quinta-feira, novembro 13, 2008

Os discursos políticos serão o que parecem?

O aparente vazio ideológico dos apologistas do mercado livre (neoliberais) assustou (e de que maneira) os políticos tradicionais. De repente alguns acordaram do seu torpor e viram os homens de negócios:
- enriquecerem desmesuradamente;
- invadirem as esferas sociais, económicas, políticas e culturais;
- manipularem a informação de uma forma desgovernada;
- potenciarem o fortalecimento dos movimentos sociais e do seu poder incontrolável;
- transaccionarem com fascistas e com comunistas;
- contribuírem activamente para o aparecimento de um novo império;
-….

Então, começaram a pensar seriamente no seu modelo social e aperceberam-se do óbvio: o mundo poderá transformar-se num campo de batalha social incontrolável. A diabolização do consumo, a protecção do ambiente e as novas formas de produção de energia, a desigualdade de oportunidades do mercado livre e a necessidade premente da regulação da economia… poderão potenciar outras leituras: o regresso da regulação como forma de novo controlo social, político, económico e cultural.

Nota final:
O governador do Banco de Portugal já nos deu a entender algo de muito subtil: certos políticos andam desertinhos para arranjarem um bode expiatório. Para quê? Para uma certa gestão catastrófica e fraudulenta (BPN).

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domingo, novembro 09, 2008

Um circo decadente*

Ontem fui ao circo.
O palhaço tinha aquele ar de palhaço triste mas só ajeitava disparates, a maior parte dos disparates não tinham graça nenhuma;
A roupa do ilusionista era deprimente tal como a sua cartola preta sem brilho e o seu coelho branco anoréctico;
O domador de leões parecia um daqueles mafiosos d’O Padrinho. Um daqueles que beija a mão a Marlon Brando e a seguir o atraiçoa. O Leão obedece entre a preguiça e a fome.
Os acrobatas voam e de pirueta em pirueta inquietam o peso a mais e o início da decadência atlética;
A menina dos doces exagerou na maquilhagem, disfarça mal a idade, as suturas e a decadência financeira do circo;
O domador de cavalos é o único com futuro, é o símbolo de um certo jogo de faz de conta: entre a juventude, a arrogância, a beleza física e a generosidade.



*"Dizei, minhas filhas - uma vez que queremos despojar-nos do governo, dos territórios e dos cuidados do Estado -, qual de vós me quer mais? (...)
Kent tem de ser rude quando Lear está louco. Que queres fazer, velho? Cuidas acaso que o dever tem medo de falar, quando o poder se curva à lisonja? É honra ser franco se a realeza dá em loucura."
SHAKESPEARE, William (2002). O Rei Lear. Lisboa: editorial Caminho. (tradução de Álvaro Cunhal).

Reflexões avulsas (entre a monarquia e a república):

A decadência da monarquia é complexa, contudo as intrigas políticas e toda a sua parafernália circense envolvendo traições palacianas e mortes anunciadas cavaram a sepultura de um determinado sistema político.

A gula económica, as intrigas políticas, o alheamento da verdadeira finalidade da sua função irão ditar o fim da política conforme a conhecemos.

Os interesses ideológicos cíclicos tresandam a uso indevido tanto dos dinheiros públicos como dos privados.

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sábado, novembro 08, 2008

O mercado é quem mais ordenha

A reacção de determinados políticos ao neoliberalismo (e à fobia da falta de poder) parece estar a tornar-se cada vez mais evidente, num mundo desregulado quem favoreceu oportunidades de desregulação foi quem mais ordenhou.

Mas e então? Como é que tratamos da vidinha?
Hum, boa ideia: Negócios e Políticas Lúdicas;
Hum, boa ideia: Estado e Políticas Lúdicas;
Hum, boa ideia: Instituições financeiras e Políticas Lúdicas;
Hum, boa ideia: Direito e Políticas Lúdicas;
Hum, boa ideia: Jurisdição e Políticas Lúdicas;
Hum, boa ideia: Comunicação Social e Políticas Lúdicas;


O Estado, a política, a economia, a educação, a saúde, a justiça, determinada comunicação social, … são uma espécie de bolo cujas fatias são milimetricamente distribuídas, de forma ideológica e ciclicamente equitativa.

