima de tudo, nos tempos que correm, não abunda a pachorra.

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terça-feira, junho 26, 2007

Tríptico

Quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar, diz o adágio, que, como é proverbial nestas coisas, também se engana. Já passei por lá, nunca lá voltei. Nada contra, aliás o tempo contra. A cidade é dominada pelo portentoso Mosteiro de Santa Maria. Se se costuma dizer que os romancistas só devem escrever sobre o Amor e a Morte, por serem essas as duas únicas questões importantes da Humanidade, então deve escrever-se sobre um mosteiro onde estão sepultados Pedro e Inês. Além disso, a imponência meticulosa da arquitectura pode sempre dar uma ajuda às descrições.


Gosto de Tomar. Uma cidade feita ao longo do Rio Nabão, parece uma aldeia grande, não existissem tantos e tão variados monumentos, desde conventos a ermidas, e de aquedutos a sinagogas. Dizer que Tomar é a cidade do Convento de Cristo é redutor, muito redutor. Há um encanto qualquer daquela pequena cidade que sobreviveria, imaginemos, ao desaparecimento do Convento. Aliás, ele está altaneiro em relação à cidade e, portanto, não acrescenta nada ao fascínio do centro dela. Contudo, o Convento de Cristo é talvez a única coisa em que eu e a Ministra estamos de acordo: se votasse nas Sete Maravilhas, o meu primeiro voto iria para ele.




Eu não sei se foi a aldeia da Batalha que deu o nome ao Mosteiro ou o contrário. Segundo reza a História, foi erigida como cumprimento de uma promessa de D. João I por ter vencido a Batalha de Aljubarrota. Contou com a ajuda, como se sabe, da Virgem que acudiu ao pedido, do célebre método do «Quadrado» e de uma improvável padeira. Mas o mais improvável é que o local do Mosteiro onde se atinge o expoente máximo da perfeição dê pelo nome de Capelas Imperfeitas.


Para fechar este tríptico com um pouco de anarquia, nada melhor que falar sobre mais dois sítios. Em noventa por cento dos casos, a primeira viagem às «Portas do Sol» em Santarém, decorre na visita de estudo do 10.º ano para melhor enquadrar as «Viagens na Minha Terra» de Garrett. Assim como Joaninha e um homónimo descobrem o amor por essas bandas, assim nós descobrimos a infinidade da lezíria ribatejana. Outra terra digna de registo neste mapa é Almeirim, mas por motivos gastronómicos. Não, não é a sopa de pedra, que é um assombro, nem os sumos Compal, que também não são nada de se deitar fora. O que me vem à memória quando falo em Almeirim é o Magusto de Bacalhau, meus senhores, que, com tanto mosteiro, convento e igreja a rodear deve ter sido criado a partir de uma receita de deus. Só para terminar, e dando razão ao Nobel português, uma perguntinha aos caros leitores da zona centro: onde foram buscar essa imensa lua brilhante que vocês têm?

fotos 1, 2, 3

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segunda-feira, junho 25, 2007

a minha aldeia...

Sou uma menina da cidade. Nasci na cidade grande e sempre morei na cidade. Já os meus pais moravam na cidade e as minhas avós também cá andavam. Conclusão, nunca tive uma aldeia minha...


A minha aldeia tem ruas estreitas e sinuosas de paralelos tortos... ou ruas direitas e amplas – ainda não decidi. A minha aldeia tem casas de pedra encavalitadas... ou casas caiadas muito bem alinhadas – ainda não decidi! A minha aldeia tem em volta um vale recortado... ou planícies imensas – ainda não decidi. Acho que a minha aldeia tem um rio... ou um ribeiro – ainda não decidi –, mas um daqueles que «não faz pensar em nada» e que «quem está ao pé dele está só ao pé dele». Na minha aldeia, o azul é do céu e o verde é dos campos. Na minha aldeia, come-se sentado em casa de volta da mesa ou em roda do meio do monte. A minha aldeia tem recantos escondidos e portas abertas. A minha aldeia tem gente! Tem gente que conversa, tem gente que se conhece, tem gente que cumprimenta quem passa, tem gente que conta histórias, tem gente que sabe esperar, tem gente que vive devagar, tem gente que sabe ouvir, tem gente com memória... Na minha aldeia, «sinto mais longe o passado» e «sinto a saudade mais perto», apenas porque, na minha aldeia,... sinto!



Na minha aldeia a vida é maior...
A minha aldeia não é a minha cidade...



[Excertos de Alberto Caeiro ("O Guardador de Rebanhos") e Fernando Pessoa ("O sino da minha aldeia")]
imagens: Montalegre (1) (2) e Castro Verde (3) (4)

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domingo, junho 24, 2007

A minha é assim

A minha Ericeira é uma parte da minha adolescência. O mar da minha Ericeira riu-se de mim quando tentava aprender a surfar e aplaudiu, tenho a certeza, a minha decisão de nunca mais o fazer. A minha Ericeira é frequentar o bar de Ribeira d'Ilhas e perceber que um olhar muito "em cima" pode deitar por terra um "trabalho" de sedução começado há horas, por vezes dias, a uma cachopa. A minha Ericeira é o sítio de descanso no meio do treino de ciclista: Sintra, Lourel, Terrugem, S. Julião, Ericeira, pausa para restabelecer, retomava em direcção a Mafra, Cheleiros, Pero Pinheiro, Terrugem, Lourel e Sintra, de novo, mais morto que vivo, depois deste calvário com cerca de cinquenta quilómetros, tão plano quanto uma montanha russa. A minha Ericeira sabe que já tomei banho à meia noite no seu mar. A minha Ericeira tem a memória vergonhosa, que guardou em absoluto segredo, como boa amiga que não troça dos seus companheiros, do ataque de tosse provocado pelo primeiro cigarro que tentei travar. A minha Ericeira tem uma extraordinária qualidade: não há nenhuma parte dela que eu possa considerar como não sendo a minha Ericeira.

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quinta-feira, junho 21, 2007