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sexta-feira, novembro 07, 2008

Entre a arte e a política

Uma das notícias da manhã é o elogio, politicamente incorrecto, de Berlusconi ao novo Presidente dos EUA.
O elogio de Berlusconi poderá "facilitar" múltiplas leituras:
- projecção de um determinado arquétipo de beleza?;
- predominância do físico (superficialidade) em relação ao intelecto e, consequentemente, aguarda-se uma acção (do presidente dos EUA) vazia de conteúdo?;
- amabilidade e elegância política já que Berlusconi reafirmou a sua veia humorística ao lado do não menos brincalhão, jovem, bonito e bronzeado presidente da Rússia?;
- a figura de um Messias é incompatível com a beleza física?;
- …

Outras reflexões avulsas:
- Há qualquer coisa de comum entre o comportamento estético e ideologicamente incorrecto de Haider e o elogio melindroso de Berlusconi?
- Entre um e outro sobressaem arquitecturas minimalistas louváveis e evidenciam, sobretudo, uma nova forma de estar na política?
- A política será uma nova forma de arte?

Nota humorística:
Na versão em papel do Público de hoje a intenção desta notícia é desocultada, fotograficamente, de uma forma brilhante. Parabéns ao fotógrafo (e ao Photoshop?).

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domingo, novembro 02, 2008

Reflexões avulsas acerca do Ranking das escolas

1 - Vital Moreira e Helena Matos escrevem sobre o ranking das escolas. Tanto um como o outro defendem um determinado modelo de escola. Daí que os seus argumentos sejam incompatíveis. Parece-me óbvio o seguinte: quando se fala sobre um determinado modelo de escola fala-se, obviamente, sobre um determinado modelo de sociedade, quando falamos sobre um determinado modelo de sociedade falamos sobre ideologias. A educação é, assim, palco para um confronto ideológico. O que é que a escola poderá ganhar com isso?

2 - As classes médias/altas não são exclusivamente de direita ou exclusivamente de esquerda. As classes médias/altas perceberam que a criação de uma determinada elite depende única e exclusivamente da transmissão/perpetuação de um determinado tipo de conhecimento. As classes médias-altas tanto pertencem à elite tradicional como à elite em constituição. As elites, sejam elas de esquerda ou de direita, sabem o óbvio: um determinado tipo de conhecimento (logo preparação) permite (também mas não só) o acesso ao poder.

3 - Helena Matos tem argumentos convincentes (as famílias são igualmente disfuncionais, a diferença está na valorização ou não do conhecimento. As famílias que valorizam o conhecimento escolhem escolas bem organizadas), bem como Vital Moreira (os alunos fazem, obviamente, a diferença). Se calhar era importante realizamos um estudo (era só mais um) a respeito do assunto. O que leva uma família/aluno a valorizar um determinado tipo de conhecimento? Talvez as conclusões fossem demasiado perturbadoras para as ideologias que protagonizaram o poder nas últimas décadas, talvez fosse mais um estudo pago pelo erário público remetido para a sua verdadeira significância.

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sábado, novembro 01, 2008

Calças brancas em janeiro

O presidente do FMI resolveu vir mandar umas bocas sobre um super-regulador e etc e tal e nos tempos que correm e é absolutamente prioritário e rebeubeu pardais ao ninho. José Sócrates respondeu-lhe do outro lado do Atlântico. Se o FMI pensa que sim mais que também pode ir tirando o cavalinho da chuva, pois agora quem manda nisto são outros pardais. Aguardo, com expectativa, uma certa novidade: o super-regulador (vulgo Deus) será um político de um país em desenvolvimento eterno.