Minha

A minha Ericeira não é a Ericeira de Agosto. Não é a Ericeira do Verão desenfreado, das tias ostentando o ouro baço, martelado ou branco e marcas da moda pretendendo aparentar sempre uma boa dezena de anos a menos, dos cavalheiros bem falantes de cabelo lambido e olhar pegajoso, como se adivinha o cabelo.
A minha Ericeira não é a Ericeira dos Domingos, das fatiotas domingueiras com rostos domingueiros e perfumes rascas também eles domingueiros. A minha Ericeira não é a Ericeira do marisco do e no início de cada mês, dominical por certo, das gentes que alarvemente se despenham em ruídos entre percebes e sapateiras e exalam, nesse meio tempo, o odor domingueiro das cidades suburbanas, bolorentas.
A minha Ericeira não é a Ericeira dos impessoais monstros de betão. A minha Ericeira não é a Ericeira dos donos dos monstros de betão. A minha Ericeira não é a Ericeira de alguns dos habitantes dos monstros de betão. A minha Ericeira usa chinelo e fala a língua das gentes despretensiosas.
A minha Ericeira é simples, ornamentada com a sua própria beleza natural, enfeitada com a grinalda de espuma das marés violentas. A Ericeira da bruma. A Ericeira do Inverno e da Primavera, apenas a azáfama das suas gentes, sem a gente de Domingo suburbana, muito mais suburbana do que se pensa, mais saloia até, mas nunca jagoza.
Passear a Ericeira numa manhã soalheira, igual em que estação, é uma dádiva dos deuses. Quem sabe se Vénus e Neptuno não terão por aqui se amado com o sentir ardente dos corações arrebatados. Terá nascido esta terra e este mar, o salgadiço no ar, da virilidade ondulante de Neptuno mesclando-se na sensualidade doce de Vénus, apadrinhados por Éolo obstinado? O céu atinge um azul indefinível e a calmaria, apenas a espaços entrecortada por um chinelar vigoroso dos filhos desta terra de mar ou um chamar convicto e forte, constitui uma terapêutica preciosa.
Esta minha Ericeira é a Ericeira do linguajar próprio, sempre rápido, sempre rude, abrupto e desabrido, do perfumado aroma a maresia pelas ruelas alvas, inconfundível e ímpar, como nunca, nunca em outro lugar do mundo senti, do mar bruto e gélido. Também das gotículas que dele saltitam para nos brindar.
Esta minha Ericeira é a Ericeira dos pássaros a chilrear no Jogo da Bola, do fumo das castanhas no Outono, do mar rebelde nas Furnas, do cheiro a peixe grelhado pelas ruas do Norte. A Ericeira dos bolos e batatas fritas na praia do Sul, dos retemperadores finais de tarde na esplanada, estação obrigatória entre a agitação do dia e o bulício da noite vindoura.
Esta minha Ericeira é também a Ericeira da brisa marítima e da neblina, das noites longas e das ondas grandes, das pevides à porta da Igreja. O casario caiado, limpo, puro. Esta minha Ericeira é mulher caprichosa que apenas se mostra quando quer, e que como as mulheres caprichosas e belas, só se deixa sentir quando entende e se entende, como se muitas vezes medíssemos forças, em vão, com a natureza impetuosa para nos fazer sentir, a espaços, o sabor da vitória conquistada, como com as mulheres caprichosas. Mulher caprichosa e bela, egocêntrica também, única filha única do amor desenfreado entre Vénus e Neptuno. E a tua? Como é a tua Ericeira?

Foto: gentilmente cedida por um amante da Ericeira

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quarta-feira, junho 20, 2007

Pelos caminhos de Portugal

Há uns anos, resolvi alugar uma Ford Transit, com dois grandes amigos, e partir rumo ao Portugal Profundo: Trás-os-Montes.
Éramos três jovens adultos, com alguns interesses incomuns.
O mais comum era um apreciador convicto de Maria Bethânia, Simone, Chico, Caetano; um dos Cure, Joy Division, Cocteau Twins, The Smiths, e também o catálogo da Rough Trade; e, por fim, outro de Tina Turner, Nina Simone, Ray Charles, música da alma, dizem.
Durante o trajecto tive a grata oportunidade de reequacionar a reflexão: gostos musicais versus viagens de longo curso versus amigos logo teste à capacidade de (in)tolerância.
Entretanto alguém continuou a detestar, firmemente, Maria Bethânia.

Trajecto:
1 - Coimbra rumo Bragança, com algumas paragens, amiúde a recontagem dos trocos inseridos na caixa comum, que servia, nomeadamente, para o gasóleo da velha Transit.
Percorremos em primeiro lugar, Bragança, há 15 anos, era uma cidade muito feia e descaracterizada, gostei apenas dos seus monumentos históricos, de resto detestei a envolvente: prédios sem o mínimo de estudo urbanístico, casas velhas, lixo.
2 - Rio de Onor, uma aldeia no parque natural de Montesinho, muito bonita, reconstruída, mas apenas com meia dúzia de habitantes, como diz a reportagem do sapo, ali está-se fora do mundo, lembro-me nitidamente no cantar da ribeira e do café da aldeia, por lá ficámos a ver correr o tempo, durante um dia e meio.
3 - Miranda do Douro, adorei a cidade, aliás foi, sem dúvida a minha cidade preferida. Apesar de a envolvente extra-muralha prosseguir o crescimento desenfreado e sem ordenamento, o centro, bastante cuidado, limpo e conservado era um convite ao passeio, apesar do calor infernal, próprio de Agosto. Lembro-me nitidamente de ter encontrado um colega de faculdade apreciando a paisagem do rio e a sensação muito nítida do "afinal, ele há coincidências!"
Regresso a Coimbra, após uma semana de trajecto. Quando cheguei a casa o que mais me agradou foi ter finalmente dormido numa cama e ter tomado um banho decente. Foi com esta viagem que perdi a inocência acerca do acampar, depois disso, só o fiz uma vez mais, e, relembrei, amiúde, o desconforto da outra viagem por terras de além montes.
Não sei o que é isso de «interiorizações perfeitas», prevejo, no entanto, uma séria candidata:
viajar? só com cama pelo meio.

Fotos 1, 2 e 3

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terça-feira, junho 19, 2007

Também se aplica a abstémios

Podem visitar os menires, podem admirar a vila altaneira à planície alentejana, podem achar o Forte de S. Bento um espanto, podem apreciar a arquitectura árabe nas suas casas caiadas, podem arrebatar o palato com Açorda de Peixe do Rio, podem descobrir ruas labirínticas, enfim, podem deleitar-se com uma miríade de maravilhas. Mas, por favor, nunca digam a ninguém que visitaram Reguengos de Monsaraz e que não beberam o seu majestoso vinho. Isso é pior do que ir a Roma e não ver o Papa. Mesmo para ateus. Como é o caso.

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segunda-feira, junho 18, 2007

praia do Barril

Manhã cedo, porque a viagem ainda é longa e todos querem aproveitar bem o tempo, toca a carregar o carro: sacos, toalhas, guarda-sóis, pára-vento – sim, porque nesse dia estava sempre vento! – brinquedos, raquetes, bolas e lancheira preparada para o dia passado fora. 10 min depois da partida: «Ainda falta muito?...» «Falta!»

Muitas perguntas depois, finalmente, o «Ainda falta muito?» tem uma resposta positiva. Já se vêem as casinhas de Pedras d'el Rei. Chegamos à ria. Estaciona-se e toca de tirar do carro: sacos, toalhas, guarda-sóis, pára-vento, brinquedos, raquetes, bolas e lancheira. Uff... Ainda falta para chegar, mas aproxima-se um dos momentos mais ansiados: o comboinho! Antes disso, ainda a ponte... Por causa dela, havíamos trocado os chinelos pelas sandálias, não fosse algum ficar preso nas tábuas mal alinhadas. Guardam-se os chapéus para não voarem e cá vamos nós alegremente pela ponte flutuante que abana à passagem dos visitantes e muda de configuração ao sabor das marés...

O comboiinho!!! "Confortavelmente" instalados, com a mão direita a segurar o saco, a esquerda a agarrar a criança que se abraça ao seu balde, o pé direito a fixar o guarda-sol e a perna esquerda a amparar a lancheira, a cabeça gira como pode para espreitar a fuga dos caranguejos à passagem barulhenta do comboio. Tu-tu tu-tum tu-tu tu-tum... Como eu gosto de andar no comboinho! Uma pausa a meio do curto caminho, para permitir o cruzamento com o segundo comboio – vazio! – em sentido contrário. Chegamos à praia! Volta a carregar o saco, a toalha, o guarda-sol, o pára-vento, os brinquedos, as raquetes, as bolas e a lancheira.

Uma pequena caminhada até ao espaço perfeito que combina as dunas, o areal, e o mar. Monta-se o "estandal"! «Já posso ir para a água?» Desta vez, a resposta é afirmativa à primeira, pois o tempo da viagem havia já permitido a digestão sossegada do pequeno-almoço. A água límpida e carregada de algas verdinhas aguça e retrai a vontade do mergulho; mas devagar, devagarinho e procurando o melhor local, a gente habitua-se [ou não!] àquela presença estranha. Um grande passeio pelo areal imenso é acompanhado pela recolha de conchas, búzios e pedrinhas. Hora da construção: uns túneis, uns castelos, uns desenhos de dedo espetado na areia – tudo cuidadosamente aprumado. Uma voltinha de gaivota é motivo de festa. Mas, para além do comboiinho, um outro ponto forte do dia também se faz ouvir à distância: «boliiiiiiiiiinhas!!!» – é que, de facto, as melhores bolas de berlim sem creme são as da praia do Barril; não há dúvidas!!!