Jack Santers e Romano Prodi estão muito preocupados com o excesso de protagonismo de Sarkozy e a míngua do nosso Durão Barroso. Ambos foram presidentes da Comissão Europeia efectivamente protagonistas e comummente relevantes. Tem, por isso, muita pertinência a sua (deles) observação.

John McCain levantou suspeitas acerca da proveniência do dinheiro de campanha de Obama. Em relação à proveniência do dinheiro da campanha de McCain poderemos dormir descansados, afinal ainda há quem dê donativos por desinteresse.

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terça-feira, outubro 14, 2008

Modelos e Classes Sociais

O capitalismo acabará um dia, mas ainda não é desta.
O capitalismo é um sistema resultante da capitulação de outro sistema.
Um dia destes o capitalismo será substituído por outro sistema mais conveniente às classes sociais predominantes.
A história da humanidade é uma luta de classes constante, como muito bem observou Marx.
A sua leitura da história da humanidade remetia para a consciencialização do operariado enquanto classe como forma para atingir o poder(*).
O conflito é a cereja em cima do bolo para qualquer classe social cujo objectivo seja o poder.

O modelo de Marx não foi o adoptado pelos diversos estados comunistas (embora a ala direita nos pretenda vender essa ementa). Nos estados comunistas adoptou-se um modelo particular, como muito bem caracterizou Orwell numa das suas paródias mais famosas: O Triunfo dos Porcos. Tal modelo consistiu no advento de uma nova classe a dos iluminados, os escolhidos do regime e do proletariado como guias e orientadores da massa anónima. A adopção de um colectivismo aparentemente igualitário, culto da personalidade, controle férreo da economia, sociedade e cultura foi com sucesso propagandeada como ditadura das massas, bem como a imposição do isolamento, disciplina férrea e a ocupação de todos os espaços pelo poder político. O temor, a apologia do medo foram os corolários do regime comunista o protótipo de um estado totalitário(**).
Os países comunistas ocuparam de tal forma o espaço humano, que se transformaram em estados concentracionários. Um modelo de Estado-Providência levado às últimas consequências.
Até aos anos setenta também o Ocidente adoptou tal modelo de Estado, com algumas nuances. No Ocidente apesar do Estado-Providência ter funcionado como uma oportunidade para repor alguma justiça social, a exigência dos trabalhadores e a distribuição de riqueza começou a incomodar algumas classes sociais emergentes.
Thatcher na Inglaterra, Reagan nos EUA, anos 70, iniciaram então uma nova era.
A predominância do político e a regulação do económico foi substituída pelo seu inverso: a capitulação do político ao económico. Quem efectivamente exerceu o poder durante várias décadas, cerca de 30 anos, foi o poder económico. Em Portugal esse fenómeno ficará para sempre aliado, pelo menos na minha memória, a um acontecimento muito especial: a imposição de uma determinada hora aos deputados para a abertura da Assembleia da República. Belmiro de Azevedo foi quem simbolizou em Portugal a capitulação do poder político ao económico.
Durante estas décadas assistiu-se à usurpação de todo o espaço social, político, cultural pelo poder económico.
Os media transformaram-se em veículos publicitários e instigadores de uma era de consumo sem precedentes.
A nomenclatura e os procedimentos de gestão invadiram todo o espaço da actividade humana verificando-se, igualmente, a colonização de conceitos de gestão por toda a esfera das políticas públicas: avaliação de desempenho, eficácia, eficiência, produtividade, motivação, sucesso, ...
Os excessos do poder político através da ocupação total de todo o espectro humano foram assumidos e postos em prática pelo poder económico.
Assistimos agora à sua decadência, como assistimos outrora à decadência do outro modelo.

Os novos tempos sugerem-me uma questão: após a preponderância do político seguida do económico qual é o actor seguinte?

O episódio continua dentro de momentos...

(*) - Os digníssimos representantes do "peace and love" rapidamente foram "digeridos" pelo sistema e transformados em ícones altamente lucrativos.
(**) - Cunhal pretendia substituir Salazar através de um sistema político semelhante, apenas mudavam os actores e a explicação teórica de algumas práticas.

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