O dia começa a chegar ao fim... Arrumam-se os sacos, as toalhas, os guarda-sóis, o pára-vento, os brinquedos, as raquetes, as bolas e a lancheira. De novo o comboiinho... De novo a ponte... Ainda dá para um mergulho na piscina e uma bola de gelado em Pedras d'el Rei. O pôr do sol põe-nos Tavira no horizonte para um passeiozinho nocturno. E, completamente rota, a viagem de regresso é uma viagem santa no carro que de manhã tanto se havia impacientado... Para o ano há mais!...

imagens (1) (2) (3)

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sexta-feira, junho 15, 2007

Locais "secretos"

[clicar na imagem para observar melhor os detalhes]

Fotos: minhas

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quinta-feira, junho 14, 2007

Lux

Lux? perguntaste tu. Lux, como o sabonete? Era dia de semana, azul e luminoso, e passeávamos pela cidade de meu coração, a cidade que amo acima de todas, porque lá fala-se a minha língua e a minha língua é a minha Pátria, como Pessoa afirmou. O caos é ele próprio uma forma de vida e cidade alguma consegue mimar-nos como Lisboa, com a luz de Lisboa. A primeira luz que vi, a primeira cor do mundo foi a cor de Lisboa e a última cor que verei, será a de Lisboa também?
Cidade branca, cidade cinzenta, cidade azul, pintada de cores e humores, caprichosa e voluntariosa, paciente e terna. Como línguas, as ruas alongam-se até ao rio. Há carros, sempre carros e camionetas e comboios e eléctricos. Outrora amarelos, mas ainda da Carris. Há pobres e ricos, há pretos e brancos, há louros e morenos, há mães e putas, há viúvas e órfãos. Há pedintes, nacionais e estrangeiros, anunciando o advento da multiculturalidade também nesta “triste forma de vida” e arrumadores, andrajosos e miseráveis, quase todos, convictos no desempenho da sua função e sempre sequiosos da recompensa, obtida mais por receio do que merecimento.
A vida flui calma no stress mediterrânico de quem tem muito que fazer, embora os horários mais não sejam do que ténues pontos de referência para quem quer ver as notícias das oito ou das dez ou as incontáveis telenovelas de gosto duvidoso, cujo efeito terapêutico provoca uma catarse, colectiva e individual, em domésticas e executivas, ecoando no ar como um sonoro orgasmo simultâneo.
Assim é a minha cidade. Magnífica, como só ela sabe ser, e todos os dias ela cresce, a cidade, e se deixa descobrir, brindando-nos com as inúmeras vistas e as perspectivas sempre renovadas, ângulos novos reveladores da alma da urbe. Eternamente, o Miradouro de Santa Luzia. Sempre Alfama, sempre o Castelo e a Sé, mas também as zonas ribeirinhas onde paira amiúde a maresia, a maresia do rio. Cheira-me repentinamente a sardinha assada e a manjerico de Santo António de Lisboa, e a cidade torna-se ainda mais colorida, mais feérica. Agrada-me a Lisboa dos roteiros turísticos, a Lisboa brejeira e varina, de braço dado com a mais sofisticada e elegante, e esqueço os subúrbios quase imorais de tanta fealdade e, agora que se me foi o cheiro da sardinha, regressa o fumo semi-opaco das castanhas assadas e sim, agora sim, agora ecoam os versos de Cesário Verde que, também ele, cantou Lisboa, o Tejo e a maresia, e vejo o bulício espesso de que falava Nas nossas ruas, ao anoitecer...
A cidade, a mãe, a matriz. Lado a lado íamos as duas. As duas admirando a cidade, as duas sentindo a cidade onde me puseste no mundo, acredito que não por acaso, e aguardaste ansiosamente que os mínimos olhos de recém-nascida se abrissem, para o mundo, para ti, minha mãe, para a cidade também, na esperança que fossem ínfimas esmeraldas ou pequenitos cristais, cor de mar caribenho, ou talvez duas gotículas do Tejo, indefinidas entre o azul e o verde, como o mar, como o Tejo. Mas não, minha mãe, eram negros os olhos, como duas azeitonas, contas tu e então sorrimos enternecidas e somos verdadeiramente mãe e filha.
Há muita plenitude em ser mãe, muita grandiosidade também, dizem, que de ser mãe nada entendo. Ser filha pode ser pleno e grandioso também. Quando almoças comigo na cidade, quebrando a solidão de horas a fio que mais parecem ser dias, dias cinzentos e opacos, dias sem sol, nem azul, ou quando esperas pacientemente que, empolgada, passe revista a todas as camisas, camisolas, tops e t-shirts, existentes nas lojas de roupa e me fazes notar, como só as mães sabem, que aquela blusa branca, aquela que me parece tão gira e diferente, é exactamente igual a todas as outras que tenho, também isso é belo e igualmente pleno. Este dia, em que ambas comungávamos a urbe encantada sob o brilho dourado do sol do meio-dia, não era dia triste, era grande e perfeito, como o sol de Lisboa, e quando te mostrei um dos locais badalados da noite na cidade e me questionaste algo incrédula a sua graça Lux? Lux como o sabonete? nunca foi tão inebriante nem tão belo o cheiro a sabonete.


foto: minha

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quarta-feira, junho 13, 2007

Praia da Tocha

A praia da Tocha fica a cerca de 30 kms de Coimbra, distrito de Cantanhede, entre a Figueira da Foz e a praia de Mira.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui à praia da Tocha, na altura tirei uma daquelas fotos que se costumavam tirar na praia, lembram-se? Normalmente sentados num cavalinho de pau. E num preto e branco muito cinzento.
É claro que tanto na praia da Tocha, como na Figueira, o cinzento de fundo coincidia com alguma ventania passageira.
Para estas bandas, praia e ventania são elementos absolutamente conciliáveis. Aliás, os dias que mais recordo da praia, seja ela qual for, ou é o sol escaldante ou a ventania cortante.
E até em paragens habitualmente consideradas idílicas o vento me acompanhou.
Deve ser companheiro de jornada, um amor indefectível.
Manifesto, aqui, o meu desinteresse por tal amor.
Se há coisa que eu não suporto, na praia, é não poder ler sossegadamente um dos livros que escolhi para aquele Verão.
A avenida principal da praia da Tocha está virada para o mar, como seria de se esperar, e torneada de um lado pelos limites indefinidos do Oceano Atlântico e pelos palheiros, alguns recuperados outros não, e por um ou outro café com esplanada, e um ou outro prédio/casa pouco respeitador da construção típica.
Quando entramos na vila, uma rotunda recebe-nos de braços abertos e oferecendo duas alas, aparentemente inconciliáveis: uma revelando uma construção atípica e pouco atenta à preservação de uma certa forma de estar; e outra recreando os palheiros dos pescadores e um cuidado extremo nos arranjos exteriores, verdes e arborizados.
A primeira vez que fui à praia da Tocha lembro-me do fotógrafo com o cavalo e aquela máquina mágica e, igualmente, dos bois puxando o pescado e a imensidão do mar e areal.
Essa imagem ainda perdura na minha memória e de tal maneira que sempre que chego à praia e em substituição dos bois, vejo os tractores, resisto à mudança. É uma forma, muito minha, de ter espaço para resistir a alguma coisa, nem que seja ao upgrade das memórias.

Fotos 1 e 2

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